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A locomotiva não pára

 | 09.08.2005

Contra todas as previsões, a economia americana continua a crescer e suas empresas estão mais sólidas do que nunca

 

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Por Denise Dweck

EXAME 

Estouro da bolha da internet, atentados terroristas às torres do World Trade Center e ao Pentágono, duas guerras no Oriente Médio, uma incrível sucessão de escândalos corporativos e a maior alta em décadas no preço do petróleo -- tudo isso em menos de cinco anos. Não foram poucos os analistas que previram, a cada um desses eventos, sinais de nuvens negras no horizonte dos Estados Unidos. O mínimo que se dizia é que sua economia poderia entrar em rota de desaquecimento, com perigosos reflexos para o restante do mundo. Ao longo desse período, entretanto, a locomotiva americana não parou de andar, dando mostras sucessivas de poder, solidez e incrível capacidade de superar adversidades. Entre 2001 e 2004, o PIB dos Estados Unidos cresceu quase 16%, uma enormidade para uma economia do tamanho da americana. Nas últimas semanas, nova série de dados mostrou que o país segue em frente. No trimestre passado, os Estados Unidos cresceram 3,6% em relação ao mesmo período de 2004. A população aumentou seus gastos com mercadorias e serviços em 3,3% e as empresas ampliaram seus investimentos em 9%. "O país está evoluindo como um trem de carga", diz Ken Mayland, presidente da ClearView Economics, consultoria americana especializada em pesquisas e projeções econômicas.

O grande motor que vem impulsionando a locomotiva dos Estados Unidos nos últimos anos é o seu enorme mercado interno. Devido a uma quase inabalável confiança no desempenho da economia do país, os americanos sentem-se garantidos no emprego e não hesitam em gastar e fazer investimentos. Em junho, segundo dados divulgados pelo Departamento do Comércio dos Estados Unidos, a taxa de poupança no país foi de 0%. Repetindo: 0%. Por outro lado, a despesa dos consumidores americanos, que representa 70% do PIB do país (de 11,7 trilhões de dólares), vem crescendo a taxas sólidas. Nos últimos quatro anos, houve aumento de 16%. Um dos investimentos preferidos dos americanos são os imóveis. As vendas de casas novas têm aumentado constantemente nos últimos tempos -- estima-se que, ao longo de 2005, os americanos comprem 1,4 milhão de novas casas. Muitos também realizam melhorias em seus imóveis, pensando em revendê-los depois por preços maiores. O superaquecimento do mercado imobiliário, em que residências são compradas por um valor e vendidas pouco tempo depois por um preço maior, tem levantado preocupações sobre as possibilidades de haver uma bolha especulativa prestes a estourar. O risco, dizem alguns analistas, é de uma queda repentina nos preços que jogue a economia numa recessão. Só que, cada vez que saem novas estatísticas, o que se vê é o contrário -- boas, e não más, notícias. O mercado imobiliário continua sólido, pelo menos por enquanto, o que gera um ciclo de crescimento generalizado -- do produtor de cimento ao vendedor de eletrodomésticos. Prova disso são os aumentos nas vendas de bens de consumo duráveis, como geladeiras. Os pedidos subiram quase 8%, na soma dos dois últimos meses.

Não apenas o mercado imobiliário vem contribuindo para espantar o fantasma da recessão. De acordo com recente relatório do Federal Reserve (banco central americano), comandado por Alan Greenspan, ganhos na atividade manufatureira, forte venda de carros e a retomada do turismo também ajudaram a impulsionar os negócios. Até as montadoras, que passaram por sérias crises, estão aproveitando o momento atual. Com uma política de preços baixos, a General Motors aumentou suas vendas em 41% no mês de junho. Noutro setor, o de eletroeletrônicos, os pedidos cresceram 8,6% no mesmo mês. A avalanche de encomendas pegou de surpresa muitas empresas, que ficaram sem produtos para fazer frente à demanda. Como resultado, o nível de investimento das companhias em relação ao PIB está de volta a patamares de antes do estouro da bolha da internet. "Nos últimos 50 anos, vários países cresceram e se tornaram ricos, mas os Estados Unidos também avançaram", diz Barry Bosworth, economista da Brookings Institution. "Com isso, o país manteve uma fatia de 25% do PIB mundial durante todo esse período."

Longe da recessão
Veja a variação de alguns dos principais indicadores da economia americana no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano passado
PIB
+3,6%
Consumo
+3,9%
Exportações
+8,1%
Investimento
+9,2%
Fonte: Bureau of Economic Analysis (BEA)

Uma das principais virtudes exibidas pelas empresas americanas é a capacidade de atualização e adaptação. Fortalecidas pela economia em expansão, elas estão sempre redefinindo as formas como desenvolvem seus produtos e serviços, buscando processos melhores e mais baratos. Em certos casos, isso significa eliminar algumas indústrias ou realocá-las para outros países, enquanto novos segmentos surgem.Tome-se como exemplo o de vestuário. Durante os anos 60, era um dos grandes setores do país. Hoje foi praticamente extinto. A maior parte dos produtos vendidos nas lojas da Gap, da Nike e do Wal-Mart é feita no exterior. No país, estão concentrados os serviços mais nobres -- desenvolvimento de produtos ou marketing, por exemplo. O deslocamento da produção acabou compensado pelo florescimento de outros negócios, como o das empresas de tecnologia da informação. Das 32 maiores companhias de software e serviços listadas pela revista Forbes, 21 estão em solo americano. A flexibilidade da economia é um fator importante no enfrentamento das crises. "Os recursos se movem com muita facilidade, tanto capital quanto mão-de-obra, de acordo com as situações a ser enfrentadas", diz Alice Rivlin, ex-diretora do Departamento de Planejamento e Orçamento do governo de Bill Clinton.

Apesar dos números impressionantes recém-divulgados, há problemas importantes a ser enfrentados. Um deles é o déficit público, que tinha sido controlado na gestão Clinton mas recrudesceu nos últimos anos. Com o corte de impostos e os crescentes gastos militares na administração Bush, o déficit nas contas públicas chegou a 4,3% do PIB do país, um percentual alto para os padrões das economias desenvolvidas. Para complicar, as projeções indicam crescimento do déficit a médio prazo, principalmente por causa do envelhecimento da população. Os filhos da geração baby boom estão começando a se aposentar e os custos com planos de saúde vêm aumentando. "Fazer reformas para cortar os gastos com saúde é complicado", diz Rivlin. "O ideal seria frear o crescimento nos custos com planos de saúde e talvez aumentar impostos."

Outra questão séria a ser enfrentada -- conseqüência do desequilíbrio do setor público -- é o déficit nas contas externas, que passa de 600 bilhões de dólares por ano. Somente no comércio com a China, o saldo negativo da balança comercial foi de 162 bilhões de dólares em 2004. Até o momento, esse déficit externo tem sido sustentado por investidores interessados em financiá-lo. Devido ao crescimento da economia americana e à credibilidade do governo, o dinheiro tem fluído em direção aos Estados Unidos -- mas ninguém sabe dizer por quanto tempo esse fluxo vai se manter. A resolução do problema da balança comercial vai demandar mais tempo. Os americanos esperam equilibrar a conta quando algumas economias, sobretudo a da China, ampliarem seu apetite por consumo de produtos de maior valor. "Com o aumento de sua classe média, os chineses vão deixar de lado as bicicletas para comprar motos e, depois, os automóveis Buick", diz Ken Mayland, acreditando ser grande a chance de a locomotiva americana vencer mais esse desafio.

 
 

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