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Onde o PT se perdeu

 | 10.08.2005

Em 1995, o partido abafava seu primeiro caso sério de corrupção. Agora paga pelas conseqüências

 

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Nas últimas semanas, o país tem sido bombardeado por uma seqüência de denúncias de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus principais líderes. Para a maioria da população, a reação foi de espanto e decepção -- afinal, o imbróglio envolvendo as contas milionárias do publicitário Marcos Valério é o oposto do que se esperava do PT. O partido sempre se apresentou diante de seus eleitores como o campeão nacional da ética na política, uma espécie de oásis no deserto da corrupção. Quem acompanha de perto a verdadeira história do PT, no entanto, já enxergava há mais de uma década os vícios hoje evidentes. "Não há por que se surpreender", afirma Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Universidade de Campinas. "Os problemas vêm de longa data."

Para desvendar esse enigma -- a enorme distância entre percepção e realidade --, vale ouvir o que tem a dizer o economista e ex-petista Paulo de Tarso Venceslau. "Há muita roupa suja a ser lavada pelo PT", afirma ele. Sua história no partido é reveladora. Há exatos dez anos, Venceslau denunciou um esquema de arrecadação de dinheiro em diversas prefeituras petistas. Os negócios escusos seriam comandados pelo advogado Roberto Teixeira, que vem a ser amigo pessoal e compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diante de uma acusação de tal gravidade, qualquer partido verdadeiramente comprometido com a ética teria apurado os fatos e punido os responsáveis. Mas o PT fez o oposto. Face às denúncias, decidiu abafar o caso e expulsar seu denunciante. "É a ve lha história do marido traído que prefere queimar o sofá onde o adultério aconteceu", diz Carlos Alberto de Melo, cientista político da escola de negócios Ibmec São Paulo.

Foi ali -- ao expulsar Venceslau e ignorar suas denúncias -- que o PT se perdeu. É verdade que histórias de corrupção em prefeituras petistas já eram ouvidas antes de 1995. Mas naquela data abriu-se ao partido uma saída aos problemas que começavam a se avolumar -- bastava ouvir com atenção o que o companheiro tinha a dizer e tomar as medidas condizentes. "Ofereci uma oportunidade única ao PT, que deveria ter aproveitado", diz Venceslau. Uma atitude firme das lideranças petistas poderia ter estancado o mal que hoje ameaça a própria sobrevivência da legenda. Ao fechar essa porta, definiu-se um padrão de conduta -- e daí para a frente tudo foi conseqüência. Os vícios do partido cresceram, se espalharam pelo país -- destaque para a prefeitura de Santo André --, até pousarem na Esplanada dos Ministérios.

Seria ingenuidade atribuir a opção feita há dez anos apenas à ganância de líderes do partido. Afora a desonestidade pessoal de alguns -- elemento infelizmente marcante na política brasileira --, há no DNA do PT algo de único. "O partido tem um projeto hegemônico de poder, e para isso precisa de muito dinheiro", diz o cientista político Sérgio Abranches. Esse projeto de poder tem dois potentes sorvedouros de recursos -- as campanhas políticas e a manutenção de um partido pesado, cheio de funcionários remunerados. O modelo de partido inchado remonta aos regimes socialistas e autoritários do século passado -- basta lembrar que a causa verdadeira de muitos militantes do PT, como José Dirceu e José Genoíno, jamais foi a democracia, mas o socialismo. Com a queda do Muro de Berlim, essa palavra saiu de moda, mas o partido não fez uma revisão ideológica de fato. "O stalinismo está no coração do PT", diz Melo. "Vai ser difícil tirá-lo de lá."

Essa visão de mundo explica muitos dos problemas atuais. "Há uma nítida dificuldade em governar dentro das regras democráticas, já que fazer alianças pressupõe dividir o poder", diz Francisco Weffort, ex-ministro da Cultura e ex-ideólogo do PT. Em vez disso, o partido preferiu simplesmente comprar apoios. É uma decisão racional para quem não dá muito valor aos ritos democráticos e coloca a conquista do poder como prioridade máxima. "Trata-se, no fundo, da repetição da velha história dos fins que justificam os meios", diz Weffort. Para a decepção de muitos ex-seguidores que votaram em Lula, o fim mostrou-se bem mais mesquinho do que imaginavam. "O que se buscou foi o poder pelo poder", diz o historiador Boris Fausto. "Por mais duro que seja, quem esperava mudanças precisa entender que a perspectiva básica do PT não é a transformação da sociedade."

 
 

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