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A salvação pela música
Por Adriano Silva | 27/10/2009 - 01:03

Um grande amigo meu voltou a entrar em contato depois de muito tempo. Viveu uma crise longa e importante na sua vida. Separou, andou no acostamento profissional, acelerou na contramão. A virada para os 40 foi dura para ele. (E para quem não é?) Então eu fiquei muito feliz de tê-lo de volta ao convívio. De vê-lo saindo mais maduro, mais sólido, mais livre e feliz do outro lado do rio que atravessou engolindo um bocado de água. Outros rios virão. Nossa vida é atravessar rios. Mas nesse momento ele está na margem, recobrando o fôlego, olhando para o céu ensolarado, sentindo a terra firme contra as costas e dando muita risada de tudo. Isso é bom. (Fiquei feliz também por perceber que meu amor por ele é incondicional.)

Uma vez esse amigo me gravou um CD com músicas espetaculares. Que eu nunca esqueci. Isso tem uns 10 anos. Música como mensagem, como símbolo, como declaração, como intenção. Então pedi a ele, nessa retomada, que me fizesse uma playlist de músicas alegres e bonitas, que tenham feito bem a ele nesse período de autoexílio, que ele gostasse de ouvir.

Ele me respondeu o seguinte: "Vou fazer essa lista, sim. Mas vou fazer um playlist diferente: as músicas que me deram ânimo e vida nos últimos 18, 24 meses. Uma lista cronológica, às vezes joyful, às vezes moody, às vezes plain silly. My Biography". Isto posto, me enviou a seguinte lista de pérolas confessionais, de gemas psicológicas, de canções comportamentais e definitivas. Que eu divido com você, incluindo seus comentários seminais, porque podem tranquilamente salvar uma vida ou uma carreira, dependendo do momento. É isso. A cura pela canção.

 

Box of Rain (Grateful Dead, 1970)

Ouvi essa música do pela primeira vez só em 2007 (!), e fiquei bobo. A versão ao vivo vale pela alegria contagiante da galera. Pena que a gravadora tirou do YouTube a versão em estúdio, do álbum American Beauty. Shame on them!

Set you free this time (The Byrds, 1965)
Adoro essa do The Byrds. Menos batida que Turn! Turn! Turn! Essa versão ao vivo do Gene Clark, com o solo bacana de guitarra, tem um efeito libertador. Que o bom Gene descanse em paz.

This is what she's like (Dexy's Midnight Runners, 1985)
Em 85, detestei essa música, que era meio que coisa de boy. Mas o velho Dexy's é um bom vinho que melhora com o tempo. E hoje essa música desce encorpada, suave e doce.

Kicking Sand (The Lodger, 2007)
Ouvi esta do The Lodger numa madrugada, em fone de ouvido, enquanto fazia uma longa pesquisa editorial para um trabalho. Fiquei umas duas horas dando play e replay. E quando vi já tinha amanhecido.

Keep it Coming (The Manhattan Love Suicides, 2007)
Melancolia, fúria homicida... Essa menina do TMLS deve esconder gilete na língua. My buddy nas horas mais negras. Hoje eu não ouço mais, mas fica de lembrança.

Lazy Line Painter Jane (Belle & Sebastian, 1997)
Dueto maravilhoso do Murdoch (do B&S) com a cantora Monica Queen.

It's for you (Out Hud, 2005)
Se aos dez anos meu sonho era ser ponta-esquerda do Grêmio, hoje o sonho secreto é ser DJ por uma noite, e colocar a moçada pra dançar com o Out Hud.

All My friends (LCD Soundsystem, 2007)
James Murphy é um cara interessante. E sabe que ele quase foi o primeiro roteirista do Seinfeld? (Ele recusou a oferta, para arrependimento posterior). Sorte nossa que ele escolheu a música.

Rob a bank (The Butterflies of Love, 2006)
Dá vontade de estar aí no video, numa noite fria, nesse boteco, ouvindo o The Butterfiles of Love e tomando uma cerveja preta. Embalados pelo som suavemente melancólico da banda.

Summer Smash (Denim, 1997)
Fico meio encabulado de gostar do Denim e de Summer Smash, mas dane-se. É o fino do pop dos anos 90. Pena que não tocou na época. Explico: Summer Smash estava escalada para entrar nas rádios britânicas em agosto de 97, mas daí uma princesa bateu o carro, morreu, a gravadora engavetou a música - imprópria para o luto mundial -, e a gente teve de ficar aguentando o Elton John.

I won't lie to you (Let's Wrestle 2007)
We are the men you'll grow to love soon (Let's Wreslte, 2009)
A glória máxima. Dobradinha de Let's Wrestle. Sheer fun. Pop inteligente, engraçado, sem ranço algum.

Por fim, não posso esquecer uma música essencial para esse playlist: Lazy Line Painter Jane do Belle & Sebastian. Muitas dessas músicas são meio obscuras, mas estes vinte e poucos meses em minha vida também foram assim. Descobertas & Escuridão. The thrill of new sounds as beamings of lights. Pois é. Com o Belle & Sebastain eu fecho essse capítulo da minha autobiografia pop interior. Next one, please.

 

Espero que essas músicas do meu amigo lhe façam tão bem quanto a mim. E lhe convido a enviar para mim a sua lista de músicas fundamentais. Daquelas que fazem a vida valer a pena e cuja simples audição tem o poder de reverter o humor de um dia inteiro, mesmo aqueles mais ásperos, em que o escritório aparenta ficar mais sombrio.

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Adriano Silva
Jornalista e publisher do Gizmodo Brasil. Ele escreve sobre perplexidades, descobertas e insights que acontecem todo dia no mundo do trabalho -- e fora dele também.
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