Tudo o que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz, segundo ele próprio, cai em duas, e só duas, categorias. Na primeira, o que faz, em qualquer área de atividade, é sempre o melhor (ou maior) do mundo. Na segunda, é sempre o melhor (ou maior) jamais feito "na história deste país". Ao longo dos últimos dias, juntou-se a essas duas auto-avaliações uma terceira, segundo a qual pode haver, talvez, alguém tão honesto quanto o presidente entre os 180 milhões de brasileiros, mas ninguém seria "mais honesto" do que ele. Em matéria de megalomania boba, fica difícil encontrar algum governo que consiga competir com o de Lula, seja "no mundo", seja "na história deste país", mas isso é o de menos.
O curioso é que o julgamento que o governo faz a respeito de si próprio é exatamente o oposto do que ocorre no mundo dos fatos. Nunca houve na era republicana (para usar a palavra fetiche do PT), ou em qualquer outra, um governo que roubasse tanto e de forma tão inepta como o atual. Mas é nesse momento, justamente, que Lula escolhe para informar ao público que nenhum brasileiro o supera em termos de honestidade -- deixando o público, obviamente, sem entender nada. Nunca houve, também, tanta incompetência na gestão da máquina pública, exceção feita à área econômica. Quanto mais erra, porém, mais o governo diz que acerta. A pose é de Real Madrid. Os resultados, no mundo das realidades, são de Jabaquara.
Nessa balada, é natural que também a política externa do governo Lula seja descrita como a melhor de todos os tempos. Mas, da mesma forma como ocorre com os "10 milhões de novos empregos", com o "Fome Zero", com as "políticas públicas", e por aí afora, o que se pode ver, na tabela de pontos corridos, é que a diplomacia brasileira não consegue ganhar uma -- não, com certeza, na sua estratégia de transformar o Brasil no farol dos países subdesenvolvidos e, com isso, alterar a "balança de poder" vigente no planeta Terra. Como o personagem Augusto Matraga, o Itamaraty petista dedica-se a fazer política sempre do lado que perde, constrói alianças sem aliados, proclama liderança sem liderados e candidata-se a cargos nas organizações internacionais sem ter votos. O resultado prático disso tudo, até agora, tem sido derrota em cima de derrota. No falatório do PT e de Lula, é claro, a diplomacia do Itamaraty é a mais fabulosa que já se fez na "história deste país". Na vida real, ela consegue exatamente o contrário do que pretende -- em vez de fazer amigos e influenciar nações, o Brasil se vê cada vez mais isolado no Terceiro Mundo, que imagina estar liderando, e levado cada vez menos a sério no Primeiro, ao qual imagina estar impondo respeito. Devem ser as "perdas internacionais" de que tanto falava o governador Leonel Brizola.
A última goleada que o Itamaraty tomou foi a candidatura brasileira à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID): conseguiu o lamentável total de 11 votos para o candidato João Sayad, contra os 20 dados ao vencedor, o colombiano Luis Alberto Moreno, após uma campanha desastrada do começo ao fim. Os estrategistas da política externa do PT imaginavam derrotar Moreno, o candidato apoiado pelos Estados Unidos, mobilizando em favor do Brasil as ilhas do Caribe -- países sem dúvida muito simpáticos e numerosos, mas cuja possibilidade de decidir uma disputa nas três Américas é próxima a zero. A eles deveriam se somar, no sonho do Itamaraty, os votos da Venezuela do companheiro Hugo Chávez, depois os do Mercosul, e assim por diante, até que os Estados Unidos se curvassem diante do Brasil. Só poderia dar errado, e deu.
No fim das contas, o candidato brasileiro acabou não ficando sequer com todos os votos do Caribe. Do Mercosul, que o governo Lula insiste em liderar, é melhor nem falar: dos três votos com os quais o Itamaraty contava, dois foram contra. O pior, na história toda, é que mais uma vez a atual diplomacia brasileira acabou obtendo o exato oposto daquilo que pretendia obter: em vez de aumentar, diminuiu a influência que tinha no BID, onde a vice-presidência era até agora ocupada pelo mesmo João Sayad. Durante a campanha, surgiu a chance de uma composição. O Brasil apoiaria a candidatura de Luis Alberto Moreno e seria compensado com a manutenção de seu peso relativo na estrutura do banco. Mas o Itamaraty decidiu bater chapa, perdeu feio e agora não se sabe nem mesmo se o pobre João Sayad, que não tinha nada a ver com a briga, ficará no BID. Ao fim e ao cabo, deu perda total. O Brasil não conseguiu o que queria ter e está ameaçado de perder o que tinha.
O desastre do BID é irmão gêmeo do desastre que a política externa do governo já tinha oferecido ao país em maio, com a candidatura do embaixador Luiz Felipe Seixas Corrêa à diretoria-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O Itamaraty, na ocasião, conseguiu o prodígio de ver seu candidato ficar em quarto lugar numa disputa entre quatro nomes. Não só isso: após uma disputa em que se cometeram todos os erros que seria possível cometer, o ganhador foi o diplomata uruguaio Carlos Pérez del Castillo. Sobrou a constatação de que nem no Mercosul, mais uma vez, o Brasil consegue apitar alguma coisa, e que nem o Uruguai, nosso excelente vizinho, parece estar impressionado com o poder de fogo que o Itamaraty acredita ter. A surra na eleição da OMC não deveria ensinar a diplomacia do governo Lula a pensar um pouco melhor nas suas limitações? Deveria, mas não ensinou. Sem aprender nada e sem esquecer nada, o Itamaraty logo se meteu na aventura do BID, e agora trabalha a todo o vapor para perder de novo, com sua tentativa de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Trata-se de uma candidatura que só existe na cabeça dos três ministros de Relações Exteriores que o Brasil tem hoje, e que eram quatro até José Dirceu, o ex-chefe da Casa Civil, ser incinerado na fogueira do mensalão: o ministro propriamente dito, o chanceler Celso Amorim, o secretário-geral Samuel Pinheiro e o assessor internacional do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia. Nem mesmo os países da América Latina, que pela teoria geopolítica do PT deveriam estar torcendo feito loucos para ter um hermano entre os grandes regentes da ONU, apóiam o Brasil. Ao contrário, fazem questão de vetar em público a pretensão brasileira, como é o caso, por exemplo, do México e da Argentina. As potências da vida real, por sua vez, nem perdem tempo em discutir o assunto -- da mesma forma como nunca levaram a sério a idéia de criar um "imposto mundial" sobre transações financeiras para combater a fome, uma espécie de globalização da CPMF que Lula acredita ser um dos maiores achados da sua política externa. É óbvio que nunca vai sair um único centavo disso. Mas e daí? O que importa é cuidar da imagem. Na esfera do marketing, o presente governo se acha um grande sucesso internacional. Na vida como ela é, lembra cada vez mais um Luís XV de escola de samba.
