Revista EXAME -
Toda segunda-feira, o paulista Nelson Bastos, presidente do conselho de administração da Parmalat no Brasil, segue a mesma rotina. Fecha-se numa sala com os credores para negociar uma dívida de 788 milhões de reais -- 85% dos quais estão nas mãos de 17 bancos. Trata-se do espólio das operações fraudulentas coordenadas pelo italiano Calisto Tanzi, fundador e principal acionista da Parmalat, que resultaram, em dezembro de 2003, na eclosão de um dos maiores escândalos financeiros dos últimos tempos. As reuniões freqüentes marcam uma nova fase das negociações, iniciada no dia 29 de junho, quando a companhia obteve autorização para seguir o processo de recuperação judicial dentro da nova Lei de Falências. Na última semana de julho, Bastos fez uma viagem relâmpago à Itália, onde ficou apenas oito horas, para apresentar os acertos finais aos administradores da Parmalat italiana. "Em linhas gerais, estamos a um passo do acordo", diz Bastos. Se a negociação der mesmo certo, a Parmalat será a primeira história de recuperação judicial bem-sucedida desde que a nova Lei de Falências entrou em vigor, em 9 de junho.
Esse é um cenário provável, pois as negociações da Parmalat são menos turbulentas que o outro único grande processo de recuperação judicial que chegou aos tribunais até agora -- o da Varig. A companhia aérea enfrenta uma longa disputa com os credores, sem perspectiva de solução rápida. No caso da Parmalat, o desfecho parece mais próximo. Bastos prevê que o plano será entregue ao juiz no dia 31 de agosto, dois dias antes do prazo final estabelecido pela Justiça. Depois, os credores terão um mês para questioná-lo e outros quatro para concluir eventuais ajustes. Se ninguém manifestar a intenção de alterar o acordo, a Parmalat terá um destino até o final de setembro -- seja fechar as portas, seja deixar a crise para trás e seguir operando.
O resultado depende da habilidade dos negociadores em deslindar um caso que, embora menos problemático que o da Varig, está longe de ser simples. Uma das peculiaridades é a multidão de credores. Somando todos os bancos e fornecedores, são 10 634 empresas. Nesse aspecto, a nova legislação beneficia a Parmalat ao criar um atalho em direção ao bom senso. Pelas regras da antiga lei, seria preciso conseguir a anuência de todos -- sem exceção -- antes de aprovar o plano de recuperação. Se um dos credores dissesse não, a negociação voltaria à estaca zero. "Um acordo com tanta gente seria praticamente impossível", afirma Tho mas Felsberg, advogado da Parmalat. "Agora, para seguir em frente, basta a concordância da metade."
Os articuladores da negociação também aproveitaram outra vantagem da recuperação judicial. No antigo processo de concordata, a dívida da companhia se misturava à da controladora, a Parmalat Participações. Na recuperação judicial, há um processo distinto para cada uma. Assim, a Parmalat se livrou da dívida da controladora, que é mais alta -- de 1 bilhão de dólares -- e bem mais complexa. De acordo com o advogado Felsberg, o andamento de um processo não interfere no outro. "Se a recuperação judicial da controladora demorar ou não der certo, nada muda para a operação da companhia", diz ele.
O ânimo dos credores também mudou depois que a empresa deu os primeiros sinais de recuperação, frutos da reestruturação operacional realizada em abril de 2004. Para gerenciar a companhia, foi contratada a consultoria Íntegra -- da qual Nelson Bastos é sócio. Das nove diretorias da Parmalat, restaram duas. Dos 38 postos de gerência, sobraram apenas dez. Em setembro, a administração central deixou de funcionar num prédio suntuoso de 16 andares para ocupar apenas dois deles, modestamente decorados, em São Paulo. Em compensação, a previsão de resultado é de um lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) de 8 milhões de reais em 2005. No ano passado, o resultado foi um Ebitda negativo de 45 milhões de reais. "Com geração de caixa, poderemos pagar a dívida sem dilapidar o patrimônio da companhia", diz Othniel Rodrigues Lopes, diretor-superintendente de operações da Parmalat. No ano passado, a Parmalat faturou 753 milhões de reais -- quase metade das vendas registradas no ano anterior. Para este ano, a previsão é de um faturamento de 1 bilhão.
Quando as primeiras conversas em torno da dívida começaram, em junho do ano passado, a companhia ainda vivia o caos. Na época, as vendas de leite caíram dos habituais 40 milhões de litros por mês para apenas 8 milhões de litros. A empresa foi bombardeada com dezenas de ações na Justiça. Numa delas, perdeu a Batávia, que concentrava a fabricação de iogurtes, para a cooperativa paranaense de laticínios com que mantinha sociedade. Ainda hoje, tenta recuperar a sua participação na empresa. "Não está mais em discussão se a Parmalat volta à sociedade, e sim por quanto vai vender a sua parte", diz Marcelo Bertoldi, advogado da Batávia. Aos poucos, a Parmalat também retomou a confiança dos fornecedores e voltou a abastecer as grandes redes do varejo. O Pão de Açúcar foi um dos primeiros a voltar a comprar os produtos da marca no país, em 2004. "Havia demanda e passamos a comprar novamente assim que a empresa voltou a ter condição de fornecer", diz César Suaki, diretor executivo comercial do Pão de Açúcar.
Devido à indefinição sobre o destino da operação brasileira, a subsidiária ainda não integra a reestruturação da Parmalat italiana -- que deve voltar ao azul neste ano. Nada impede que, nos próximos meses, dependendo do resultado da negociação da dívida, ela seja incluída na reestruturação da matriz, liderada pelo executivo Enrico Bondi. Designado pelo governo italiano para recuperar o grupo, Bondi apresentou um plano que prevê a redução da presença da Parmalat de 30 para dez países. Isso, por enquanto, não preocupa Bastos. "Vamos concluir as negociações", diz ele. "O que virá depois ninguém sabe."
| Resultados melhores | |
| As vendas e o Ebitda da Parmalat começam a voltar ao patamar anterior à crise em milhões de reais | |
| Faturamento | |
| 2003 |
1 500
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| 2004 |
700
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| 2005(1) |
1 000
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| Ebitda | |
| 2003 |
1,5
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| 2004 |
-45*
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| 2005(1) |
8
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| (1) Estimativa *O ano da crise Fonte: empresa |
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