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Quanto você vale?
Por Adriano Silva | 24/11/2009 - 08:47
 
De um executivão que está deixando o mundo corporativo para empreender: numa grande empresa, você vale o quanto os outros acham que você vale. Como empresário, quem determina o seu valor é você mesmo. Segundo ele, ter chefe, trabalhar para uma corporação, equivale sempre, em menor ou maior medida, a colocar o seu motor fora do seu próprio carro. Ou melhor: equivale sempre a necessitar do combustível fornecido por outro para acionar o seu motor. Não importa o quão potente você imagine que seja o seu sistema de propulsão. Se o seu chefe discordar, não lhe encherá o tanque. Ou injetará diesel numa engrenagem a hidrogênio. E não há nada que você possa fazer a respeito.
 
Eu fico aqui pensando que ele tem boa dose de razão. O empreendedor tem que agradar seu cliente. E ponto. O resto vem a reboque. Já o executivo, além de agradar o cliente da empresa, tem que agradar seus clientes internos. Seus chefes, os chefes dos seus chefes, seus pares, seus fornecedores intramuros. E muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, encantar esse público dentro da empresa é bem mais complicado do que encantar quem está fora. E mais: muitas vezes, para fazer a coisa certa pelo cliente, é preciso ir contra a maré do público interno, que tem uma agenda própria, um ritmo próprio, uma cultura própria. Então não é fácil. O empreendedor faz rapidamente os ajustes em sua própria estrutura que lhe permitam atender melhor o seu cliente. O executivo, não. Há um milhão de políticas e de politicagens que precisam ser levadas em consideração antes de trocar a cor da caneta que o pessoal utiliza.
 
Há megaempresas que estão batalhando para descentralizar as decisões de modo a voltarem a pensar e a agir como uma start-up. É um caminho interessante. Não sei se factível. A contradição congênita nessa história é que na medida em que o empreendimento vai dando certo e crescendo, ele vai inevitavelmente se transformando num ambiente corporativo. Ou seja: ao vingar, e ao acumular êxitos, o negócio tende a ir deixando pelo caminho exatamente aquelas características originais que fizeram dele um sucesso. É como se a partir de determinado momento, num processo de condicionamento físico vigoroso, continuar indo à academia começasse a fazer você engordar. Acontece com todo mundo. Tem solução para isso?
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Vou ali e já volto
Por Adriano Silva | 15/11/2009 - 22:09

Meu amigo e minha amiga ingênuos. Peço desculpas pela semana passada, em que, pela primeira vez, não pude cumprir minha meta de 5 textos semanais, um por dia útil, aqui no blog. (OK, já gazeteei um texto semanal algumas vezes antes. Mas semana passada fiquei de fato um bocado ausente. Mais do que eu gostaria. E por isso peço desculpas.)

Aproveito também para me desculpar por esta semana, em que estarei afastado do trabalho. Volto com força total, e com energias renovadas, na terça, 24. Marque na agenda, no celular, no Outlook, no Google, cole um Post It no computador. Mas volte. Espero você aqui dia 24, OK?

Enquanto isso, deixo aqui um texto de 2002, uma adrianossilvada clássica (como meu amigo Helio Gurovitz um dia batizou meus ensaios), artigo publicado na edição de Melhores e Maiores de Exame de 2002.

Ele é o que se chama no mundo do blogs de TLTR: too long to read. Meu objetivo confesso é manter você ocupado com essa leitura até a minha volta...

Faça a coisa  certa

O que está faltando ao Brasil é fazer uma clara opção pela eficiência. Mas será que é isso mesmo que nós queremos?

Não se iluda. Na corrida entre as economias em desenvolvimento para se tornar nações ricas, o Brasil tem feito o papel da tartaruga, não o do coelho. Há anos os países do Sudeste Asiático já nos passaram em vários quesitos. Agora é a vez do México e do Chile comerem pelas beiradas nossa posição de destaque na América Latina. Daqui a pouco, se continuarmos inertes, serão os países do Leste Europeu a nos deixar para trás. Temos um corpanzil, é verdade. E o temos há 502 anos. Mas somos lerdos, moleirões. O que nos torna canhestros nessa corrida não é a nossa direita feudal nem a nossa esquerda autista. Nem a rapinagem de nossa elite, nem a pusilanimidade de nossa classe média. Não são os juros altos, nem a novela das 8, nem o calor dos trópicos, nem a baixa instrução do brasileiro médio. Não é a colonização portuguesa nem a nossa formação católica. O que define a lentidão com que caminhamos em direção ao progresso é outra coisa: ineficiência.

Estou falando de produtividade, medida pelo que se produz, ou se fatura, em relação aos recursos humanos e financeiros investidos. Por essa medida, o Brasil obteve nos últimos anos ganhos expressivos. Mas não estou falando só dela. Estou falando também de nossa capacidade efetiva e do real interesse, como nação, de aprender, crescer, perseguir a excelência em tudo que fazemos.

Imagine que o Brasil engate um ciclo de expansão da economia de 5% ou 6% ao ano por, digamos, cinco ou seis anos. Pode parecer ridículo, mas, num surto de prosperidade desse porte, que é tudo de que estamos precisando, teríamos grande chance de, em vez de crescer, quebrar. É provável que nossa estrutura de produção de bens e serviços, que sofre hoje com a contrição do consumo em todos os níveis, sofreria ainda mais com a demanda turbinada por um ciclo de crescimento.

Três exemplos disso. Estive de férias em um resort neste verão. A cortina do boxe era menor que o espaço do chuveiro. A cada banho, o banheiro alagava. Um amigo, em São Paulo, vai a um restaurante num grande shopping center e faz os pedidos. O prato principal chega antes da entrada. Ele chama a atenção do garçom. Este, sorrindo largo, bate em seu ombro e responde: "Vá comendo para não esfriar, doutor, que a entradinha já vem". Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Há uma fila de táxis controlada por fiscais. Só que ninguém a respeita. É possível, com a conivência dos taxistas e dos próprios fiscais, tomar um veículo no fim da fila. Quebra-se a regra estabelecida e em seu lugar se instaura a lei do salve-se-quem-puder. Quem aposta na ordem e espera a vez fica com cara de otário. Perceba que nenhum desses três casos ocorreu na economia informal nem em rincões do país que não possam ser tomados como parâmetro. Ao contrário: são fatos sucedidos em alguns dos melhores ambientes que o Brasil tem a oferecer.

Pense em todas as ineficiências que povoam nosso cotidiano. Como é possível gastar milhões para erguer um estádio de futebol e não construir um estacionamento anexo? Como se pode pintar 80 000 números de assento num estádio, vender ingressos numerados e isso não servir para nada, porque o que vale é a primitiva lei do "quem chegar antes leva"? Some a isso a morosidade da Justiça em resolver conflitos, o despreparo da mão-de-obra nacional, a fiscalização do governo, que ainda permite que a sonegação seja uma vantagem competitiva entre as empresas no país. Todos esses processos funcionam mal mesmo com uma demanda relativamente acanhada. Afinal, o número e a maturidade dos consumidores brasileiros ainda é uma fração do que pode ser. O que aconteceria se tivéssemos no país 160 milhões de consumidores? E se as empresas por aqui tivessem de lidar com volumes, padrões de qualidade e clientes exigentes como seus pares nos Estados Unidos ou no Japão?

Mas, afinal, o que é ser eficiente? Eis o que penso: fazer mais, melhor, mais rápido e mais barato. Tomar determinado volume de recursos e perseguir incessantemente a forma ideal de produzir os melhores resultados com eles. Esse jeito de fazer as coisas - que envolve detalhismo, correção, rigor, análise, inflexibilidade, afinco, autocrítica - não faz parte do repertório da maioria dos brasileiros. Mais: essas características, que estão na base da eficiência, opõem-se frontalmente ao nosso modo carnavalesco de ver o mundo, ao nosso jeito solto de levar a vida e tomar decisões, à maneira descompromissada de nos relacionar uns com os outros.

Não perseguimos a excelência. Consideramos o aperfeiçoamento um esforço inútil. Por que correr atrás do ótimo se o bom já está bom? A superação, a luta por incrementar os resultados obtidos, é tida como uma preocupação de quem não tem nada melhor a fazer. Rigor é sinônimo de chatice. Análise, uma etapa que sempre pode ser pulada. Afinal, raciocinar muito sobre as coisas tira sua graça. Clareza nos faz enxergar aspectos que nem sempre queremos ver. Dizer o que deve ser dito franca e diretamente é um gesto considerado rude. Inflexibilidade em relação ao que é certo e ao que é errado é uma atitude anti-social, de quem não sabe relacionar-se. Honrar princípios significa não ter jogo de cintura.

Estamos viciados em não resolver os problemas de verdade, em não encarar as situações, em remendar por um tempo em vez de arrumar de uma vez por todas. A precariedade está instalada entre nós. Acreditamos que fazer pela metade dá menos trabalho que fazer por inteiro. E aí, claro, trabalhamos várias vezes mais, não reproduzimos os jeitos certos de fazer nem eliminamos os errados. Apostamos no passável em detrimento da solução definitiva. Somos os falsos malandros. Se fôssemos espertos de fato, buscaríamos soluções perenes, criaríamos sistemas que trabalhassem por nós.

A ineficiência, alimentada por nossa visão de curto prazo, impede que a curva de aprendizagem entre nós se desenvolva, como acontece em sociedades mais eficientes. É que ninguém constrói regras para durar num ambiente como o nosso, tomado pelo imediatismo - que é uma outra face da caótica lei do cada um por si, do salve-se-quem-puder. Como temos sempre de voltar à estaca zero, acumulamos conhecimento de maneira lenta. Aprendendo e absorvendo mal o conhecimento, a missão de nos tornarmos mais eficientes se torna dificílima.

Você perguntará: será que temos uma miopia congênita que nos impede de enxergar a coisa certa a fazer? Digo que não. Nós divisamos o caminho da eficiência tanto quanto americanos e europeus. Só que a correção não faz tanto sucesso entre nós. Por aqui preferimos o que estiver mais à mão, convivemos bem com aquilo que dá para o gasto. Mas, se enxergamos o caminho a seguir, por que não o seguimos? Por que temos essa aversão ao que é eficiente? Por que, afinal, cultivamos essa abissal dificuldade em instaurar e incrementar sistemas lógicos e duradouros, que nos facilitem a vida em sociedade?

Vislumbro três respostas. A primeira: os sistemas não funcionam no Brasil porque não nos interessa que isso aconteça. Se funcionassem, definharia a maior indústria brasileira, que perpassa todos os níveis da sociedade, inclusive, acredite, o seu e o meu dia-a-dia: a da corrupção, do esquema, do caixa dois. Instauramos por aqui, há muitas gerações, o império da gambiarra. De um lado, o jeitinho - burla que elevamos, com orgulho, à condição de virtude nacional - permite a milhares de nós sobreviver à margem dos sistemas alquebrados sobre os quais se equilibra a sociedade brasileira. (Cheios de autocondescendência, chamamos o improviso que nos rege a vida de poesia, de ginga, de malemolência.) De outro lado, o jeitinho, exatamente por permitir a existência da exceção, acaba retardando o aperfeiçoamento dos sistemas. Desenvolvemo-nos tanto na exceção que esquecemos de aprimorar a regra. E a regra, atrofiada, reforça a necessidade da exceção, em círculo vicioso.

O contraponto dessa simpatia pelo roto é a nossa aversão às regras. Há quem diga que isso vem da época da escravidão, quando não se podia discordar da praxe instalada - apenas sabotá-la. Daí nossa reticência em submeter nossa individualidade ao interesse coletivo, e nossa tendência de protestar contra os sistemas instalados sempre à socapa, em vez de abertamente. Somos indolentes viscerais. Se há ordem, somos contra. Se há uma organização maior, insurgimo-nos silenciosamente. Imaginamos que normas são armadilhas, que a existência de processos instalados indica um maquiavelismo destinado a nos prejudicar.

A segunda resposta que vislumbro: somos paupérrimos na construção de sistemas porque sempre conseguimos sobreviver sem eles. Na Suécia é mandatório haver processos eficientes. Lá, se o sujeito não estocar na primavera, não come no inverno. Simplesmente morre. A eficiência é uma imposição. Aqui, dá para destituir um sujeito de tudo, que ele ainda poderá dormir sobre a areia tépida da praia, debaixo de um coqueiro, que, como diz a canção, dá coco. Essa possibilidade de sobreviver à margem do sistema acarretou também uma mania nacional de procrastinar. Só se tomam providências quando a situação fica insustentável. Assim, empresas só se reestruturam quando estão para falir. Chamamos o encanador só quando aquela solução caseira está a ponto de explodir o cano e levar a parede junto. O governo só investe em energia quando o país se defronta com o apagão.

A convivência com o meia-boca gera ainda um rebaixamento das exigências e dos padrões em todas as áreas da vida nacional. A intolerância com o trabalho malfeito aumenta a qualidade dos resultados e dos processos gerados na sociedade. Aceitar o tosco, ao contrário, vai nos acostumando ao imperfeito. Vamos tomando o medíocre por bom. E aprendendo a chamar o mais ou menos de ótimo. Aí o sujeito sai do Brasil e se deslumbra com coisas que são corriqueiras para outros povos - os horários serem cumpridos, as leis serem respeitadas, os infratores serem efetivamente punidos. Não se trata de mágica. Nem de superioridade genética. Trata-se apenas de padrões e níveis de exigência elevados ao longo de muitos anos de severo combate às ineficiências.

Há pouco tempo estive a trabalho em Nova York e me hospedei num dos grandes hotéis da cidade. De um lado havia as instalações perfeitas, os sistemas absolutamente funcionais. De outro, o mau humor cortante dos funcionários. Uma característica das nações ricas: a eficiência antipática. No Brasil ocorre geralmente o contrário: nada funciona, mas somos queridíssimos. Trata-se da boa vontade ineficiente, característica de países pobres. O garçom serve o prato principal antes da entrada. Mas sorri para você, tem calor humano. Tentamos pagar com simpatia pelo direito de sermos tíbios.

Por fim, o terceiro pilar que, a meu ver, garante a perpetuação da ineficiência no Brasil: sistemas eficientes incluem. E a nossa cultura - e a quase totalidade dos nossos privilégios e do nosso status - advém da exclusão. De novo: simplesmente não nos interessa que os processos no Brasil funcionem melhor. Se o sistema de transporte público fosse eficiente, o significado de ter um carro mudaria no país. E talvez você, que batalhou tanto para ter esse carrão na garagem, não queira que essa conotação seja alterada. Se os serviços de saúde funcionasse, o fato de ser amigo ou parente de determinado fulano em determinado hospital, que hoje lhe dá poder, seria irrelevante.

Há muita gente que passou a vida trocando favores, construindo atalhos, traficando influência. Se todos os cidadãos tivessem assegurados os mesmos direitos, por meio de sistemas sólidos e funcionais, toda essa rede de relações obscuras, essa indústria do jeitinho, perderia o sentido. Mesmo aquele porteiro que o coloca para dentro da boate lotada porque você é bacana e costuma enfiar dinheiro em seu bolso desapareceria. Ele não teria espaço para existir num ambiente eficiente, que operasse, por exemplo, com reserva e lista de espera. Só falta saber se você, que forma e dirige o país, toparia essas mudanças de paradigma. Ou se prefere deixar isso para outro dia.

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O mundo visto pela garagem
Por Adriano Silva | 12/11/2009 - 17:00
Um antigo chefe uma vez me disse que media a saúde das empresas e a felicidade dos seus executivos pela garagem. Quanto mais carrões houvesse, melhor estaria a saúde financeira da companhia e mais engajados e entusiasmados estariam os gerentes e diretores, mercê de bônus polpudos e de uma política agressiva de distribuição de lucros. Então ele prestava muita atenção às garagens. (Talvez gostasse um pouquinho de carros também.) Garagens com carros medíocres indicariam uma empresa medíocre - ou na rentabilidade ou na divisão do bolo com seus stakeholders.
 
Hoje estacionei no subsolo do Centro Empresaria Nações Unidas, na Marginal Pinheiros, em São Paulo. O famoso CENU, que em suas duas torres abriga a sede  brasileira de empresas como HP, Nokia, Samsung e Toyota. O vaivém de executivos é intenso. E eu prestei atenção à garagem. Prestei atenção aos carros. Bem pouco medíocres. E fiquei imaginando que se tudo der certo, se os próximos 18 meses na economia brasileira realizarem o que está se projetando para o período, com a Bovespa atingindo 80 000 pontos (no ápice do aquecimento, em 2008, a Bovespa chegou a transbordantes 73 000 pontos, e no auge da crise financeira mundial, retrocedeu para mirrados 35 000 pontos), o número de BMWs, Audis, Mercedes e Volvos vai se multiplicar. O mercado vai aquecer, a economia vai crescer, as empresas vão prosperar e, com elas, seus principais executivos.
 
Ao pensar nisso, percebi também o quanto evoluímos nos últimos anos em termos ideológicos no Brasil. Há duas décadas, um fenômeno de expansão econômica como esse ia gerar provavelmente mais desconfiança e grita entre nós do que comemoração. Ainda na segunda metade da década de 90, publiquei vários artigos na Exame tratando um pouco dessa nossa concepção equivocada do significado de ganhar dinheiro, dessa nossa resistência histórica ao sucesso. Mais carros importados nas garagens das empresas, das casas e dos condomínios seriam vistos como um desdobramento porco do capitalismo, como consumismo decadente, como materialismo espúrio, como concentração de renda nojosa, como mais um signo da exploração suja do homem pelo homem, como um fenômeno, enfim, do qual devêssemos nos envergonhar.
 
Hoje, ao que parece, todo mundo já aprendeu a comemorar o enriquecimento da classe média, a ascenção da classe C, o azeitamento da máquina capitalista brasileira, o mercado aberto e competitivo e eficiente que vai se consolidando no país. Vamos aprendendo que trabalhar melhor e assim ganhar mais dinheiro é bom. Que não é preciso ter culpa em viver melhor, em ter bolsos mais polpudos. Vamos aprendendo que pobreza só se combate com mais riquezas sendo geradas e obtidas licitamente por cidadãos melhor preparados, mais produtivos e menos encucados.
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Sobre jovens talentos
Por Adriano Silva | 09/11/2009 - 17:42
Uma amiga me conta que encontrou no Programa Jovem Cidadão, recentemente, o melhor assistente com que já se defrontou na carreira. Um menino esforçado, que sempre estudou à base de bolsas de estudos, nascido com desvantagens econômicas mas com alma de vencedor. E eu percebi na hora em que ela me contava a história que é isso, e só isso, o que conta de verdade: o que você tem dentro de si. Não são as condições externas que determinam o sucesso, embora elas possam tornar o caminho bem mais tranquilo. São as condições internas. Ela admirava a ambição do menino, que aos 17 anos já sabia o que queria da vida, aonde queria chegar. E admirava nele também o modo determinado e correto como perseguia seus sonhos, seus objetivos, e construía seu caminho. Ela o contratou assim que o estágio terminou. Ou seja: o mercado sempre dá um jeito de absorver quem é bom. Talento é raro e, de modo geral, as empresas que prezam a própria sobrevivência não os deixam passar. (Ainda que imensas e grossas exceções a essa regra cansem de ocorrer aí fora todo dia.)
 
Eu fico aqui pensando nos jovens talentos. Às vezes eles são presenças óbvias. Só não vê quem não quer. (Ou não gosta de lidar com talentos e prefere cercar-se de mediocridade.) Às vezes, no entanto, é difícil identificá-los, tecer um juízo claro em relação a eles. Há Ronaldinhos e Kakás. Mas para cada um deles há dezenas de jovens que surgem cheios de potencial e perspectivas e que fenecem pelo caminho. Por vários motivos: arrogância e soberba precoces, falta de foco e de atenção, falta de vontade e de persistência, falta de disciplina e de denodo. É gente que não cumpre seu destino. Que fica na promessa. Então jovens talentos que chamam a atenção cedo podem estourar de fato. Mas também podem murchar. Assim como gente menos radiante pode ir se polindo ao longo da carreira e se transformar num avião a jato.
 
Eis o que penso: o jovem talento não tem obrigação de enxergar nem uma jogada sequer à frente, dada a sua inexperiência. E aí precisa de acompanhamento para não incorrer em erros causados pelo excesso de vontade, pela imaturidade, pela inocência de quem ainda tem muito para aprender. Mas o jovem talento não pode deixar de brilhar na jogada atual, em que está inserido. Não pode falhar por desleixo, por desatenção, por irresponsabilidade. Ele tem o direito de não enxergar, ainda na gênese da jogada, o gol a favor ou contra se desenhando. Tem o direito de não conhecer os atalhos do campo. Porque seu repertório de jogos assistidos e jogados é inevitavelmente pequeno. Mas ele não tem o direito de errar passe fácil por disciplicência nem de perder a bola que lhe foi passada com açúcar por falta de entusiasmo, de cuidado, de comprometimento. Aí é incompetência. Aí é duro de admitir.
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[ Post de sexta ] Uma explicação, por favor
Por Adriano Silva | 06/11/2009 - 19:22

Eu sei, eu sei, isso é totalmente [ Off Topic ], aqui não é lugar para ficar falando de futebol. Mas essa reta final do Brasileirão está sendo emocionante e reveladora. E, sim, às 19h desta sexta calorenta em São Paulo, talvez possamos abrir uma pequena exceção.

Ontem, na minha pelada, em que jogam comigo grandes craques, como Arnaldo Ribeiro e Rogério Andrade, da Placar, Maurício Ribeiro, da Runner's e Maurício Teixeira, do Ig, que são, além de tudo, luminares do jornalismo futebolístico brasileiro, verdadeiras sumidades dos gramados naturais e sintéticos, eu ofereci 50 reais a quem me explicasse o que aconteceu com o Inter nesse Brasileiro. Porque eu, honestamente, não consigo entender.

Eis o que eu bradava aos céus, diante dos companheiros de batalha campal e de churrascos redentórios: Como pode o time com a melhor campanha do primeiro turno fazer a pior do segundo? Como pode um time estar a dois ou três pontos do líder, depois de já ter estado a nove, e diante da terceira ou quarta chance de ganhar esse campeonato, perder em casa para um adversário que é sério candidato ao rebaixamento? Como pode um time tomar gol de bola parada depois dos 40 minutos? Como pode um time ceder o empate, jogando em casa, depois de abrir 2 a 0 sobre o adversário? Será que entre os jogadores ninguém fica com o radinho ligado, ninguém passa os olhos nos jornais, e grita para o grupo: "Ei, cambada, agora é a nossa hora, está para nós, vambora ganhar essa bagaça, cacete?" O que aconteceu esse ano não pode ser explicado pelos altos e baixos do campeonato mais disputado do mundo, nem pelas fases que todo time passa, nem pelas injustiças que toram o ludopédio um esporte tão fascinante. Será que as estrelas estão com os salários atrasados? Será que estão boicotando o técnico? Será que o grupo está rachado, cheio de maus elementos? Será que as vedetes estão fazendo corpo mole a mando de empresários cujas contas passam longe do que passa no coração da torcida? Mas que ganhos podem ter com isso? O que perder um campeonato vexatoriamente pode lhes acrescentar? Será que não percebem que quem está na berlinda, com a cara a bater, diante da torcida, nas ruas, nos shoppings, na imprensa, diante dos demais clubes no Brasil e fora dele, são eles mesmos?

Aí um amigo meu, palmeirense, que sabe que eu sou colorado, me perguntou, depois da minha longa exasperação: "Você está falando do Palmeiras?" E rimos juntos.

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Adriano Silva
Jornalista e publisher do Gizmodo Brasil. Ele escreve sobre perplexidades, descobertas e insights que acontecem todo dia no mundo do trabalho -- e fora dele também.
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