Alguns empreendedores que criam produtos ou serviços revolucionários parecem ter capacidade especial de enxergar oportunidades onde ninguém encontra inspiração. Outros parecem ter talento aguçado para surpreender as pessoas com algo talhado para suas necessidades, embora elas próprias jamais tivessem imaginado que não poderiam viver sem aquilo antes. Outros parecem ter nascido com um dom especial para criar ambientes propícios ao surgimento de novas idéias e fazer os outros pensar por eles. Lançado recentemente nos Estados Unidos, o livro Ten Faces of Innovation ("As dez faces da inovação", ainda sem tradução para o português), do designer americano Tom Kelley, sugere que existem dez tipos de talento, classificados por ele de personas inovadoras, que impulsionam o motor da inovação no mundo dos negócios. Segundo Kelley, fundador da festejada empresa de design americana Ideo, são arquétipos de indivíduos dotados de habilidades específicas que conseguem semear idéias originais e garantir vantagens competitivas para um negócio. Nesse rol de personagens, há, por exemplo, o bolador, que vê oportunidades simples em campos que parecem esgotados, ou o zelador, obcecado por detalhes para surpreender os clientes. Destacam-se também o antropólogo, que escrutina as necessidades do consumidor ao observar o comportamento humano, e o articulador, que serve de ímã para manter unido um grupo eclético. Kelley sustenta que a mesma pessoa pode representar um papel diferente, dependendo da situação, ou vários deles ao mesmo tempo. A seguir, veja uma amostra de dez pequenos e médios empresários que se encaixam nas personas de Kelley e como as inovações deram fôlego a seus negócios.
1 - O Articulador
Junta coisas diferentes num mesmo organismo, obtendo um todo que vai além da soma das partes
O engenheiro paulista Wilson Poit, de 47 anos, enxergou um cenário atraente no qual os concorrentes viam apenas um quebra-cabeça impossível de montar. Dono de uma empresa especializada em projetos de instalações elétricas, ele fechou em 1996 um contrato para fornecer energia a um show de rock. Surpreendeu-se com a complexidade da tarefa. Foi preciso contratar cinco diferentes fornecedores: um de geradores, outro de cabos, outro de painel de controle, outro de transporte dos equipamentos e mais um para reabastecer os geradores. Daí veio a idéia de transformar a dificuldade em oportunidade -- por que não articular todos esses serviços numa única empresa para oferecer um produto novo? "Achei que poderia fazer aquilo de um jeito mais eficiente", diz Poit. "A união dos serviços atende a uma necessidade do cliente, que não quer falar com tanta gente." Poit vendeu um sítio com o qual se arriscara, em vão, no negócio da fruticultura e usou o dinheiro para comprar o primeiro caminhão e o primeiro gerador. Assim, começou a articular todos os serviços. Com o sucesso da empreitada, passou a dedicar-se exclusivamente à Poit Energia, que hoje lidera o mercado de geradores de porte médio e tem filiais em sete estados.
2 - O Zelador
É obcecado por detalhes e dedica atenção máxima aos clientes, enxergando antes dos outros quais são seus desejos
Para o empresário Eduardo Casarini, de 29 anos, Deus está nos detalhes quando a tarefa é inventar novos recursos para cultivar clientes. Sócio da floricultura virtual Flores Online, maior site de entrega de flores do país, Casarini montou uma estrutura que garante a distribuição em 900 cidades do Brasil e ainda busca aplacar uma ansiedade peculiar a seu tipo de consumidor -- saber se o presenteado já recebeu a encomenda. O cliente pode monitorar as etapas de entrega pela internet e, assim que os arranjos chegam ao destino, recebe um aviso por celular ou por e-mail. Se ainda restar alguma dúvida, o site da empresa oferece ajuda ao vivo num chat. "Os clientes são extremamente fiéis quando bem atendidos", diz o empresário. Para que a estrutura funcione, Casarini monitora pessoalmente o número de vezes que os clientes acessam seu site para acompanhar a encomenda e quanto tempo depois da entrega eles recebem o aviso de que o arranjo chegou ao presenteado. A atenção aos clientes tem dado resultado. Com sete anos de vida, a Flores Online tem 350 000 usuários cadastrados e trabalha com estimativa de faturamento de 10 milhões de reais para 2006.
3 - O Bolador
Enxerga oportunidades em mercados aparentemente esgotados e cria situações para que os clientes experimentem novas formas de fazer as mesmas coisas
Procurar casa para comprar ou alugar sempre foi aborrecimento certo, com visitas intermináveis a imóveis nem sempre interessantes, acompanhadas por corretores despreparados. Caio Mario Paes de Andrade, de 40 anos, sócio da imobiliária Maber, de São Paulo, inventou um jeito de transformar esse sofrimento num momento agradável. O cliente recebe um representante com notebook, que lhe mostra imagens e um relatório detalhado dos imóveis. Antes de entrar no cadastro da Maber, cada imóvel é fotografado e avaliado por arquitetos da imobiliária. Eles informam desde o estado de conservação até o potencial de valorização. Dessa forma, faz-se uma primeira triagem e o cliente restringe as visitas apenas a imóveis que realmente interessam. "Você prefere passar um mês vendo dez apartamentos todos os fins de semana ou passar algumas horas visitando virtualmente imóveis absolutamente dentro do perfil que procura?", diz. Com três anos de vida, a Maber já figura entre as dez maiores da capital paulista.
4 - O Polinizador
Traz descobertas feitas em outros negócios para o seu empreendimento, adaptando-as para as suas necessidades
Quando trabalhava como empregada doméstica, a carioca Heloísa Helena de Assis, a Zica, passou anos misturando cremes até encontrar uma fórmula capaz de domar sua crespa cabeleira. O produto foi a semente para a criação da rede de salões Beleza Natural, que hoje atende 20 000 clientes por mês, na maioria mulheres das classes C e D. O sucesso da empresa, que faturou 13 milhões de reais em 2005, não dependeu apenas de inventar uma fórmula e prestigiar um mercado subestimado. Helena, de 45 anos, também inovou ao adaptar às suas necessidades algumas práticas de sucesso de empresas de outros setores. Da rede de lanchonetes McDonald's vieram três idéias: a linha de montagem (cada atendente é responsável por apenas uma etapa do atendimento), a padronização (todos os salões têm layout e música ambiente iguais) e o controle (fiscais verificam custos e estoques e conferem a obediência à padronização visual). Do programa de TV Show do Milhão saiu a inspiração para o Show Mais, jogo de perguntas e respostas para os funcionários sobre regras e padrões da Beleza Natural. Os vencedores ganham almoços com a diretoria. Com quatro lojas no Rio e uma no Espírito Santo, a Beleza Natural prepara-se para abrir um salão na zona oeste carioca. Na nova unidade haverá entretenimento nas áreas de espera e a saída leva necessariamente a uma loja de produtos. A idéia veio dos parques da Disney.
5 - O Corredor de obstáculos
Sabe que o caminho para as inovações é cheio de barreiras e não desiste facilmente. É otimista e incansável
A adversidade não detém o empresário Thai Quang Nghia, de 48 anos. Ele chegou ao Brasil em 1978, fugindo de seu país natal, o Vietnã. Vítima de um naufrágio, penou três dias à deriva até ser resgatado. Virou empreendedor contra a vontade dos pais comunistas. Para pagar uma dívida, um amigo deu-lhe um monte de bolsas e máquinas de costura. Em vez de um mico, Nghia viu ali a chance de iniciar um negócio que hoje é a Domini. Nos anos 90 criou uma sandália inovadora. Feita de pneus velhos de jipe, ela se tornou o carro-chefe da empresa e originou a marca Yepp, analogia a um termo que significa "chinelo prático" em sua língua natal. Depois de conseguir chegar a grandes lojas com seu produto, em 2005 uma outra empresa com nome parecido reivindicou exclusividade e ganhou a causa na Justiça. Nghia mudou o nome da marca, o que lhe deu prejuízo. Ele não desanimou. No primeiro trimestre, a demanda cresceu 300% em relação ao mesmo período de 2005. "A vida é feita de perdas e ganhos", diz Nghia.
6 - O Cenógrafo
Transforma ambientes de trabalho em palcos para que as idéias inovadoras possam fluir livremente
André Araújo, de 33 anos, é um dos cinco fundadores de uma empresa de games de Recife na qual a criatividade dos funcionários não tem limitação de horário. O ambiente de trabalho da Jynx, fabricante de jogos para celular, computador e internet, parece uma combinação de lan house com quarto de adolescente. Na hora de almoço, ouvem-se acordes de guitarra ecoando da sala de reunião. Depois das 7 da noite, rapazes de bermuda e chinelos não desgrudam do computador, concentrados em seus jogos preferidos. "O game que nos fascina no momento é sempre a primeira inspiração para nossos produtos", afirma Araújo. O livre trânsito de idéias é fundamental num negócio que depende de inspiração. Uma das apostas da Jynx é o mercado do advergaming, um híbrido entre propaganda e jogo. São games oferecidos por empresas para aumentar a audiência de seus sites e reforçar sua marca. Fundada em 2000, a Jynx tem uma carteira de clientes que reúne nomes como LG e Samsung. Seu faturamento dobrou no ano passado, alcançando 600 000 reais.
7 - O Empirico
Chega à inovação por tentativa e erro. Não tem medo de testar diversos caminhos para chegar à melhor solução
Primeiro, o criador de trutas Afonso Celso Vívolo, de 49 anos, enxergou a necessidade -- o consumidor compraria mais se os peixes viessem sem espinhas e cortados em filés. Visitou várias feiras de máquinas até encontrar uma que poderia receber a truta inteira e a devolver limpa e pronta para o consumo. Mas teve de usar as próprias mãos para fazer a idéia funcionar. "Não existiam técnicos para mexer com a máquina no Brasil", diz Vívolo. "Eu tive de me virar e me tornar o próprio técnico." Ele criou sua empresa, a Trutas NR, no início dos anos 90, num acampamento que pertencia a seus pais, no sul de Minas Gerais. Conforme a produção aumentava, Vívolo lançava mão de suas invenções. Criou os metrôs de trutas -- canos que ligam os tanques permitindo a passagem dos peixes com redução dos custos de transporte. Com esse modelo de negócio, ele conseguiu que seu produto entrasse em grandes redes de supermercados, como o Pão de Açúcar, restaurantes, como America e Galeto's, e fosse exportado para os Estados Unidos. Seu próximo experimento é a produção de grandes quantidades de gelo potável, para o qual vai utilizar um sistema de dínamos inspirado em experiências de infância com um tio metido a Professor Pardal.
8 - O Narrador
Conta experiências -- próprias e de outros -- para inspirar os funcionários e construir um clima propício ao surgimento de soluções
O paulistano Lito Rodriguez, de 38 anos, fundador da empresa de lavagem a seco de automóveis Dry Wash, é conhecido por amigos e funcionários como um contador de casos. Em sua história predileta, usada para motivar os empregados, conta que se trancou em casa com a batedeira e o liquidificador da sogra e fez experiências com diversos produtos de limpeza até alcançar a alquimia ideal na limpeza dos carros. "Uso esses exemplos para mostrar que há ótimas idéias em qualquer circunstância e, se conseguirmos acreditar nelas e manter a auto-estima elevada, o resultado será satisfatório", diz. Rodriguez está instalando um software de logística para gerenciar a fila de espera de seus 80 lava-rápidos. Isso liberará os gerentes do excesso de tarefas burocráticas para que eles sigam o exemplo do dono e conversem mais com os clientes.
9 - O Diretor
Fica atrás dos holofotes, mas é quem mantém o grupo unido. Dá chances para que as pessoas talentosas e inovadoras apareçam
Em torno do mineiro Guilherme Emrich, de 62 anos, orbitam 16 empresas vinculadas ao FIR Capital, fundo de investimento em companhias de tecnologia da informação e biotecnologia. Sócio do fundo, Emrich tem como desafio diário liderar talentos e reconhecer boas idéias. Um exemplo de sua capacidade de coordenação ocorreu na Biobrás. O engenheiro Humberto Mendéz reclamava que os relatórios de custos demoravam a sair. "Por que não vai ver o que está acontecendo?", disse Emrich a ele. Mendéz resolveu o problema e se tornou administrador de uma das empresas do fundo. Emrich coleciona sucessos -- a Biobrás, empresa de fabricação de insulina, foi vendida à dinamarquesa Novo Nordisk. A Miner, sistema de buscas na internet, hoje pertence ao UOL, e o Akwan, outro sistema de buscas, virou a base do Google no Brasil.
10 - O Antropólogo
Suas idéias vêm da observação do comportamento do cliente. É dali que ele apreende quais são as suas reais necessidades
Eduardo Bretas passava férias em Manaus quando viu um rapaz suarento tirando coco de um isopor. Ele os cortava com golpe de facão, punha um canudinho e os vendia. Bretas parou e fez as contas. O homem conseguia vender dez cocos em 15 minutos. O isopor suportava no máximo 60 cocos. Como engenheiro de formação, Bretas sentiu-se desafiado. Seria possível passar do modelo artesanal para atender à demanda de um dia inteiro e ainda manter tudo gelado? A resposta foi a criação de um sistema baseado nas serpentinas que gelam chope. A água-de-coco sai por uma torneirinha e é vendida em garrafinhas. Assim surgiu a Coco Express. "Dizem que sou inteligente, mas tenho apenas um bom senso de observação", diz Bretas, 57 anos. Com sede em Curitiba, a empresa tem 4 000 pontos-de-venda e já vendeu sua tecnologia para 14 países.