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A saga dos empreendedores brasileiros

 | 09.08.2005

Com conselhos que ajudam a tocar uma empresa e depoimentos de 51 realizadores, obra estimula o sonho do negócio próprio

 

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Por Rafael Marko

EXAME 

Como determinados empresários conseguem ter sucesso num país de cenários tão mutantes como o brasileiro? É para responder a essa pergunta -- e principalmente para estimular aqueles que acalentam o sonho de abrir um negócio próprio -- que o Instituto Empreender Endeavor, uma organização voltada para o estímulo do empreendedorismo, lançará em 1o de setembro o livro Como Fazer uma Empresa Dar Certo em um País Incerto (Elsevier Editora, 411 págs.). A obra traz depoimentos de 51 empresários brasileiros -- gente de peso, como Jorge Gerdau, Marcel Telles e Abilio Diniz --, acompanhados de conselhos sobre as diversas fases da evolução de um empreendimento. O livro do Endeavor é uma contribuição valiosa para o registro da história empresarial brasileira. Lá estão, por exemplo, os depoimentos de Luiz Seabra, Pedro Passos e Guilherme Leal, que narram a trajetória dos 35 anos da Natura. Juntos, eles construíram uma companhia baseada em valores arraigados -- a cosmética como veículo de elevação da auto-estima e a venda direta como um meio de fazer negócios e, ao mesmo tempo, estreitar as relações pessoais -- e fizeram da Natura um exemplo de empresa que aposta na gestão com transparência e no aprimoramento da governança corporativa.

A ousadia característica dos empreendedores brota dos relatos. Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcelo Telles, sócios no passado do Banco Garantia, rememoram suas aquisições lendárias, como Lojas Americanas e Brahma. Sicupira, que também preside o Endeavor no Brasil, detalha um episódio de 1980, ano em que o Garantia assumiu a Lojas Americanas. Em busca de inspiração para tocar uma empresa de varejo, ele escreveu uma carta para cada um dos presidentes das dez melhores companhias varejistas do mundo. Recebeu um telefonema de Sam Walton, fundador do Wal-Mart, que o convidou para conversar em sua casa no Arkansas. Acabaram ficando amigos. Lemann, tido como introdutor no Brasil do sistema de responsabilidades societárias (partnerships, em inglês), recorda dois conselhos inesquecíveis recebidos em suas viagens. Ser bem-sucedido como empresário é ser amado pelos consumidores e pelos funcionários, disse-lhe Konosuke Matsushita, fundador da Panasonic. Ser muito rico é ter a agenda livre para fazer as coisas essenciais de que se gosta com as pessoas de quem se gosta, segredou-lhe o megainvestidor Warren Buffett. Telles, que por meio do partnership hoje tem 250 sócios na Ambev, é categórico sobre as vantagens do sistema: "No lugar de perder essas pessoas, que poderiam abrir um negócio na esquina, você dá participação a elas".

A entrega de ações aos funcionários em troca do alcance de determinadas metas foi implementada com êxito também por Laércio Cosentino, da Microsiga. De 1998 a 2002, a empresa de software cresceu 382% em faturamento e os funcionários ficaram com 4% das ações ordinárias. Entretanto, ao perceber que apenas essa recompensa não elevava o comprometimento do pessoal, a Microsiga passou a investir no desenvolvimento de novos talentos.

A alta taxa de mortalidade de novas empresas no Brasil costuma deixar potenciais empreendedores inseguros na hora de iniciar um negócio. Quando o candidato a empresário é executivo de uma grande companhia e está considerando mudar de vida, a decisão costuma ser ainda mais difícil. O paulistano Alexander Mandic trabalhava na subsidiária brasileira da Siemens quando se interessou pela tecnologia de bulletin board systems (BBS), precursora da internet. Entusiasmado, abriu uma empresa de BBS -- mas continuou como executivo da multinacional alemã por mais três anos. "Quando alguém abre uma empresa, precisa ter em mente que vai ter muita dor de cabeça", diz Mandic. "Quem tem cliente tem saudade de patrão."

Única representante feminina no rol dos entrevistados do Endeavor, o caso de Cristiana Arcangeli, uma dentista que trocou seu consultório para aventurar-se no negócio dos cosméticos, demonstra como a criatividade genuína pode compensar a falta de capital. Sua Phytoervas, uma desconhecida marca na segunda metade dos anos 80, projetou-se logo no início da década seguinte com um evento de moda que marcou época, o Phytoervas Fashion. A exemplo do que sucedera com grifes como Christian Dior, Gaultier e Armani, Cristiana acreditava que a consolidação da moda brasileira era essencial à indústria de cosméticos. Estava certa pela razão errada: o nome de seus cosméticos ficou indelevelmente ligado não propriamente a um estilista, mas ao evento.

O livro não se limita apenas aos aspectos estimulantes de um empreendimento -- como a inovação, o crescimento e o lucro. Trata também da dificílima tarefa de aprender com os erros. Uma das histórias é narrada por outros dois sócios do Garantia, Cláudio Haddad e Paulo Guedes. Depois da venda do banco, em 1998, os dois compraram o Ibmec. Haddad e seus ex-sócios também investiram no Instituto Brasileiro de Tecnologia Avançada. No IBTA, Haddad achou que poderia oferecer cursos a distância voltados para a formação de tecnólogos e para o mercado empresarial. Não deu certo. "Convencido pelo boom da internet, perdi muito dinheiro", diz. O principal erro foi acreditar em algo que não havia sido testado, sem estudar a fundo o mercado e sem levar em conta a resistência do brasileiro a cursos caros e feitos a distância.

A obra traz outros depoimentos, como o de Abilio Diniz, presidente e principal acionista do grupo Pão de Açúcar. Ele rememora uma lição de 1990, quando o grupo registrou um prejuízo de 32 milhões de dólares e foi obrigado a fechar 280 lojas e demitir 24 000 funcionários. "Numa crise, é preciso segurar as despesas. Isso é o principal, senão você morre. Depois disso, você tem de acreditar que é possível recuperar o negócio." Apesar da extensa galeria, chama a atenção a ausência de empreendedores contemporâneos co-nhecidos, como Samuel Klein, o fundador da Casas Bahia, que já escreveu sua autobiografia, e João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, que, depois de construir e vender para uma multinacional uma marca notória de alimentos -- Arisco -- , agora constrói outra no setor de limpeza, a Assolan.

Curiosamente, nenhum dos empresários entrevistados na obra pelo jornalista Rodrigo Vieira da Cunha discorre sobre os problemas do "país incerto" mencionado no título. A publicação aborda de forma tímida alguns dos aspectos mais espinhosos da vida empresarial no Brasil. Por exemplo, há apenas cinco linhas sobre como lidar com propostas de suborno e sobre o que fazer para não errar em planejamentos tributários demasiadamente agressivos. Talvez esse seja um bom tema para uma próxima publicação.

Sam Walton e Carlos Sicupira percorriam cidades brasileiras com potencial para instalar unidades das Lojas Americanas. Olha como estão vendendo caro.Vamos abrir aqui e vender barato. Walton usava a primeira pessoa do plural e dizia vamos, apesar de nem ser sócio
A construção da Natura foi um processo de lapidação de personalidades. Antônio Luiz da Cunha Seabra, 63 anos, Guilherme Peirão Leal, 55, e Pedro Luiz Barreiros Passos, 53, chegaram a um estágio tão equilibrado de convivência a ponto de os três dividirem a presidência da companhia, um fato quase inédito entre as grandes empresas brasileiras
Você não é empreendedor, está empreendedor, diz Cosentino (Microsiga). No dia em que você começa a dizer que é empreendedor, deixa de ter novas idéias e de inovar. É preciso sempre reinventar o negócio


 
 

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