Soube disto esses dias. O sujeito tinha uma carreira longa. E razoavelmente bem sucedida. Por méritos técnicos ou por méritos de relacionamento, ou por uma conjunção das duas coisas, era VP em uma empresa de porte médio. Ocupava o tipo de posição que garante ao sujeito uma sala com um sofazinho para conversas mais informais, secretária própria, essas coisas. Então ele recebeu um convite para trabalhar numa outra empresa do mesmo grupo. Uma empresa maior, o prinicipal negócio do grupo. Convenhamos que, nesse caso, nem dá para considerar um convite. Isto é quase uma delegação, um pedido superior, uma solicitação corporativa. Sua missão seria evangelizar aquela outra empresa com o seu expertise, com as ferramentas que tinha desenvolvido com boa dose de êxito na empresa menor. E lá foi ele. Óbvio.
Diante de si uma nova cultura. Novos colegas, novos subordinados. E um ambiente que se apresentava diante dele com a sutil arrogância daqueles que estão acostumados a faturar mais e a ser mais relevantes aos negócios do grupo. Um ambiente que também se postava diante dele com a sutil inferioridade de quem está na incômoda posição de ter que aprender duas ou três coisas sobre um novo jeito de fazer as coisas, sobre um conhecimento estratégico para o grupo que aquela empresa, jóia da coroa, não detinha. O sujeito estava se ambientando às novas regras de vestir, aos novos códigos do lugar, ao novo crachá, estava testando sua inteligência emocional, sua capacidade política, e se dando relativamente bem nessa tarefa, quando a empresa veio a perder um grande contrato. Daqueles que tocam fundo no fluxo de caixa. Resultado? Corte de custos e enxugamento de quadro.
O sujeito era relativamente caro, era novo na empresa, ainda não tinha criado raízes, ainda não tinha gerado resultados, sua competência era ainda incipiente dentro da empresa em termos de curto prazo, e acabou sobrando com o elo fraco da corrente. Encimou a lista das dispensas. Três meses depois de ter deixado sua posição vencedora na outra empresa, saía em definitivo do grupo, marcado como baixa de guerra. Dos confortos do céu às agruras do inferno em menos de 100 dias. Me pergunto se não havia possibilidade de ele voltar à empresa anterior. Talvez a vaga já tivesse ocupada e a própria estrutura já tivesse sido mexida com a sua saída. De toda maneira, peixes grandões não conseguem trocar de aquário com facilidade. Me pergunto se houve injustiça ou má fé nesse evento. Será que o grupo já o considerava dispensável há mais tempo? É defensável eticamente, moralmente, tirar um sujeito de uma posição, de modo quase compulsório, para demiti-lo algumas semanas depois, por mais que um evento importante como uma queda abrupta do faturamento tenha ocorrido? Fico pensando no que ele poderia ter feito diferente, para ter melhor sorte. Recusar uma promoção interna que tenha cara de ouro de tolo? Como se faz isso?
Cartas para a redação!