
Há mais ou menos seis meses, em uma dessas visitas à locadora numa tarde de sábado com minhas filhas Helena e Leticia, de 14 e 9 anos, decidimos apostar num filme diferente. Eu normalmente não gosto de musicais mas resolvi arriscar com Across the Universe pelas credenciais: música dos Beatles, com participações do Joe Cocker e Bono. Deve ser interessante, pensei. Foi muito mais que isso.
Assistir ao filme com as duas foi como uma daquelas experiências descritas por David Gilmour em O Clube do Filme. Assim que o musical acabou, conversamos sobre a carreira meteórica dos Beatles, a morte estúpida de John Lennon em frente ao Dakota (mostrei uma foto que tirei na frente do prédio na primeira vez que pisei em Nova York), a morte recente de George Harrisson, o show de Paul McCartney no Maracanã em 1990. A Helena se encantou e virou fã. Digitalizou e baixou no iPod um punhado de CDs antigos que tinha. A Letícia foi radical e em um único comentário: "Pôxa, como é que as músicas de um grupo com dois caras que já morreram e que só sobraram dois velhinhos acabaram em um filme tão bacana?"
É exatamente a reação das minhas filhas o motivo de eu estar contando aqui essa histórinha: The Beatles é hoje uma das marca mais poderosa do planeta. Quase quarenta anos depois de desfeito, o quarteto de Liverpool ainda é capaz de chacoalhar a indústria cultural e se mostrar um fenômeno de vendas. O estrondoso lançamento do game Rock Band The Beatles (veja aqui o ótimo filme de lançamento do game) e da coleção de CDs remasterizados com músicas da banda provam que o mito Beatles continua mais vivo do que nunca -- e isso entre jovens que nunca tinham ouvido falar deles antes. Por trás desse fenômeno, além das músicas incríveis, está um poderoso processo de gestão de marca capitaneado pela Apple Corps, fundada pelo quarteto no fim da década de 60 para administrar a imagem e os direitos do grupo. The Beatles, renascido na versão digital de 2009, é o melhor exemplo de como um produto espetacular é capaz de durar indefinidamente. Basta administrá-lo com cuidado.
Em meio à confusão envolvendo o anúncio da DM9 para o WWF, a Peta - aquela polêmica ONG que defende os direitos dos animais - volta ao centro das atenções ao se envolver em uma queda de braço com a CNN Airport Network, braço do canal de notícias que exibe programação exclusiva nos sistemas de circuito interno de TV dos aeroportos americanos. A rede decidiu não exibir um comercial da ONG criado para ser veiculado a partir de amanhã nos três aeroportos da região metropolitana de Nova York e estrelado por Pamela Andersen. O argumento é que o conteúdo da peça com cenas de nudez poderia ser visto por crianças ou chocar passageiros. Diante da recusa, a ONG agora tenta levar a peça para dentro dos aviões para ser exibida nos sistemas de entretenimento de bordo (confira nota do jornal New York Post sobre o assunto aqui). O filme batizado como "Crueldade não voa" está abaixo. Uma curiosidade: a cantora alemã Nina Hagen também faz uma ponta no filme, como a mulher amalucada que exibe um casaco de couro sintético. Em seguida do filme, entra outro comercial chocante da ONG estrelado por animais esfolados.
Em um movimento raro na propaganda brasileira, a empresa de telefonia móvel Nextel lança hoje um comercial estrelado por um cientista. Trata-se de Miguel Nicolelis, neurologista brasileiro que dirige o laboratório de neurociência da Universidade Duke, nos Estados Unidos, um dos mais importantes de mundo. Ponto para a Nextel e para a Loducca por trazerem para a propaganda uma figura que é antítese das celebridades que entopem os comerciais.
Nicolelis foi eleito uma das vinte personalidades para o avanço da ciência nas próximas décadas pela revista americana Scientific American e é autor de importantes pesquisas que investigam as causas e relações entre doenças devastadoras como Mal de Parkinson e esquizofrenia. Também é o criador do Instituto do Cérebro, centro de pesquisa erguido no Rio Grande do Norte, com o apoio da bilionária Lily Safra, viúva do banqueiro Edmond Safra, erguido no nordeste como parte de um esforço para levar o progresso científico à região. O comercial, que está abaixo, foi dirigido por Fernando Meirelles e filmado com uma câmera fotográfica no sertão do Piauí.
A confusão entre WWF e DM9 não só continua, como fica cada vez pior. Ontem o escritório brasileiro finalmente reconheceu que de fato aprovou o anúncio da agência (veja atualização no post abaixo) e em um comunicado conjunto com a agência, declarou que toda a história foi fruto da inexperiência dos profissionais envolvidos - ou seja, jogaram a bomba nos juniores, aqueles coitados recém-saídos do programa de trainee que ficam no staff intermediário e que teriam feito toda a besteira à revelia do comando das duas organizações. Bonito isso. (Atualização às 19:01 Veja aqui um comunicado do presidente da agência, Sérgio Valente, sobre "as consequências globais que mostram que o alcance de uma peça publicitária não é apenas local").
Além do anúncio impresso que veio à tona no dia 1º, a campanha teve também um filme (veja aqui). Para tentar controlar o estrago, a DM9 e o WWF tentam desesperadamente retirar tanto o comercial quanto o anúncio da internet - uma tarefa digna de Hércules.
Uma das grandes vencedoras do festival de Cannes desse ano, a DM9 enfrenta um sério problema de imagem. Uma peça de campanha recusada por um cliente caiu na rede e está provocando uma enorme polêmica nos Estados Unidos, a ponto de ser destaque do boletim online do jornal Advertising Age de hoje (veja aqui). Trata-se de um cartaz produzido para a respeitadíssima organização não-governamental WWF que mostra a ilha de Manhattan ainda com as duas torres do World Trade Center sofrendo uma espécie de raid de jatos de passageiros. No alto, junto à imagem do simpático panda da ONG os dizeres: O tsunami matou 100 vezes mais pessoas que o 11 de setembro. O planeta é brutalmente poderoso. Respeite-o. Preserve-o. Enfurecidos, os representantes do WWF emitiram uma nota desqualificando a peça dizendo que ela havia sido recusada e devolvida à agência. A DM9 por sua vez pediu desculpas e argumentou que não tinha nada a ver com a divulgação da peça e as pessoas que produziram o anúncio em dezembro do ano passado não trabalham mais na agência. (Atualização 3/9 - Ontem à tarde, a DM9 e WWF reconheceram que o anúncio foi aprovado e publicado em um jornal de São Paulo. Diz o comunicado à imprensa: Este anúncio não expressa o pensamento nem do cliente nem da sua agência de propaganda. Ele foi criado e aprovado no final de 2008, equivocadamente. Fruto somente da inexperiência de alguns profissionais envolvidos em ambas as partes. E não de má fé ou desrespeito ao sofrimento americano.).
Sejam quais forem as justificativas de cada um, esse episódio levanta uma questão séria em campanhas engajadas, voltadas principalmente para jovens. Ações radicais e mistificadoras como as da Peta e do Greenpeace acabam difundido a idéia de que para se falar do futuro do planeta ou defender os animais é preciso ser agressivo, chocar as pessoas. Ontem, o blog Huffington Post colocou no ar um vídeo produzido por uma entidade que defende os animais (e o vegetarianismo radical) que mostra pintinhos recusados em um processo de seleção sendo jogados em um triturador em uma granja (quem tiver coragem pode ver aqui). Os animais precisam ser poupados de tratamentos cruéis, a depredação da natureza precisa ser combatida com rigor, mas precisamos chegar a esse ponto? A confusão entre DM9 e WWF e o vídeo da carnificina na granja só prova que esse tipo de abordagem já passou dos limites.
