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Muda tudo e não muda nada

As relações entre a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva e o setor rural nunca foram amistosas. Marina sempre se opôs aos transgênicos, à soja na Amazônia e à expansão do etanol. Era de se esperar que sua saída fosse comemorada pelos diferentes segmentos do agronegócio brasileiro. Embora ninguém esteja lamentando o pedido de demissão de Marina Silva, poucos no setor agro acreditam em grandes mudanças na política ambiental brasileira com a chegada de Carlos Minc, ex-secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro.

Primeiro, não seria de bom tom o Brasil afrouxar suas leis ambientais justamente num momento em que a sustentabilidade do etanol nacional é questionada no exterior. Segundo, boa parte das decisões que importam (seja para o agronegócio ou qualquer outro setor produtivo) está nas mãos de técnicos de diferentes escalões e dos mais diversos órgãos governamentais. Portanto, as dificuldades na obtenção de uma licença ambiental devem continuar as mesmas. A questão é saber se Minc entra com disposição para dialogar com o agronegócio - ou continuará a tratar o setor como inimigo. Se apenas isso ocorrer, já será um grande avanço.


Publicado em 14/05/2008 - 16:11


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O fim das moendas

A era das moendas gigantes nas usinas de cana-de-açúcar parece estar com os dias contados no Brasil. Há duas evidências para isso. De um lado, várias usinas em construção no país estão preferindo o sistema por difusão. A CNAA, por exemplo, está construindo 4 usinas, em Minas Gerais, que irão utilizar a tecnologia. De outro, há uma nova empresa apostando na fabricação desse tipo de equipamento, a Jaraguá - que entra para concorrer com a Sermatec, de Sertãozinho. A Jaraguá, que adota a tecnologia desenvolvida pela a alemã BMA, está negociando os contratos para a fabricação de dois difusores.


Mas, afinal, o que é um difusor? Ao contrário da moenda, que esmaga a cana e extrai o caldo, o sistema por difusão retira o caldo por imersão - do mesmo jeito que se faz um chá. Há várias vantagens dos difusores sobre as moendas. Primeiro é o custo menor de aquisição - e um gasto menor ainda com a manutenção do equipamento. No caso das moendas, é preciso desmontar todo o equipamento no fim da safra, limpá-lo e remontá-lo para a temporada seguinte - o que não ocorre com os difusores. Outra vantagem é uma extração de um maior índice de sacarose. O que seria motivo mais que suficiente para justificar a adoção da tecnologia, mas o que de fato tem chamado a atenção dos usineiros é o baixo consumo de energia do sistema. Isso faz toda a diferença quando as perspectivas de longo prazo apontam para a geração de bioeletricidade como o segundo negócio mais importante das usinas - depois apenas do etanol (o açúcar será o terceiro!)

Em tempo: até a Dedini, que fabricou boa parte das moendas do país, está se rendendo à tecnologia também.


Publicado em 08/05/2008 - 13:21


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Antes o certo do que o duvidoso

O anúncio da compra da Esso no Brasil pelo grupo Cosan é um marco no mercado nacional de combustíveis. É a primeira vez que uma empresa produtora de cana-de-açúcar chega literalmente aos postos de abastecimento. Antes, todo o álcool fabricado no país passava pelas distribuidoras que, em maior ou menor medida, eram conectadas ao universo da gasolina - caso da própria Esso que pertencia ao grupo da ExxonMobil, maior petrolífera do mundo. A aquisição também reflete um mercado de combustíveis no país que consome mais álcool do que gasolina.


O que está explícito na compra da Esso é a forte aposta da Cosan no mercado doméstico, que cresce embalado pelo aquecimento da economia brasileira. O que a empresa não deixa claro é como ela passa a encarar o mercado externo de etanol. Afinal, a promessa de grandes volumes exportados ainda não aconteceu. Hoje, apenas 20% do álcool produzido no Brasil são exportados - proporção que se repete dentro da Cosan. Pior: o etanol brasileiro está sob forte ataque na Europa, o que pode retardar ainda mais o acesso ao mercado externo. No final das contas, a Cosan pôs em prática um velho ditado: preferiu o certo ao duvidoso.


Publicado em 24/04/2008 - 22:56


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Inimigo ou aliado?

O sociólogo suíço Jean Ziegler sempre foi considerado inimigo número 1 do setor sucroalcooleiro no Brasil. Em 2007, o relator das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação classificou o uso maciço de bicombustíveis como um crime contra a humanidade, por utilizar alimentos para a produção de combustíveis. As críticas, naturalmente, eram extensivas ao etanol brasileiro. No começo de março, no entanto, Ziegler mudou de opinião. Durante uma apresentação em Genebra, ele saiu em defesa do etanol brasileiro. "A situação no Brasil é diferente do que ocorre com outros produtores de biocombustíveis. Isso em parte porque o país não utiliza matérias-primas como o milho, mas cana-de-açúcar". Ziegler disse também que o programa brasileiro de etanol tem um forte componente social e respeita o direito da população brasileira ao acesso à comida. 


A súbita mudança de lado de Ziegler despertou suspeita. E não tardaram insinuações de que o apoio ao etanol do Brasil seria uma forma de conquistar o voto da chancelaria brasileira em Genebra para a eleição do Comitê Consultivo, do Conselho de Direitos Humanos da ONU - cargo para o qual ele foi eleito no final do mês de março. Em entrevista ao Human Rights Tribune, o sociólogo disse que foi convencido pelos brasileiros de que a situação no país é um caso excepcional, diferentemente do que ocorre em outros países. E disse achar um absurdo cogitarem que ele havia mudado de lado por razões eleitorais. Será que o antigo inimigo número 1 se tornou realmente um aliado do Brasil?


Publicado em 18/04/2008 - 16:40


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O paradoxo do café

O café tipo robusta sempre foi tratado como de segunda linha. Para muita gente, o grão de qualidade é o da variedade arábica, que produz as melhores bebidas gourmets do país. Mas quem tem investido na versão robusta, usada na produção de café instantâneo e como complemento em misturas de torrado e moído, não tem do que reclamar. Um estudo do Rabobank mostra que o faturamento de robusta passou de 2 mil dólares o hectare para mais de 5 mil dólares nos últimos três anos. No mesmo período, o tradicional arábica se manteve estável em 1 mil dólares o hectare - e mais recentemente ficou abaixo desse patamar. Historicamente, o tipo robusta era negociado pela metade do valor do arábica.
O boom de robusta é resultado de um aumento no consumo de café no mercado interno e de novas tecnologias na produção do torrado, que conseguiram eliminar características indesejáveis no sabor da bebida. Isso fez com que a quase insignificante produção de robusta na década de 70 passasse a 25% do total de café cultivado no país - sendo que boa parte dos produtores está concentrada no estado do Espírito Santo. Paradoxalmente, o atual sucesso da variedade deve incrementar as vendas de seu maior concorrente no futuro, a versão arábica. Isso porque o consumo de robusta é uma espécie de estágio inicial para os novos consumidores e abre caminho para experimentar os grãos de maior qualidade. Ou seja, quem começa com uma xicrinha de instantâneo hoje pode bebericar um café especial no futuro.

Publicado em 10/04/2008 - 22:29


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Fabiane Stefano é repórter de EXAME e escreve sobre o agronegócio

fstefano@abril.com.br





 
 
 
 

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