Eu estava aqui pensando no Nei Lisboa. Você provavelmente não o conhece. O que é uma lástima para ele e para você também. Nei é um dos compositores, poetas, cantores mais legais de Porto Alegre. Como tantos escritores, músicos e artistas gaúchos, acabou não estourando no resto do Brasil. O Rio Grande do Sul tem um mercado próprio relativamente forte e o artista consegue sobreviver intramuros, sem a necessidade de desbancar-se para São Paulo e Rio para acontecer. O sujeito vira referência local, por mais universal que seja sua obra, e vai ficando.
Estava ouvindo dois clássicos do Nei, Telhados de Paris e Baladas, num playlist que criei no You Tube com o apelido de MPG (Música Popular Gaúcha, que é como a gente chamava lá no Sul a música regional urbana e não a música regional campeira, nativista. Mas, ei, tenho um playlist dessa lavra também!). E pensava em como estaria o Nei às barbas de 2010. Deve estar na casa dos 30 anos de carreira, dos 50 anos de vida. Será que consegue ainda viver da sua arte? A vida não é fácil para músicos com a morte do CD. Será que ainda consegue vender shows? Será que consegue ainda tocar na rádio? Será que ainda vive no Bonfim, num prédio tipicamente Redenção, inscrustado na Oswaldo Aranha, onde o entrevistei há quase 20 anos, quando eu ainda cursava Comunicação, ali perto?
Resolvi checar. Descobri que o Nei tem um site bem legal. Disponibiliza um aplicativo que dá acesso a todos os discos dele. E com uma ferramenta de Enquete divertidíssima. Descobri, na Agenda, que deve faz uns 4 shows por mês. Procurei o Nei no Twitter e não achei. Procurei o Nei no Facebook e achei. Meio escondidinho atrás de um avatar mesclando foto sua com a Mona Lisa, numa comunidade protegida, com 27 amigos. Fiquei feliz. Por vê-lo vivo. Adaptado ao novo ambiente. Que é o que, já ensinava Darwin, devem fazer todos aqueles que desejarem sobreviver. Com o mesmo wit, a mesma (auto)ironia de sempre. Fiquei feliz por entender que Nei ainda consegue sobreviver, sim, dignamente, da sua arte e do seu talento. E ainda sem a necessidade de ter que aparecer em programa dominical acéfalo de auditório para fazê-lo.
Meu olhar ao Nei era, no fundo, um olhar a mim mesmo. Que me reserva o futuro? Até quando conseguirei sobreviver com minha arte, com meu talento? Minhas competências tem prazo de validade? Pense em Suzy Rêgo, Carla Marins, Bia Seidl, para citar três atrizes que já habitaram o panteão da glória e que hoje simplesmente sumiram. Isso pode acontecer com qualquer um. Com profissionais, com empresas e negócios, com atletas e artistas, com parcerias estratégicas e parceiros comerciais. Tudo passa. All things must pass. Então desejo que você, caro leitor, fique vivo. E que fique bem. Como o Nei.