exame/blogs/manualdoexecutivoingenuo
 
Um presente que eu nunca esqueci
Por Adriano Silva | 02/11/2009 - 23:57
Hoje me lembrei do meu avô. Um italianão com jeito de bugre que nunca viu o mar e que nunca trabalhou para ninguém. Era eletricista com diploma do Instituto Universal Brasileiro - que ele emoldurou com gosto e pendurou na parede da sala até o fim da vida. Era o eletricista mais tradicional da pequena cidade de onde nunca arrastou pé. Me lembrei do meu avô ao chegar em casa agora à noite, depois de uma viagem de volta gostosa, macia, fechando um feriado maravilhoso. Sol, piscina, sono, comida, bebida, sorrisos, meus filhos por perto, felizes, minha mulher próxima, em finíssima sintonia, do jeito que eu... preciso. E paz de espírito para curtir tudo isso direito. Sem pressa, sem culpa, sem angústias, sem melancolia. Só boas sensações. Nenhuma emoção negativa zumbizando à volta.
 
Acho que meu avô sempre teve orgulho de mim. Nunca me disse isso com palavras, porque não era o seu estilo. Ou talvez tenha me dito isso umas poucas vezes. E eu, em respeito a ele, ou simplesmente sem saber como reagir diante daquele elogio direto, como que fingi não ouvir, deixei passar. Acho que meu avô me via voando numa altitude que jamais poderia supor para um neto a partir das suas próprias referências, de um homem com quatro anos de estudo formal, que havia sido peão, agricultor, dono de armazém de campanha num rincão remoto. Seja como for, ele era um torcedor incondicional. E acho que me era grato também. Talvez por eu não lhe trazer problemas. Por permitir a ele não ter de se preocupar comigo.
 
Meu avô tinha 40 anos em 1965. Então ele viveu a segunda metade da sua vida vendo seu mundo, que era regido por sólidas regras com séculos de hegemonia, se desintegrando à sua frente. Ele e seus contemporâneos tomaram ruptura em cima de ruptura das gerações subsequentes, em várias áreas fundamentais da vida. Do sexo à tecnologia, dos modelos familiares aos códigos de vestuário. Não deve ter sido fácil descer essa ladeira sem fim, vendo o que era certo virar incorreção e o que era absurdo se transformar em coisa corriqueira. Ainda assim, acho que meu avô navegou por essas águas turvas com boa dose de dignidade. E um dia ele me deu um presente de aniversário que eu nunca esqueci. Era o comecinho da década de 90, eu estava na faculdade de Comunicação e começava um pequeno negócio com um casal de colegas. Atuávamos como um estúdio de criação, fazendo um pouco de tudo, e trabalhávamos muito com video. Então, olhando aquilo à distância, mesmo sem compreender direito o nosso negócio, e ainda assim com grande fé no futuro daquele projeto, ele me presenteou com um video cassete. Eu não tinha um video cassete. Um video cassete, há coisa de 20 anos, acredite, custava bastante dinheiro. Meu avô me levou até a loja e me fez sair de lá com o melhor aparelho. Logo ele que, para si mesmo, sempre optava pelo item mais barato, deixava ali boa parte dos seus rendimentos. Raspava parte importante, imagino eu, das suas reservas.
 
Acho que nunca lhe agradeci suficientemente pela confiança, pelo investimento, pelo enorme gesto de carinho. O faço agora, nesses últimos minutos deste dia 2 de novembro. Obrigado, vô.
 
[ A foto é do Forte Dom Pedro II, em Caçapava do Sul, território do meu avô, arquétipo da minha infância ]
fechar
 
Adriano Silva
Jornalista e publisher do Gizmodo Brasil. Ele escreve sobre perplexidades, descobertas e insights que acontecem todo dia no mundo do trabalho -- e fora dele também.
Blogs
- Direto do Pregão
- Esquerda, direita e centro
- Mundo agro
- Blog da PME
- Blog do Empreendedor
- Manual do executivo ingênuo
- Ponto Gadget
- Por dentro das empresas
- Zeros e Uns
- Primeiro Lugar

As opiniões aqui publicadas não refletem necessariamente a posição da EXAME.