
A Bolsa de Valores de São Paulo está apresentando uma valorização de 1,23% no início dos negócios desta segunda-feira, dia 21 de julho. O motivo é o mesmo de sempre: os investidores internacionais.
O mercado americano está voltando a respirar com os resultados dos bancos americanos. Não que os números sejam bons, muito pelo contrário. Os prejuízos insistem em tingir de vermelho os balanços por toda Wall Street. A boa notícia, se é que podemos chamá-la assim, é que os números estão menos tenebrosos do que o mercado financeiro esperava.
Por exemplo, nesta segunda-feira o Bank of America, segundo maior banco americano, atrás apenas do Citigroup, anunciou um lucro 41% menor no segundo trimestre em relação ao trimestre anterior. Foi péssimo, mas os analistas esperavam números ainda piores. Como resultado, as ações do Bank of America estão subindo 8,7%, e o Índice Dow Jones apresenta um leve avanço de 0,3%.
Isso está animando o mercado por aqui. O Ibovespa está superando 60 mil pontos no fim da manhã.
Essa euforia continua? Depende. Os investidores internacionais estão um pouco mais animados com os resultados dos bancos e com as perspectivas de as autoridades financeiras americanas aprovarem um generoso pacote de ajuda para as empresas estatais que garantem empréstimos imobiliários, a Fannie Mae e a Freddie Mac. Enquanto essa euforia durar, a bolsa por aqui volta a respirar.
Publicado em 21/07/2008 - 11:27
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Voltei! Depois de uma semana prestando consultoria no próspero interior paulista, volto a comentar o animado mercado acionário brasileiro.
Trabalhar no interior de São Paulo é uma aula inestimável de economia real. A prosperidade do interior salta aos olhos. As cidades mostram incontáveis sinais de dinamismo, os automóveis são novos, o comércio vende bem, especialmente nas regiões mais influenciadas pelo agronegócio.
Cabe aqui a pergunta: se a economia real vai bem, como explicar um desempenho tão ruim da bolsa?
O motivo é bem conhecido - e, dessa vez, a culpa não é nossa. Quem vem afetando o mercado é a crise financeira norte-americana. A dinâmica é bem conhecida. Os investidores americanos, tanto pessoas físicas como administradores de recursos, perdem dinheiro com as notícias ruins sobre os bancos.
Para cobrir os buracos em seus portfólios, eles vendem as ações que ainda estão no azul. No caso, as brasileiras. Isso provoca queda de preços e prejuízos por aqui. Quando parece que tudo se estabilizou, saem mais notícias ruins no mercado americano. E o ciclo recomeça. Até quando isso vai durar?
Notícia ruim: esses trancos e barrancos vão durar mais alguns meses. Apesar de todas as declarações confortadoras dos governantes dos Estados Unidos, ainda há muitos empréstimos ruins para serem expurgados dos balanços dos bancos. A cada notícia ruim, deverá haver uma nova fase que quedas por aqui.
O grande problema é que movimentos como esse acabam tornando ineficazes quaisquer medições técnicas. No momento em que escrevo, o Índice Bovespa está numa leve queda a praticamente 60 000 pontos. Isso quer dizer uma queda de 7,5% no mês, e de 5,9% no ano. Desde o pico do mercado, no dia 20 de maio, a baixa acumulada é de 18,2%, Ou seja, as ações estão quase 20% mais baratas que seu preço máximo.
É um generoso desconto para quem acredita que o preço "justo" das ações é o de 20 de maio. O problema é que nada indica, no curto prazo, que as ações vão voltar a esse preço máximo. Ao contrário, é possível e provável que o Índice Bovespa amargue mais alguns pontos percentuais de baixa até as ações ficarem tão baratas que justifiquem uma nova onda de compras.
Moral da história: independentemente das boas perspectivas para a economia, as ações ainda vão ter alguns dias de solavancos.
Isso quer dizer que quem comprou ações da Petrobras a 52 reais (elas estao a 38 reais)ou Vale do Rio Doce a 50 reais (agora a cotação é 40,36 reais) terá de ter paciência e esperar uma recuperação ou, se precisar do dinheiro a curto prazo, vender no prejuízo, o que é o pior negócio possível para se fazer.
Ai que saudade do interior...
Publicado em 18/07/2008 - 11:03
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Os nomes são assustadores. Federal National Mortgage Association, conhecida como Fannie Mae, e Federal Home Loan and Mortgage Corporation, chamada Freddie Mac. Se você nunca ouviu falar, não se assuste. Para simplificar, são instituições financeiras estatais dos Estados Unidos (pensou que lá era tudo privado? Pois é, o setor estatal americano é enorme) destinadas a garantir a solvência e a liquidez do mercado secundário de hipotecas, as mortgages. E são elas que fizeram você perder dinheiro na Bolsa, pelo menos nesta segunda-feira, dia 7 de julho.
Complicou? Vamos por partes. Quem compra uma casa nos Estados Unidos em geral faz uma hipoteca de longo prazo. A hipoteca é vendida por uma companhia hipotecária, que funciona como um banco imobiliário. Ela empresta dinheiro para o comprador do imóvel pagar sua compra e recebe seu dinheiro de volta em suaves (ou nem tanto) prestações ao longo dos 20 ou 30 anos seguintes.
É um negócio grande - há vários trilhões de dólares em empréstimos imobiliários em circulação - mas tem seus riscos, mesmo nos Estados Unidos (sim, as coisas dão errado lá também). Em momentos de expansão do mercado muita gente quer comprar casas e as companhias hipotecárias tendem a ficar sem dinheiro. Em momentos de crise ninguém quer comprar casas, e as companhias hipotecárias ficam com dinheiro parado no caixa, sem clientes, e não têm como pagar suas contas.
Para compensar essas flutuações, o governo americano criou empresas - Freddie Mac e Fannie Mae - que garantem dinheiro para as companhias hipotecárias quando elas precisam de capital e permite também que elas apliquem o dinheiro que está dormindo no caixa.
Aqui começa a confusão. Para fazer isso, Freddie Mac e Fannie Mae se comportam como qualquer instituição financeira. Lançam papéis para captar dinheiro no mercado e investem em derivativos financeiros para proteger suas posições. Entre os derivativos estão os famosos empréstimos subprime (estamos falando de imóveis, certo?) que deram tanta dor de cabeça ao mercado no fim do ano.
Pois bem, dois relatórios de analistas, um do banco de investimentos Lehman Brothers e outro do Deutsche Bank, afirmam que as duas empresas vão precisar da bagatela de 75 bilhões de dólares em capital para fechar seu balanço. Mudanças nas normas contábeis americanas e perdas com derivativos de crédito fizeram as ações da Fannie Mae e da Freddie Mac recuarem cerca de 17% e caírem para os níveis mais baixos nos últimos 13 anos.
O que isso tem a ver com as ações no Brasil? Muita coisa. As notícias ruins deterioraram as expectativas dos investidores internacionais, que venderam ações de companhias financeiras, tanto nos Estados Unidos quanto em países emergentes. Mais do que isso, o pessimismo geral com uma crise financeira que parece interminável torna os investidores menos propensos a comprar ações. Daí a queda, após um dia em que o mercado começou seus trabalhos de bom humor.
Publicado em 07/07/2008 - 18:55
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Tive a honra, o prazer e o privilégio de trabalhar com o jornalista Elpídio Marinho de Mattos. Nascido em Minas Gerais, quatro anos de educação formal, barbeiro de profissão, começou no jornalismo numa idade em que a maioria já pensa na aposentadoria.
Proprietário de uma cultura invejável, de um aguçado faro jornalístico e de um profundo conhecimento financeiro e contábil, ele esgrimia um dos melhores textos da imprensa econômica brasileira. Elpídio fez a única desfeita de sua vida ao partir antes do combinado há mais de dez anos, depois de 78 anos muito bem vividos.
Por que estou falando disso? Lembrei-me de um diálogo que repetimos muitas vezes, sempre que essa entidade mística chamada mercado (a soma das pessoas e dos profissionais que toma decisões de comprar e vender ações) se comportava mal. Era assim:
Eu sacava: "É grave a crise, Seu Elpídio."
Ele rebatia: "Sempre podemos contar com um poder maior."
Eu levantava: "Deus, seu Elpídio?"
Ele cortava, magistralmente: "Não, meu filho, a ganância do mercado."
Não consigo imaginar um comentário melhor para encerrar uma semana tão tumultuada. A Bolsa ainda promete muita turbulência. Os investidores internacionais venderam 7,4 bilhões de reais em ações no mês de junho, e nada garante que esse dinheiro vá voltar tão rápido. Sem ele, o mercado não tem como se sustentar. Mas não se preocupe, o dinheiro volta: não há muitas oportunidades tão boas no médio e longo prazo como as empresas brasileiras.
Publicado em 04/07/2008 - 14:41
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Eu teria postado este comentário ontem, mas a Tele-Afônica (ops, Telefônica) me deixou digitalmente isolado. Vai hoje, com um pequeno atraso, mas ainda vale.
Fico muito feliz quando um post levanta reações iradas. É o sinal que estou fazendo meu trabalho direito, saindo do óbvio e procurando trazer novas idéias e sugestões aos investidores. Alguns leitores comentaram o post sobre a Petrobras, por isso cabe aqui voltar ao assunto.
É bom para o cidadão comum que a Petrobras não eleve os preços da gasolina? Não, não é bom. Os brasileiros e brasileiras que ganham menos dinheiro dificilmente possuem automóveis. Andam de ônibus movidos a diesel. Consomem arroz e feijão, transportados por caminhões movidos a diesel. Apenas em maio, os preços do diesel subiram 6,3% em São Paulo, ao passo que a gasolina permaneceu estável. A gasolina não sobe de preço, mas o diesel avança. E isso afeta mais pesadamente quem depende de transporte coletivo e gasta uma fatia maior do que ganha comprando comida. Se os preços da gasolina sobem mas os do diesel não, a vida de quem anda de carro fica mais fácil do que a de quem anda de ônibus.
Muitos leitores poderiam argumentar que a Petrobras deve, sim, dar sua parcela de contribuição para conter a inflação. Vamos analisar esse argumento. Se abrir mão de parte de seus lucros para não pressionar os preços, a Petrobras estará beneficiando quem tem carro, e reduzindo os lucros enviados ao Tesouro Nacional que ajudariam (sou otimista) a custear as despesas com saúde, educação e segurança, serviços que são usados por todos os brasileiros. A diferença é que as pessoas que têm carro em geral também usam saúde, educação e segurança privadas, ao passo que as pessoas que precisam de ônibus em geral dependem dos serviços públicos.
Ou seja, se a Petrobras quer sacrificar parte do lucro de seus acionistas (que somos todos nós - a Petrobras é controlada pelo Estado e por isso é um patrimônio de todos os brasileiros) que faça isso melhorando a vida de quem viaja de ônibus, não apenas aliviando a situação de quem viaja de carro.
Publicado em 04/07/2008 - 14:38
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Jornalista, economista, ele escreve regularmente sobre investimentos e finanças pessoais claudio.gradilone@gmail.com ![]() |
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