Antes mesmo de entrar para o Mercosul, a Venezuela já provoca dores de cabeça nos exportadores brasileiros. Só este ano, as vendas de celulares brasileiros para o país de Hugo Chávez caíram mais de 60%.
Os dados, obtidos com exclusividade pelo blog, são da Abinee, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica.
Segundo a Abinee, em 2008, a Venezuela importou 397 milhões de dólares em celulares brasileiros, dos quais 297 milhões de dólares foram comprados entre janeiro a setembro do ano passado.
Mas entre janeiro e setembro de 2009, as vendas de aparelhos brasileiros à Venezuela caíram para 116 milhões de dólares.
A queda nas exportações brasileiras para os hermanos do norte acontece desde maio, quando numa sociedade com a empresa chinesa ZTE, o governo Chávez lançou o "Vergatario", o primeiro celular bolivariano, que custa 15 dólares no varejo local.
"Esse telefone será campeão de vendas não só na Venezuela, mas em todo o mundo. Quem não tiver um Vergatario será um zero à esquerda", declarou Chávez na época, depois de ligar para a própria mãe.
Mas o sucesso do Vergatario, que significa "grandioso" na Venezuela, não tem a ver apenas com seus recursos técnicos, como câmera fotográfica embutida, conexão para Internet e MP3.
Grande parte do desempenho da engenhoca sino-bolivariana está nas mal-disfarçadas restrições protecionistas às importações brasileiras.
As duas únicas operadoras privadas de celulares do país, a Digitel e a Telefonica, tem encontrado enormes obstáculos para fechar contratos de câmbio que lhes permitam importar celulares brasileiros.
A exemplo do Brasil do tempo da hiperinflação, a Venezuela opera num regime de câmbio fixo.
E para realizar operações de comércio exterior, é preciso fechar contratos junto ao governo Chávez, que atrasa indefinidamente a venda de moeda externa pela cotação do dólar oficial no país, mesmo artifício usado pelo governo de Cristina Kirchner para dificultar vendas brasileiras à Argentina.
"As operadoras privadas de telefonia venezuelana são obrigadas a pagar um ágio de até 200% sobre a cotação do dólar oficial para importar aparelhos brasileiros", diz Humberto Barbato, presidente da Abinee.
Há pouco mais de um mês a Abinee encaminhou uma carta ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o MDIC, pedindo a intervenção do governo brasileiro.
"Assim como o Brasil, a Venezuela tem o direito de fazer política industrial", diz Barbato. "Mas a atitude do governo Chávez em atrasar sem justificativa os contratos de câmbio é um flagrante desrespeito às regras da Organização Mundial do Comércio".
De fato, a conduta do governo Chávez é um mau sinal para as futuras relações comerciais entre Brasília e Caracas.
A entrada da Venezuela no Mercosul depende apenas da aprovação em plenário do Senado brasileiro, numa votação de maioria simples, o que pode acontecer ainda esta semana.
Quem quiser entender como e por quê o apagão da noite de segunda-feira aconteceu deve esquecer a história do "evento climático inédito na história deste país". E também pode deixar de lado a história do transformador danificado por um raio.
As melhores pistas disponíveis até agora estão em documentos públicos do Operador Nacional do Sistema, o ONS, do Tribunal de Contas da União (TCU), da Controladoria Geral da União (CGU) e do Ministério do Planejamento. Embora o vocabulário técnico seja quase indecifrável por leigos munidos apenas de boa vontade, a história que esses documentos contam é simples.
Não é de hoje que falta manutenção adequada às torres das linhas de transmissão que ligam Foz do Iguaçu, no Paraná, à subestação de Tijuco Preto, em Mogi das Cruzes. Na verdade, a impressão que se tem, ao ler os documentos oficiais, é que as torres do sistema de transmissão de Itaipu nunca pararam em pé direito. Há anos, uma verdadeira novela se desenrola em torno do seu reforço.
Em 2004, o TCU analisou contratos emergenciais feitos por Furnas entre 1997 e 2000 para o reforço de 149 torres do sistema. No documento, do TCU afirma, com base em informações fornecidas por Furnas, que: em 1982, ventos fortes destruíram 39 torres do sistema; entre novembro de 1997 e abril de 1998 caíram 17 torres desse mesmo sistema, o que levou ao desligamento de alguns circuitos por até seis dias e meio. Segundo o relatório, outras dez torres já haviam caído em anos anteriores. Havia uma suspeita de que Furnas contratara de forma irregular as tais obras de reparação das torres. O ministro do tribunal Ubiratan Aguiar, que assina o relatório, diz que as obras eram necessárias, e explica seu ponto de vista. "Ademais, cabe consignar a urgência das obras de reforço das torres do Sistema de Transmissão de Itaipu (..), com vistas a se evitar novos acidentes, cuja extensão e conseqüências, embora imprevisíveis, certamente seriam desastrosas para o país".
No mesmo ano de 2004, o relatório de planejamento do sistema elétrico para aquele ano fala novamente na necessidade de reforço das torres que ligam Itaipu a São Paulo de onde a energia é distribuída aos outros estados. "Estão previstas obras de reforço estrutural nas torres das linhas de transmissão em 765 kV Foz do Iguaçu-Ivaiporã e Ivaiporã-Itaberá, pertencentes a FURNAS, com duração de 5 meses corridos", diz, na página 33, o ONS. As obras foram programadas para oorrer entre maio e setembro de 2005. Mas, em junho de 2005, auditoria (ver página 9) da Controladoria Geral da União, a CGU, mostra que, neste ano, não houve nem orçamento e nem gasto nenhum com o reforço das torres. Justificativa de Furnas: "Este empreendimento depende de autorização do ONS para o desligamento das LT, para que os reforços nas torres sejam efetuados, o que não ocorreu em 2005".
Três anos depois, em 2007, o ONS continuava prevendo (páginas 201 e 202) o reforço de torres no sistema de transmissão de Itaipu. Ou seja, mesmo que algo tenha sido feito entre 2006 e 2007, ainda havia torres precisando de manutenção. O relatório de 2007 faz ainda uma avaliação sobre um novo esquema de emergência para evitar problemas, caso duas das três torres fossem afetadas por ventos fortes e tornados, comuns naquela região. Segundo o texto, o trecho que liga Foz do Iguaçu ao município de Ivaiporã poderia suportar uma queda dupla, mas o trecho seguinte, que liga Ivaiporã a Itaberá (SP) e Tijuco Preto (SP) não agüentariam. "Os equipamentos terminais do circuito remanescente, disjuntores, bobinas de bloqueio, TCs e chaves seccionadoras ainda ficam submetidos a um carregamento superior ao máximo admissível."
A novela não termina aí. Outro documento, a dotação orçamentária de Furnas para 2009, mostra que, neste ano, havia 1,3 milhão de reais disponíveis para as obras de reforço das famigeradas torres. Mas, até julho, nenhum real foi gasto.
Ou seja, minha gente: as autoridades envolvidas com a operação e o planejamento do setor elétrico sabiam (ou pelo menos deviam saber) há muitos anos, que essas torres, tão importantes para o abastecimento de energia do Brasil, estavam em situação frágil. Chegou-se até a estudar esquemas de emergência para minimizar o efeito dos ventos, tufões ou mini-tornados. O Ministério das Minas e Energia afirma que, ao contrário do que aconteceu de outras vezes, desta vez não houve queda de torres, mas sim um raio muito forte, tão forte que desligou as três linhas ao mesmo tempo. Pode-se até argumentar que nada poderia ser capaz de deter esse raio tão poderoso. Mas a história que esses documentos contam mostra que havia, sim, providências possíveis para evitar que o impacto de uma forte tempestade prejudicasse o abastecimento de energia. Dizer agora que foi culpa do clima ou do transformador estragado não adianta muita coisa. E também não exime de responsabilidade quem deveria ter tomado providências.
p.s. 1. passei a tarde tentando contato com algum assessor de imprensa do ONS, sem sucesso
p.s.2. todos os documentos descritos neste post foram enviados a Furnas, acompanhados de pedidos de explicação. Até agora, não obtive resposta
p.s.3. se você achou que os fatos acima ainda não são suficientes para explicar o que aconteceu na última terça-feira à noite, saiba que ainda tem mais. No próximo post
(atualização na terça-feira, dia 17 de novembro:
Na
sexta-feira à noite, Furnas respondeu às perguntas enviadas pelo blog. Pedi alguns esclarecimentos, e as últimas respostas vieram hoje. A empresa diz que, nos últimos anos,
fez o reforço de mais de 3 400 torres nas linhas de transmissão entre Foz do
Iguaçu e Ivaiporã, onde havia mais
quedas de torres. Segundo a empresa, os planos de contingência foram implantados.
Furnas afirma ainda que, em setembro
e outubro, gastou 70% do 1,3 milhão
de reais previsto para o reforço das torres 910 mil reais em dois meses. A
empresa afirma ainda ter 40 pessoas dedicadas à manutenção de 9,5 mil torres,
pessoalmente e por avião ou helicóptero. Graás a esse esquema, neste ano não teria havido nenhum incidente grave de queda de torres.)
Os sindicalistas da Vale Inco desembarcam no Brasil amanhã para fazer lobby em favor da greve que mantém no Canadá, e que completa quatro meses no final de semana sem perspectiva de solução. A agenda dos sindicalistas Darren Cove e Rick Bertrand, representantes da United Steel Workers (USW), o poderoso sindicato norte-americano da indústria do aço, inclui a participação em assembléias de sindicatos locais e visitas a deputados e senadores, em Brasília. Os canadenses estão tentando ser recebidos também pelo ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, mas até agora não foi confirmada nenhuma audiência. Na quinta-feira, eles participarão de uma assembléia do sindicato de trabalhadores da Vale no Rio de Janeiro, em Mangaratiba.
Ao contrário do que ocorre no Canadá, onde as negociações estão suspensas e os protestos são freqüentes, o clima entre a Vale e seus empregados no Brasil é bem mais pacífico. A negociação salarial deste ano deve ser concluída rapidamente. A companhia ofereceu aos empregados, entre outros benefícios, aumento real de 7% e bônus de 1 200 reais. Os sindicalistas haviam pedido 15% de aumento real, mas as assembléias já realizadas, em Carajás (Pará) e Congonhas (Minas Gerais) aprovaram a proposta. Ainda falta fazer assembléias em Sergipe, no Maranhão, no Espírito Santo, no Rio e em outros locais de Minas Gerais.
O principal motivo da greve no Canadá é a proposta da Vale de alterar o sistema de participação nos lucros, baseado no desempenho do níquel no mercado internacional. A Vale comprou a Inco, uma das maiores produtoras de níquel do mundo, em 2006, por 13 bilhões de dólares. A proposta da empresa prevê cortes no sistema de reajuste salarial e estabelecer um teto para o bônus do níquel, o que os trabalhadores não aceitam. Desde que a greve começou, os sindicalistas tentam chamar atenção para o movimento. Mantém um site, o FairDealNow, e alimentam discussões em comunidades virtuais formadas em redes sociais como o Facebook. Como no Canadá quem está em greve não recebe salário, boa parte das trocas de mensagens nessas comunidades é sobre empregos temporários.
Apesar de a Vale se manter fora da mesa de negociação, a companhia também perde com a greve. Em seus resultados financeiros do terceiro trimestre, divulgados na semana passada, a empresa informou já ter gasto 209 milhões de dólares com manutenção de equipamentos e instalações afetadas pelo movimento. Admitiu ter tido que comprar matéria-prima para honrar contratos e disse que reduziu suas vendas de níquel em 45% entre julho e setembro. Ontem, em Londres, um pequeno grupo de sindicalistas protestou contra a Vale na entrada de uma conferência de metais promovida pelo Deutsche Bank em que havia executivos da Vale.

