Seu Miguel." É com um misto de respeito e admiração que os funcionários da Datasul se referem a Miguel Abuhab. Não é para menos. Abuhab é um dos pioneiros da indústria de software nacional. A prova está no saguão de entrada da empresa, em Joinville: um computador do tamanho de uma geladeira industrial, a máquina em que o paulistano Abuhab começou a trabalhar, nos anos 70, na antiga Consul. Desde aquela época envolvido com tecnologia para o mundo corporativo, Abuhab viu de tudo. A empresa que fundou há 25 anos emprega 2 500 funcionários e registrou faturamento de 192 milhões de reais em 2002.
Agora, o patriarca do software nacional está pronto para uma segunda tentativa. Abuhab nomeou um sucessor para cuidar do dia-a-dia da companhia. Vai passar a ocupar a presidência do conselho de administração. Mas não se trata de aposentadoria. Abuhab quer tempo para se dedicar a outros empreendimentos. Qualidades essenciais para isso ele tem de sobra: energia e iniciativa. Mas também será necessária uma dose igualmente importante de desprendimento. Descrito unanimemente como um executivo visionário e empreendedor, mas também como um centralizador, Abuhab precisa mostrar que é capaz de se distanciar da Datasul. Não só para permitir que a companhia, líder no segmento de sistemas integrados de gestão (ERPs) para médias empresas, estabeleça uma política de governança corporativa mas também para tocar outros projetos ambiciosos na área de tecnologia, que incluem telemedicina, uma empresa de serviços e uma fábrica de software.
O sucessor de Abuhab é Jorge Steffens, um catarinense de 37 anos que trabalha na Datasul desde os 16. Antes de falar nele, porém, é preciso lembrar que esta não é a primeira vez que Abuhab, 58 anos, tenta se afastar do negócio. No primeiro ensaio, que durou pouco mais de dois anos e acabou em janeiro do ano passado, ele chamou Carlos Sá, um executivo do mercado com experiência em multinacionais de tecnologia.
Na Datasul, todos são reticentes quando o assunto é a passagem de Sá. Diplomaticamente, dizem que foi um passo necessário na estruturação da empresa. Em 1999, a Datasul vendeu parte do capital para o fundo de investimento americano Westsphere (hoje administrado pelo banco ING Barings). A intenção era preparar a empresa para a abertura de capital. Mas aí veio a crise nos mercados acionários, e a idéia ficou em segundo plano. O ritmo imposto por Sá, um executivo descrito como workaholic, surpreendeu muita gente acostumada a ir para o trabalho de bicicleta e a almoçar em casa.
"O executivo costuma ser remunerado pelo crescimento da empresa e pela valorização do negócio", diz Abuhab. "Isso é muito bom para o acionista, mas havia um conflito aí. Nossa missão sempre foi ajudar os clientes a resolver problemas." Tradução: o foco deixou de ser o cliente e passou a ser financeiro. Mas, além do descompasso, será que havia espaço para um executivo de fora? "Estava aqui das 8 às 18 horas, e muitas vezes vinham me procurar diretamente. Com certeza, isso também não ajudou."
Desta vez, a história deve ser diferente. Steffens é um homem de total confiança de Abuhab. Entrou na Datasul como estagiário em 1982. Dois anos depois, quando estava na universidade, abriu o primeiro escritório da empresa em São Paulo. "Eu literalmente morava na filial", diz Steffens. "A empresa funcionava numa casa no bairro do Brooklin. Eu dormia nos fundos, acordava e já estava no trabalho."
A lealdade foi recompensada. Nos primeiros anos da Datasul, Abuhab criou um programa de distribuição de ações para os funcionários com base no tempo de casa. Steffens foi um grande beneficiário dessa política. Chegou a ter 10% do capital da empresa (esse porcentual desde então foi diluído). Hoje, é o único acionista individual da empresa, ao lado do fundador.
Formado em processamento de dados, com especializações em marketing e administração de empresas, Steffens já ocupou diversos cargos na diretoria da Datasul. O mais recente foi a diretoria de produtos. Sobre o relacionamento com Abuhab, ele diz não estar preocupado. "Acho que os últimos 20 anos foram suficientes para que eu entendesse bem como lidar com seu Miguel ", afirma, entre risos. Se o lado do relacionamento está bem resolvido, o futuro do negócio da Datasul depende em boa parte de novas iniciativas sob sua responsabilidade.
Os negócios vão bem, é verdade. Uma mudança radical no modelo de gestão, que desde 2001 transformou a Datasul numa rede de 38 franquias (sete de desenvolvimento de software e 31 de vendas), deu certo. Os lucros dobraram: 10 milhões de reais em 2001 para 20 milhões no ano passado. Ao transformar os departamentos de uma grande empresa em pequenos negócios, a Datasul conseguiu disseminar a cultura de risco que sempre moveu Abuhab. "O regime celetista era oneroso demais para o nosso desafio de crescimento", diz Abuhab. "Com o novo modelo, conseguimos injetar um ímpeto empreendedor nas pessoas."
No prédio de quatro andares no bairro do Bom Retiro, entre o Aeroporto e o centro da cidade, os sinais desse tal ímpeto estão espalhados por toda parte. Além de abrigar o comando da corporação, há sete franquias instaladas na sede da empresa, uma para cada um dos módulos que compõem o coração do sistema de gestão integrado da companhia. No corredor que leva à área de logística, um cartaz informa que as cotas da franquia valiam 11 reais e 20 centavos em fevereiro, uma valorização de quase 3% em relação ao mês anterior. No ano passado, os sócios viram suas cotas se valorizar cerca de 35%. "Metade dos nossos 180 funcionários também são sócios", diz Moacir Cardoso, diretor da franquia de logística. "Por um lado, isso é bom, por produzir um comprometimento que antes não havia. Só criou um pequeno problema de organização: algumas decisões são tomadas em reuniões com todos os acionistas", afirma Cardoso.
Nos primeiros meses de implementação do sistema, porém, os recém-convertidos empreendedores não estavam tão bem-humorados. Além da "incerteza da sobrevivência", como diz Cardoso, houve alguns ajustes importantes a fazer. Um dos principais deles diz respeito ao desenvolvimento. No modelo original, previa-se que cada franquia reinvestisse uma porcentagem de suas receitas no aperfeiçoamento dos respectivos programas. Só que isso criou um problema, pois o ERP é um produto modular: o cliente pode comprar apenas o software de controle financeiro ou de recursos humanos, por exemplo. No plano original, as áreas que mais vendessem teriam seus produtos cada vez melhores -- e as com menos faturamento teriam um software cada vez menos competitivo. Ou seja, havia o risco de o produto completo ficar desequilibrado. No ano passado, a regra mudou. Agora, há um fundo comum de desenvolvimento, cujos recursos são alocados de acordo com o interesse global da companhia.
É aí que entra a missão de Jorge Steffens. De cada real faturado pela Datasul, 95 centavos vêm dos ERPs. Mais: 70% das receitas são de manutenção, ou seja, de clientes que já têm sistemas de gestão em funcionamento. Embora ainda haja espaço para crescimento nesse mercado, a disputa será cada vez mais acirrada. As multinacionais já esgotaram o filão das grandes corporações, e agora todos vão competir pelos mesmos clientes.
Os ERPs são a fundação tecnológica dos negócios. Agora é o momento de partir para a próxima camada: programas que ajudem a tirar valor das informações. Em novembro passado, a Datasul comprou a Perfil, empresa que produz um software de relacionamento com consumidores (CRM), e criou uma nova franquia para desenvolver um sistema de business intelligence, basicamente uma maneira de facilitar a análise das informações mais importantes para uma empresa. A Datasul dá os primeiros passos em ambas as tecnologias, mas Steffens diz que esse é o menor dos problemas. "Nossa clientela é fiel. São empresas que não querem o que há de mais novo, porque isso dá trabalho", afirma Steffens.
Outra aposta é na produtividade. Sob a coordenação de Steffens, deve começar a operar ainda neste mês uma fábrica de software (até a conclusão desta edição, o negócio não tinha nome definido). O objetivo é atender às demandas da Datasul e também de clientes externos. "Programação e teste são tarefas repetitivas, que podem -- e devem -- ter um rígido controle de qualidade", diz Steffens. "Além disso, há blocos inteiros de programas que podem ser reaproveitados. Isso significa mais lucratividade." Assim como no caso das franquias, o objetivo é criar uma relação de cliente e fornecedor dentro da rede de franquias.
Enquanto o sucessor se dedica ao dia-a-dia da Datasul, "seu Miguel" tem planos ambiciosos para seus outros negócios. O que está em estágio mais avançado é a Neogrid, empresa de comércio colaborativo também com sede em Joinville. Fundada há pouco mais de três anos, a empresa é a materialização de uma idéia que mais fascina Abuhab -- a integração eletrônica entre as empresas. Inspirado nas idéias do guru da administração Eliyahu Goldratt (com quem fundou uma empresa de consultoria, a Goldratt Consulting), Abuhab agora não se cansa de criticar o que chama de "ortodoxias". No mundo dos negócios, a principal delas diz respeito ao relacionamento entre as empresas: "As empresas querem que o consumidor compre aquilo que elas previram. Hoje, vivemos a ortodoxia do empurra-empurra de estoques", diz Abuhab. "É o modelo do ar-condicionado: esfria aqui dentro, mas esquenta lá fora."
A aposta da Neogrid é que as cadeias de negócio sejam cada vez menos parecidas com uma montadora e mais com uma empresa de serviços públicos, capaz de providenciar a reposição do produto de acordo com a necessidade do cliente. Até agora, já foram investidos cerca de 14 milhões de reais na Neogrid. Dirigida por Antonio Carlos Correa, empreendedor de Joinville, a empresa opera num sistema de prestação de serviços: paga-se de acordo com a utilização do produto.
A Neogrid tem 200 clientes. Correa diz que a empresa ainda não é lucrativa, mas está otimista com as perspectivas. A idéia de colaboração não é exclusiva da Neogrid, mas está em gestação em Joinville desde 1997. Além disso, o produto foi adaptado para a tecnologia Java, o que torna sua implementação mais rápida -- hoje, poucas empresas estão dispostas a esperar meses para que um sistema comece a funcionar. "Um de nossos clientes já reduziu seus estoques em 60% e, graças a isso, pôde aumentar a oferta de produtos", diz Correa. Em março, o produto foi apresentado na CeBit, na Alemanha, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, e despertou interesse de empresas britânicas e holandesas.
A outra ortodoxia que tem merecido atenção de Abuhab é a área médica. Sem alarde, a Datasul criou uma divisão para tentar diminuir a fragmentação das informações que circulam entre médicos, laboratórios, hospitais e planos de saúde. "Calculamos que o setor perca cerca de 4 bilhões de reais por ano por causa dessa ineficiência", diz Marco Cruz, responsável pela Datasul Medical. Eis a idéia: as informações médicas básicas de cada paciente e todos os procedimentos (receitas, exames e intervenções) ficarão armazenados num único ponto e podem ser acessados pela internet. Os maiores interessados são os planos de saúde. Quatro deles (dois de Joinville, um de Salvador e um de Recife), com cerca de 170 000 vidas, testam o sistema.
Até agora, afirma Cruz, foram investidos 10 milhões de reais na Datasul Medical. "Muitos dos sistemas desenvolvidos para a Neogrid serão reaproveitados", diz Abuhab. Só que, neste caso, a tecnologia é o fator menos importante para o sucesso da empreitada. Pelas contas de Cruz, 70% de todos os gastos da área de saúde passam pelas canetas dos médicos. O desafio é fazer com que eles passem não só a utilizar computadores nos consultórios mas também o sistema desenvolvido por Cruz e sua equipe. Como se vê, não será por falta de trabalho que Miguel Abuhab sentirá a tentação de voltar ao dia-a-dia da Datasul.
| OS NEGÓCIOS DE SEU MIGUEL |
| Longe do dia-a-dia da Datasul, Miguel Abuhab quer se dedicar a outros empreendimentos |
| NEOGRID Também com sede em Joinville, a empresa oferece serviço de integração entre os ERPs de uma cadeia de suprimentos. A idéia é permitir a redução de estoques para cortar custos e aproximar a produção da demanda pelo produto final |
| GOLDRATT CONSULTING Empresa de consultoria que baseia seu trabalho nas teorias do guru israelense Eliyahu Goldratt. Ele é um ferrenho defensor da integração entre as cadeias produtivas e do fim do empurra-empurra de estoques |
| DATASUL MEDICAL Desenvolve um sistema para centralizar as informações médicas dos clientes de planos de saúde para reduzir fraudes e melhorar a qualidade dos diagnósticos. Hoje é uma divisão da Datasul, mas a idéia é torná-la uma empresa à parte |
| FÁBRICA DE SOFTWARE Estabelecida nos mesmos moldes de uma franquia, a fábrica vai fazer o trabalho braçal do desenvolvimento de software: escrever e testar os códigos encomendados pelos desenvolvedores. Além disso, poderá prestar serviços para terceiros (como bancos ou grandes empresas) |
