Nobre Deputado Haroldo Lima (PC do B - BA), presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP):
Acompanho há muitos anos a trajetória política de Vossa Excelência. Por ela tenho o máximo respeito.
Respeito sua luta pela redemocratização do Brasil quando vivíamos os piores anos de nossa história recente.
Respeito o sofrimento político e pessoal de Vossa Excelência com as perseguições que sofreu.
Respeito sua coerência política e o fato de que Vossa Excelência manteve-se fiel ao mesmo partido durante toda a sua trajetória, exceto quando esse partido teve sua atuação proibida pela ditadura militar.
Isto posto, nobre deputado, permita-me respeitosamente sugerir a Vossa Excelência que modere a língua para não falar bobagens.
Vossa Excelência ocupa um dos cargos mais importantes da República, sendo o responsável pela agência reguladora que trata do petróleo.
Como Vossa Excelência bem sabe, o petróleo é a commodity mais sensível que existe. Não só por ser essencial, mas pelo fato de o grosso de sua produção estar localizada em países politicamente instáveis, que não são democráticos e não têm nenhuma transparência em suas informações.
Por isso mesmo, nobre deputado, declarações como a de Vossa Excelência na segunda-feira, dia 31 de agosto, de que o poço de Iara reserva uma surpresa positiva são uma temeridade.
Não poucas vezes, o partido de Vossa Excelência chamou os profissionais de mercado de tubarões. Em certo sentido, eles o são. Os tubarões de verdade são os grandes faxineiros do oceano, devorando as presas mais fáceis de pegar. Ou seja, as mais fracas e menos aptas a sobreviver.
Os profissionais do mercado financeiro atuam da mesma maneira, sempre buscando oportunidades de obter lucro devido a informações, privilegiadas ou não, que permitam antecipar o comportamento dos preços.
Quando antecipa quaisquer fatos, positivos ou não, Vossa Excelência inadvertidamente fornece material para a especulação no mercado. No limite, Vossa Excelência atua contra os acionistas da Petrobras (ou seja, o Estado brasileiro, que representa o povo) ao divulgar ao mercado informações que pertencem, prioritariamente, à empresa e a seus acionistas.
Atenciosamente
Cláudio Gradilone
Em tempo: o blogueiro não possui ações da Petrobras em seu patrimônio pessoal.
O ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979), à parte ter conseguido a façanha de controlar a indisciplina militar, acreditava piamente que a economia, assim como a tropa, deveria marchar de maneira ordenada e controlada.
Bom descendente de alemães, Geisel (1907-1996) detestava desordem, fosse política, militar ou aquela que o economista austríaco Joseph Schumpeter chamaria, mais tarde, de a destruição criadora do capitalismo.
Em retrospecto, em seu apreço pela ordem, Geisel fez várias barbaridades no campo econômico (as barbaridades políticas já foram largamente comentadas). As piores decorreram da crença que os burocratas de Brasília sabem o que é melhor para todos.
Onde quer que esteja, Geisel deve estar sentindo-se gratificado pela forma como o governo Lula está lidando com o pré-sal. A estratégia do Planalto é reforçar o viés estatizante da exploração das jazidas do pré-sal, concentrando as atividades nas mãos da Petrobras.
Qual o problema disso? Dois, principalmente. O primeiro é que essa exploração é de risco. Nunca ninguém conseguiu tirar petróleo tão fundo. Só para dar uma ideia dos problemas, o petróleo do pré-sal é de excelente qualidade, por estar em uma temperatura de mais de 70 graus Celsius. Como ele está muito fundo, ainda aproveita um pouco do calor interno do planeta. O óleo vem sendo cozido a fogo lento a milênios e está macio, no ponto para ser refinado.
No entanto, a água imediatamente acima do petróleo está a quase zero graus. Ou seja, o petróleo quente passará por tubulações perto do ponto de congelamento. Uma alteração tão abrupta de temperatura pode solidificar alguns componentes, entupindo os tubos. Se um cano entupido na cozinha já causa transtornos, que dirá uma tubulação entupida a 4 mil metros de profundidade em águas geladas e escuras.
Por tudo isso, os enormes riscos de extrair esse óleo não deveriam ficar majoritariamente nas mãos da Petrobras. A comprovada competência da estatal não deve ser confundida com onisciência.
O segundo problema é se a sociedade brasileira quer gastar tanto dinheiro com a Petrobras. As declarações do governo pautaram-se por uma confusão que deixaria Geisel enfurecido. Das informações desencontradas, chegou-se a uma conclusão provisória de que a capitalização pode chegar ao valor de 5 bilhões de barris de óleo.
Fazendo uma conta de dono de padaria: no dia 31 de agosto, o petróleo fechou a 69,90 dólares em Londres e o dólar fechou a 1,889 reais no Brasil. Assim, 5 bilhões de barris equivalem a um pouquinho mais de 660 bilhões de reais (quase um número satânico, brrrr). Esse é o dinheiro governamental - ou seja, o meu, o seu, o nosso - que será injetado na Petrobras.
Algum chato (como o blogueiro) poderia dizer que esse dinheiro seria melhor empregado melhorando a educação, saneando a saúde, reforçando a segurança pública, preservando o meio-ambiente, ou mesmo construindo estradas, portos e ferrovias para facilitar o tramitar da economia. Mas, ao dizer isso, corremos o risco de desagradar o falecido presidente Geisel.
