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As ações das construtoras são um bom negócio?
Por Cláudio Gradilone | 02/09/2009 - 12:26

Para descansar um pouco das peraltices da Petrobras, vamos tratar da volta das aberturas de capital. Depois de atravessarem um período muito ruim, as empresas de construção civil voltaram ao mercado.

Como era de se esperar quando ocorreu a primeira onda de aberturas de capital desse setor em 2007, muitas das empresas que lançaram ações não sobreviveram. Isso já estava no preço: várias empresas de construção civil abriram capital para elevar o preço de seus ativos em uma eventual venda do controle acionário. O que ninguém esperava era a fúria da crise financeira internacional em 2008, que atingiu em cheio o setor de construção civil nos Estados Unidos e no Brasil.

Depois de passarem mais de um ano perto dos preços de liquidação (ou seja, o valor que sobra depois da falência), várias empresas apresentaram uma forte elevação nos preços de suas ações. Os motivos são vários. No caso das administradoras de shopping centers, a constatação que o dinheiro continuou a pingar regularmente no caixa apesar da crise. No caso das construtoras e incorporadoras, a conjunção entre a abertura dos cofres públicos para os financiamentos imobiliários e a recuperação do mercado.

Agora, passado o que parece ter sido o pior momento da crise, as empresas voltam ao mercado. PDG Realty e Rossi preparam novas captações, e Abyara, Agra e Klabin Segall fundem suas operações e preparam o lançamento de uma nova ação, a Agre.

É bom negócio? A princípio, o setor de construção civil é arriscado. Imóveis têm pouca liquidez, são profundamente dependentes de variáveis incontroláveis como a renda e o gosto do consumidor, e, pior do que tudo, o histórico de resultado das construtoras não é bom.

As companhias foram (mal) aconselhadas pelos bancos de investimento que montaram suas aberturas de capital para investir o recurso em terrenos, o que lançou um peso exagerado em seus balanços sem a contrapartida de receitas. Em vez de usarem o dinheiro na atividade-fim, que é construir, as empresas tornaram-se especuladores imobiliários. É uma estratégia imbatível quando tudo vai bem, mas mortal quando as coisas dão errado. E muitas estiveram a pique de falir, ao passo que outras tiveram de ser vendidas na bacia das almas, caso da Tenda.

A reestruturação das atividades, com injeção de dinheiro novo, corte de custos e a expectativa de melhoria das condições econômicas permite aos acionistas ser um pouco mais otimistas quanto aos prognósticos para essas empresas. Ou seja, não é absurdo esperar que elas possam apresentar alguns bons resultados ao longo dos próximos meses.

Isso é uma recomendação de compra? Só para quem gosta MUITO de risco. As ações do setor de construção civil são bastante arriscadas, e podem apresentar pesados solavancos enquanto o mercado não chega a um consenso sobre suas perspectivas. A melhor definição sobre volatilidade é: um momento em que não há certeza sobre o valor exato de uma ação, commodity, moeda ou título. E volatilidade é o que se deve esperar das ações de empresas de construção.

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Você está R$ 120,75 mais pobre (ou: o meu, o seu, o deles)
Por Cláudio Gradilone | 02/09/2009 - 11:27

R$ 120,75. Esse foi o valor que saiu do bolso de cada brasileiro - homem ou mulher, rico ou pobre, maduro ou jovem - desde o dia 21 de agosto, quando o governo começou a soltar os primeiros balões de ensaio a respeito tanto das regras de exploração do petróleo no pré-sal quanto da participação da Petrobras nesse empreendimento.

Segundo dados da empresa especializada em informações financeiras Economática, o valor de mercado da empresa que pertence ao Tesouro (e é, portanto, propriedade de todos os brasileiros) encolheu 14 bilhões de reais. Valor de mercado é um número teórico, obtido por meio de uma conta simples. Multiplique o número de ações ordinárias e preferenciais por suas cotações e você saberá quanto uma empresa vale.

O valor da Petrobras encolheu porque os investidores minoritários temem a proposta de elevação da fatia do governo no capital da estatal. Mais do que isso, o governo pretende comprar essas ações pagando com títulos públicos, em vez de dinheiro vivo.

O governo é um mau administrador. A Petrobras é uma empresa de classe mundial. Mesmo assim, ela vem sendo prejudicada por decisões que nada têm a ver com a prospecção e refino de petróleo, devido à ingerência política do acionista controlador. 

Os problemas pequenos são o apoio a fundações no Sarneystão, digo, no Maranhão. Os maiores são alguns números inexplicáveis.

Por exemplo, na terça-feira, dia primeiro de setembro, a Petrobras divulgou uma revisão dos custos projetados para a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. A unidade capaz de refinar 200 mil barris de petróleo por dia custaria, a princípio, 4 bilhões de dólares.

Ao elevar essa capacidade em 15%, para 230 mil barris por dia, os custos subiram 195%, para 12 bilhões de dólares. Tudo bem que o mercado de petróleo é imprevisível, mas uma diferença de OITO BILHÕES de dólares é meio difícil de explicar lá em casa.

A justificativa da Petrobras é que os novos custos incluem tecnologias novas para absorção de gases e conteção do efeito estufa, além do fato de o mercado de petróleo estar muito aquecido, o que eleva os preços dos insumos.

O blogueiro não é ecologista nem engenheiro, mas as notícas lá de fora dizem que tem uma tal de uma crise, e crise não combina com aquecimento de mercado nem com elevação de preços de insumos. Ao contrário, as empresas de bens de capital costumam conceder bons descontos nessas épocas, para manter suas unidades caríssimas funcionando.

Com um histórico desses, é possível defender um aumento da participação do governo no capital da Petrobras?

Em tempo: o blogueiro reitera que não tem ações da companhia em seu patrimônio pessoal.

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Carta aberta ao nobre deputado Haroldo Lima
Por Cláudio Gradilone | 01/09/2009 - 20:26

Nobre Deputado Haroldo Lima (PC do B - BA), presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP):

Acompanho há muitos anos a trajetória política de Vossa Excelência. Por ela tenho o máximo respeito.

Respeito sua luta pela redemocratização do Brasil quando vivíamos os piores anos de nossa história recente.

Respeito o sofrimento político e pessoal de Vossa Excelência com as perseguições que sofreu.

Respeito sua coerência política e o fato de que Vossa Excelência manteve-se fiel ao mesmo partido durante toda a sua trajetória, exceto quando esse partido teve sua atuação proibida pela ditadura militar.

Isto posto, nobre deputado, permita-me respeitosamente sugerir a Vossa Excelência que modere a língua para não falar bobagens.

Vossa Excelência ocupa um dos cargos mais importantes da República, sendo o responsável pela agência reguladora que trata do petróleo.

Como Vossa Excelência bem sabe, o petróleo é a commodity mais sensível que existe. Não só por ser essencial, mas pelo fato de o grosso de sua produção estar localizada em países politicamente instáveis, que não são democráticos e não têm nenhuma transparência em suas informações.

Por isso mesmo, nobre deputado, declarações como a de Vossa Excelência na segunda-feira, dia 31 de agosto, de que o poço de Iara reserva uma surpresa positiva são uma temeridade.

Não poucas vezes, o partido de Vossa Excelência chamou os profissionais de mercado de tubarões. Em certo sentido, eles o são. Os tubarões de verdade são os grandes faxineiros do oceano, devorando as presas mais fáceis de pegar. Ou seja, as mais fracas e menos aptas a sobreviver.

Os profissionais do mercado financeiro atuam da mesma maneira, sempre buscando oportunidades de obter lucro devido a informações, privilegiadas ou não, que permitam antecipar o comportamento dos preços.

Quando antecipa quaisquer fatos, positivos ou não, Vossa Excelência inadvertidamente fornece material para a especulação no mercado. No limite, Vossa Excelência atua contra os acionistas da Petrobras (ou seja, o Estado brasileiro, que representa o povo) ao divulgar ao mercado informações que pertencem, prioritariamente, à empresa e a seus acionistas.

Atenciosamente

Cláudio Gradilone

Em tempo: o blogueiro não possui ações da Petrobras em seu patrimônio pessoal.

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O sorriso de Geisel (ou: me empresta R$ 660 bi?)
Por Cláudio Gradilone | 01/09/2009 - 08:59

O ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979), à parte ter conseguido a façanha de controlar a indisciplina militar, acreditava piamente que a economia, assim como a tropa, deveria marchar de maneira ordenada e controlada.

 

Bom descendente de alemães, Geisel (1907-1996) detestava desordem, fosse política, militar ou aquela que o economista austríaco Joseph Schumpeter chamaria, mais tarde, de a destruição criadora do capitalismo.

 

Em retrospecto, em seu apreço pela ordem, Geisel fez várias barbaridades no campo econômico (as barbaridades políticas já foram largamente comentadas). As piores decorreram da crença que os burocratas de Brasília sabem o que é melhor para todos.

 

Onde quer que esteja, Geisel deve estar sentindo-se gratificado pela forma como o governo Lula está lidando com o pré-sal. A estratégia do Planalto é reforçar o viés estatizante da exploração das jazidas do pré-sal, concentrando as atividades nas mãos da Petrobras.

 

Qual o problema disso? Dois, principalmente. O primeiro é que essa exploração é de risco. Nunca ninguém conseguiu tirar petróleo tão fundo. Só para dar uma ideia dos problemas, o petróleo do pré-sal é de excelente qualidade, por estar em uma temperatura de mais de 70 graus Celsius. Como ele está muito fundo, ainda aproveita um pouco do calor interno do planeta. O óleo vem sendo cozido a fogo lento a milênios e está macio, no ponto para ser refinado.

 

No entanto, a água imediatamente acima do petróleo está a quase zero graus. Ou seja, o petróleo quente passará por tubulações perto do ponto de congelamento. Uma alteração tão abrupta de temperatura pode solidificar alguns componentes, entupindo os tubos. Se um cano entupido na cozinha já causa transtornos, que dirá uma tubulação entupida a 4 mil metros de profundidade em águas geladas e escuras.

 

Por tudo isso, os enormes riscos de extrair esse óleo não deveriam ficar majoritariamente nas mãos da Petrobras. A comprovada competência da estatal não deve ser confundida com onisciência.

 

O segundo problema é se a sociedade brasileira quer gastar tanto dinheiro com a Petrobras. As declarações do governo pautaram-se por uma confusão que deixaria Geisel enfurecido. Das informações desencontradas, chegou-se a uma conclusão provisória de que a capitalização pode chegar ao valor de 5 bilhões de barris de óleo.

 

Fazendo uma conta de dono de padaria: no dia 31 de agosto, o petróleo fechou a 69,90 dólares em Londres e o dólar fechou a 1,889 reais no Brasil. Assim, 5 bilhões de barris equivalem a um pouquinho mais de 660 bilhões de reais (quase um número satânico, brrrr). Esse é o dinheiro governamental - ou seja, o meu, o seu, o nosso - que será injetado na Petrobras.

 

Algum chato (como o blogueiro) poderia dizer que esse dinheiro seria melhor empregado melhorando a educação, saneando a saúde, reforçando a segurança pública, preservando o meio-ambiente, ou mesmo construindo estradas, portos e ferrovias para facilitar o tramitar da economia. Mas, ao dizer isso, corremos o risco de desagradar o falecido presidente Geisel.

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Petróleo grosso, ações aguadas, ideias turvas
Por Cláudio Gradilone | 31/08/2009 - 19:18

A divulgação das regras do pré-sal teve tudo aquilo que Brasília gosta e essa entidade mítica conhecida como mercado financeiro detesta: decisões tomadas e (mal) informadas na calada da noite, muita pressão política em uma decisão que deveria ser eminentemente técnica e, principalmente, as suspeitas de que os acionistas minoritários da Petrobras terão de, mais uma vez, arcar com o ônus de terem o governo como sócio controlador.

Não se discute o fato de que o dinheiro que o Estado auferir com a exploração do petróleo deva ser empregado para melhorar a vida do maior número possível de cidadãos brasileiros. O problema é a maneira como essa decisão foi tomada.

Tudo começou no domingo à noite, quando os governadores José Serra (São Paulo), Sérgio Cabral (Rio de Janeiro) e Paulo Hartung (Espírito Santo) se encontraram à noite no aeroporto de Brasília para combinar a maneira de pressionar o Planalto para manter imutável a estrutura de royalties que beneficia os seus estados.

O resultado de uma reunião que se estendeu pela noite foi a manutenção de uma estrutura que beneficia fortemente as localidades onde há petróleo. A negociação foi dura: sem as concessões do Planalto, os governadores iriam orientar suas bancadas no Congresso para travar todas as decisões favoráveis ao governo.

Aí já existe um problema. Em vários e honrosos casos, os municípios em cuja vizinhança o Padre Eterno deixou cair um vasto lençol de petróleo estão usando bem o dinheiro recebido, investindo em saúde e educação. Em outros, no entanto, o dinheiro do petróleo foi usado para contratar shows internacionais a peso de ouro.

Ao longo do dia, a expectativa do mercado só foi piorando. Além da incerteza - as decisões finais ficaram para 2010, e até lá muita água salgada vai passar debaixo das plataformas e muitos votos serão traficados pelos corredores do Congresso - o que realmente desagradou o mercado foi uma proposta de capitalização da Petrobras.

Explicando: para explorar algo como 25 bilhões de barris de petróleo, o suficiente para suprir o consumo brasileiro por quase 38 anos, a Petrobras vai precisar de dinheiro. Muito dinheiro. Para isso, ela deverá fazer o que qualquer boa empresa aberta faz quando precisa de recursos: ir ao mercado e vender ações, para se capitalizar.

O problema é que não está claro o quanto a União vai subscrever dessas ações e quantas serão de fato vendidas aos acionistas. Apesar de a União ter o controle acionário da Petrobras gravado na Constituição, o fato de Brasília poder ampliar sua fatia não é bem visto pelo mercado.

A Petrobras sempre teve mais de uma função no Brasil. Ela nunca foi apenas a excelente empresa petrolífera, mas muitas vezes serviu para reforçar o caixa do governo e também para ser a operadora de algumas decisões de governo. A recente defasagem temporal no repasse da alta internacional do petróleo aos preços dos combustíveis no mercado interno é apenas um dos exemplos dessa relação tão delicada.

Mais do que embaralhar as regras do mercado, o governo mudou as regras na exploração também. Nos mais de 50 anos entre as passeatas do Petróleo é Nosso e a aprovação da Nova Lei do Petróleo, o regime que valeu foi o de concessões: a empresa explorava uma jazida e ficava com os resultados, bons ou ruins.

Agora, o modelo a ser adotado será o de partilha, que traz um novo conceito, o de Óleo Lucro (Profit Oil), que representa o total produzido por determinado campo, menos custos e despesas associados à produção. Outro conceito novo é o de Custo em Óleo (Cost Oil), que corresponde aos custos em que o contratado incorreu para pesquisar explorar o óleo.

A Petrobras será a operadora de todos os blocos explorados neste regime, e terá participação mínima de 30%, e poderá também participar de licitações para aumentar sua participação nas áreas. Vencerá a licitação a a empresa que oferecer o maior porcentual do Óleo Lucro para o governo.

Ficou claro? Não, claro que não. Não ficou claro para você, não ficou claro para o blogueiro e não ficou claro para alguns milhares de investidores da Petrobras, que reagiram como o mercado reage quando as coisas não estão claras: vendendo ações. Não por acaso, os papéis da Petrobras lideraram as baixas no pregão de hoje. As preferenciais caíram 3,7% e as ordinárias caíram 4,7%, após recuarem mais de 6% no pior momento do dia.

Apenas no fim da noite o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, tentou explicar como a captação de recursos vai funcionar. Barbosa disse que a União deverá ceder à Petrobras o direito de explorar até 5 bilhões de barris de petróleo, e a Petrobras terá de pagar um valor à União para poder fazer isso.

Quanto? Depende de quanto vale o petróleo que está a 4 mil metros de profundidade no solo, debaixo de uma lâmina de 3 mil metros de água geladíssima, e que ninguém tem muita ideia de como explorar. Como ninguém ainda sabe o preço desse barril de petróleo, Petrobras e União vão contratar uma empresa independente para avaliar e calcular a fatura de parte a parte.

Para os analistas, são tantas emoções e indefinições que a recomendação é vender as ações até que o quadro esteja mais claro. O que, em se tratando do atual governo e suas relações com o mercado, é quase uma contradição em termos.

Aliás, nobre deputado Haroldo Lima (PC do B - BA), mui digno presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP): Vossa Excelência já aprendeu onde fica a Bolsa de Valores?

Em tempo: o blogueiro agradece as manifestações de solidariedade e apreço. Uma gripe, não suína mas com espírito de porco, impediu os posts na semana passada.

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Cláudio Gradilone
Jornalista, economista, ele escreve regularmente sobre investimentos e finanças pessoais.
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