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Os negócios do amigo de Lula

 | 09.08.2005

Desde a posse do governo do PT, a empresa de Antoninho Marmo Trevisan cresceu de maneira inédita, atraiu novos clientes e uma porção de inimigos

 

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Por Marcelo Onaga

EXAME 

Em abril deste ano, o Grupo Rede, conglomerado de empresas de energia controlado pelo empresário Jorge Queiroz de Moraes Júnior, passou a discutir com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a negociação de uma dívida de 1,2 bilhão de reais. Um mês depois, trocou a empresa que auditava suas contas -- no lugar da Boucinhas & Campos, entrou a BDO Trevisan, consultoria de Antoninho Marmo Trevisan, tradicional empresário do setor e amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva há 15 anos. A troca, que em outras circunstâncias seria encarada como um movimento absolutamente normal, gerou uma série de especulações. E o motivo não foi outro senão os laços de amizade que unem Trevisan e o principal mandatário da nação. "O Rede buscou a Trevisan sob pressão do BNDES para fazer o processo andar no banco", afirma um executivo próximo à negociação. De acordo com ele, o grupo tentava, desde 2003, ter acesso a recursos do BNDES. Sem sucesso. Entre concorrentes de Trevisan, surgiu então a especulação de que a troca seria uma busca por um atalho para a realização da operação financeira -- que até hoje não foi concretizada. Todos os envolvidos negam qualquer manobra nesse sentido.

Os nomes de Trevisan e de sua empresa foram para a berlinda desde que o presidente Lula chegou ao poder. Nesse período, os serviços de auditoria e de consultoria prestados pelo empresário viveram um crescimento inédito em suas mais de duas décadas de existência. Nos dois primeiros anos do governo Lula, o faturamento da Trevisan dobrou -- de 40 milhões de reais, em 2002, para 80 milhões de reais, no ano passado. No mesmo intervalo de tempo, a empresa ampliou o número de clientes auditados com ações listadas na Bovespa de 28 para 40 -- crescimento de 43%, depois de quedas sucessivas em 2001 e 2002. Foi um desempenho muito superior ao dos principais concorrentes. Nesse período, a multinacional Deloitte, líder de mercado, viu sua clientela crescer apenas 5%. A carteira da PricewaterhouseCoopers caiu quase à metade. Desde o início do atual governo, a Trevisan foi do quinto para o terceiro lugar no ranking das auditorias da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), deixando para trás nomes de peso como KPMG e Ernst & Young.

É preciso dizer que não há absolutamente nada de errado com esse desempenho. Movimentações de mercado -- com crescimento para uns e retração para outros -- fazem parte do jogo dos negócios. Mas é também natural que Trevisan esteja hoje sob o olhar acurado de seus concorrentes. No Brasil e em qualquer outro lugar do mundo, a proximidade com o poder chama a atenção, para o bem e para o mal. Não seria de espantar que alguns empresários vissem em Trevisan uma boa companhia em tempos de governo petista. Não seria um absurdo, também, que Trevisan, como experiente empresário, se aproveitasse licitamente de um bom momento de mercado. Da mesma forma, é até certo ponto normal que a concorrência fique agastada com essa situação. Os holofotes, porém, têm incomodado Trevisan, preocupado com as possíveis reações que a vinculação de seu nome ao governo possam causar a seu negócio. "Nem sou tão amigo do presidente Lula, não freqüento sua casa e não jogo futebol com ele", diz. "Se eu tivesse todos os poderes que me atribuem, seria o auditor da Petrobras e do Banco do Brasil, as melhores contas do país." (Atualmente, na carteira da Trevisan constam 14 estatais -- entre elas Eletrobrás e Itaipu, contas recém-conquistadas.)

Amigo de Lula desde 1990 -- quando foi procurado pelo então candidato derrotado à Presidência da República para discutir questões econômicas --, Trevisan tornou-se uma espécie de conselheiro informal do atual presidente. No fim de 2002, com Lula finalmente eleito, ficou responsável pela formação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, reunindo empresários, sindicalistas, políticos e representantes do Terceiro Setor. Defensor de longa data da moralidade nos negócios e na administração do Estado, assumiu também um posto na Comissão de Ética Pública da Presidência e continuou a participar de diversas ONGs, como o Instituto Ethos, dedicado às questões de responsabilidade social empresarial, e a Associação dos Amigos de Ribeirão Bonito, sua cidade natal, no interior de São Paulo. Após denúncias feitas por Trevisan e por outros cidadãos ilustres, o prefeito de Ribeirão Bonito foi cassado por corrupção. O fato ganhou repercussão nacional e transformou-se num modelo de fiscalização do uso dos recursos públicos.

Balanço da Trevisan
Desde dezembro de 2002, o número de clientes da Trevisan cresceu muito mais que o de seus concorrentes
Auditoria
Variação no número de clientes(1)
BDO Trevisan
43%
Deloitte
5%
KPMG
0%
Ernst & Young
-3%
Pricewaterhousecoopers
-48%
(1) Entre dez/02 e dez/04
Fonte: CVM

Trevisan chegou a ser convidado para ser ministro do Planejamento do governo Lula, mas recusou. "Senti que estávamos diante do início de um período de crescimento da empresa e não achei justo com meus sócios deixar o negócio em segundo plano", afirma. O crescimento realmente ocorreu. Após ampliar a área de consultoria da BDO Trevisan e contratar um time de profissionais que haviam deixado a Booz Allen Hamilton, os negócios deram um impressionante salto. Foi a senha para que os boatos de favorecimento começassem a circular pelo mercado. "Isso é uma maldade", diz Trevisan. "Tudo o que fiz foi conquistado com muito trabalho."

Trevisan atribui o crescimento de sua empresa ao rodízio de auditorias imposto pela CVM. A medida estabelece que, a cada cinco anos, as empresas com ações em bolsa devem trocar de auditor. Segundo Trevisan, essa mudança teria provocado uma esperada movimentação de mercado. Sua empresa só teria, então, aproveitado bem o contexto, ganhando um bom número de clientes. Há lógica em seu argumento. Seus opositores, porém, usam em favor de si mesmos um fato difícil de ser refutado. O crescimento mais forte da Trevisan, com a conquista de dez novos clientes, aconteceu em 2003, antes do início do rodízio -- que só passaria a valer em maio de 2004. Com a norma em vigor, a carteira da Trevisan ganhou apenas dois novos clientes. "Em 2002, fizemos um trabalho forte de prospecção. Visitamos empresas, trouxemos os executivos à nossa sede e isso deu resultado", rebate Trevisan.

Dois novos clientes trouxeram, além de receitas, dores de cabeça à equipe da BDO Trevisan. Em 2004, a empresa passou a au ditar os balanços da cervejaria Schincariol -- cujos donos foram indiciados por sonegação fiscal em junho deste ano. A BDO Trevisan também era auditora do Banco Santos, liquidado há três meses pelo Banco Central. É normal que, em casos como esses, o mercado fique especialmente interessado em saber quem foram os responsáveis pela auditoria do balanço. Foi assim no escândalo que matou os bancos Econômico e Nacional, no início da década de 90, que expôs os nomes de Ernst & Young e KPMG, duas das grandes multinacionais do setor de auditoria. A Andersen, outra gigante, foi engolfada no episódio protagonizado pela Enron, nos Estados Unidos. Tanto no caso do balanço da Schincariol quanto no do Banco Santos, porém, a empresa de Antoninho Trevisan conseguiu escapar de uma forte crise de imagem. O balanço realizado para o Banco Santos levava uma série de ressalvas e foi usado pelo Banco Central para decretar a intervenção na instituição. No caso da Schincariol, os auditores da Trevisan deixaram registrado que não haviam tido acesso a todas as informações necessárias, isentando-se de parte das responsabilidades sobre os números divulgados.

Outras duas operações feitas pela empresa de Trevisan, no entanto, tiveram um poder comprometedor de sua imagem muito maior. A primeira foi a contratação da Globalprev, consultoria de previdência privada que teve como um dos sócios o ex-ministro Luiz Gushiken e foi acusada de ganhar ilicitamente negócios de fundos de pensão de companhias estatais. A Globalprev foi contratada para ajudar a BDO Trevisan num trabalho de consultoria no Petros, fundo de pensão da Petrobras. A segunda foi a intermediação da venda de ações da Gamecorp, empresa que tem como acionista Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, para a Telemar, maior operadora de telefonia do país. O negócio envolveu 5,2 milhões de reais e aparentemente não teve nada de ilegal, mas despertou indignação dos defensores da ética nos negócios -- uma classe à qual Trevisan sempre se orgulhou de pertencer.

A evolução da Trevisan
(em número de clientes)
4º tri 2001
30
4º tri 2002
28
4º tri 2003
38
4º tri 2004
40
Fonte: Comissão de Valores Mobiliários

Para a Schincariol, além da auditoria, a Trevisan fez, no ano passado, um estudo sobre a tributação no setor de cervejas. De acordo com a análise, o sistema atual de impostos beneficia a Ambev. No entanto, ao mesmo tempo que fazia o estudo para a cervejaria de Itu, a Trevisan mantinha contrato de consultoria com a Ambev. "Não há conflito de interesses", diz Trevisan. "Um trabalho não tinha nada a ver com o outro." Procurados, os executivos da Ambev não quiseram se pronunciar. Do ponto de vista técnico, a análise tributária da Trevisan é aprovada por tributaristas ouvidos por EXAME. Mas há um senão. Na época em que contratou a BDO Trevisan para fazer o parecer, a Schincariol já era suspeita de sonegar impostos, acusação feita havia anos pela Ambev. Falando em tese, sem citar nomes de empresas, o sócio da KPMG, Diogo Ruiz, diz que não faz estudos para companhias sob suspeita de irregularidades. "Não aceitamos realizar parecer tributário para empresas com fortes indícios de sonegação", diz. Os sócios da Trevisan afirmam que não estavam no papel de juízes dos atos da Schincariol. "Seus acionistas nos contrataram e queriam iniciar uma reestruturação", diz Eduardo Pocetti, sócio da auditoria. "Não podemos condená-los antes de conhecer os fatos."

A citação do envolvimento com a empresa que pertenceu a Gushiken e com a Gamecorp, do filho de Lula, desperta em Antoninho Trevisan irritação e tristeza. Ele começa a falar com a voz embargada e se diz magoado com a imprensa e com empresários que o acusam. "Ninguém fala que construí uma faculdade que é um modelo de instituição de ensino. Mencionam negócios feitos dentro da lei tentando dar um caráter de coisa ilícita", diz. A Globalprev, segundo Trevisan, é uma das empresas mais conceituadas em consultoria de previdência privada, o que justificaria sua contratação no trabalho para o Petros. Sobre o negócio com a Gamecorp, ele alega não ter participado pessoalmente das transações. "Foi tudo dentro da lei, sem usar o nome do presidente para nada", diz o sócio Pocetti, que acompanhou as negociações. Trevisan busca em sua exposição na mídia e em seu patriotismo uma explicação para o que chama de patrulhamento e de perseguição. "Seria melhor eu não participar de ONGs, não ajudar o país, não fazer projetos voluntários. Sou perseguido por não ficar trancado no escritório esperando que os negócios caiam no meu colo."

 
 

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