Os inovadores da cana

Conheça as pequenas e médias empresas que enxergaram oportunidades na urgência de modernização das usinas de álcool e açúcar. Fornecendo tecnologia e novos serviços a um setor em expansão, elas crescem extraordinariamente
Germano Lüders
Girardi, da Próxima: aumento de 30% ao ano nas vendas de softwares
 
Por Juliana Borges  | 24.08.2006

Revista EXAME - 

Na pequena cidade de Assis, na região oeste do estado de São Paulo, fica a sede da Próxima, uma empresa de 30 milhões de reais de faturamento especializada em fabricar softwares para gestão da produção de cana-de-açúcar. Desde 2003, a Próxima vem crescendo ao ritmo de 30% ao ano -- desempenho excepcional mesmo no caso de pequenos negócios prósperos. Hoje, um dos maiores problemas de Gilberto Girardi, de 42 anos, um dos sócios da companhia, é atender a todos os pedidos de clientes. "A procura pelos nossos produtos está aumentando muito", afirma. "Cerca de 40% da cana nacional já é processada com nossos softwares e, até o fim do ano, esse número deve passar para 45%."

Depois de anos estagnado, o setor sucroalcooleiro finalmente renasceu no Brasil, graças ao aumento da procura mundial por etanol como alternativa ao petróleo. As usinas nunca produziram tanto. Para ganhar o mercado global, elas precisam aumentar rapidamente a produtividade -- o que impulsiona a demanda pelos softwares da Próxima, que ajudam a fazer um plano da safra, a detectar a melhor data para a colheita e a identificar gargalos na produção.

Assim como a empresa comandada por Girardi, muitas outras companhias de pequeno e médio porte que fornecem produtos e serviços às usinas de álcool e açúcar também estão passando por um período de euforia. Com a necessidade urgente de modernização do setor, elas têm uma enorme e rara oportunidade de expandir seus negócios muito rapidamente. "Além de atender às 300 usinas que já existem, as pequenas e médias empresas serão beneficiadas com as quase 100 novas unidades que serão construídas no país até 2010", diz Antônio de Pádua Rodrigues, consultor da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica). Além da Próxima, outras empresas paulistas são exemplos de crescimento, inovação e sucesso na cadeia produtiva do açúcar e álcool -- como a Agrop, que terceiriza transporte e mão-de-obra na lavoura; a Purifilt, fabricante de filtros para óleo diesel de motores; a Bortolot, que produz e instala painéis eletrônicos para controle de usinas; e a CanaVialis, que pertence ao grupo Votorantim e faz pesquisa genética de novas espécies de cana.

O maior pólo sucroalcooleiro do país fica no interior de São Paulo, estado que produz 60% da cana nacional. É também nessa região que está concentrada grande parte das empresas de pequeno e médio porte fornecedoras de tecnologia, sobretudo em Sertãozinho. A cidade, que fica no norte do estado, a 25 quilômetros de Ribeirão Preto, é um exemplo do vigor e da modernização do setor sucroalcooleiro na última década. Conforme dizem os empresários locais, lá é possível comprar, em um único dia, componentes para uma usina inteira -- das máquinas aos fertilizantes, das caldeiras aos parafusos. A cidade concentra mais de 200 fabricantes ligados ao setor. Boa parte são pequenas e médias empresas.

Ali, muitos negócios crescem a taxas anuais espantosas. É o caso da Bortolot, fabricante de painéis de controle para usinas. "Em seis anos, nosso faturamento anual passou de 6 milhões para 17 milhões de reais", diz Devanir Bortolot, de 48 anos, um dos sócios da empresa. Os painéis que a companhia produz servem para controlar o funcionamento das caldeiras e de outros equipamentos. Há três anos, a Bortolot colocou no mercado painéis inteligentes que permitem usar o mínimo de energia necessária em cada equipamento. Com isso, consegue-se redução de até 30% na energia elétrica consumida. Essa economia trazida pela inovação tecnológica está tendo o efeito de um fermento nas vendas. "Em um ano e meio, planejamos e executamos o projeto elétrico de duas usinas e de oito fábricas de açúcar", diz Bortolot. "Recebemos cada vez mais pedidos de usinas instaladas em regiões que não plantavam cana até algum tempo atrás."

Durante séculos, a cana, primeira grande lavoura que movimentou a economia brasileira, foi cultivada basicamente da mesma forma: em áreas extensas, com baixa produtividade, sem mecanização e, muitas vezes, com mão-de-obra em condições degradantes. Porém, de uma década para cá, esse panorama vem se transformando radicalmente. As usinas estão deixando de ser fazendas arcaicas para se tornar empresas modernas e lucrativas. Para isso, elas estão investindo em tudo -- tecnologia, pesquisa genética, logística e terceirização de mão-de-obra.

É aí que entra a participação das pequenas e médias empresas. As usinas não podem perder o foco no seu negócio principal -- a produção de açúcar e álcool. "Precisamos de quem nos forneça tecnologia e inovação, tanto na área agrícola como na industrial", diz Rodrigo Sanches, herdeiro da usina São Domingos, em Catanduva, no interior de São Paulo. A São Domingos tem uma lista com 18 pequenas e médias empresas prestadoras de serviços. Entre esses pequenos empreendimentos há até uma consultoria na área das ciências exatas, contratada para otimizar o gerenciamento das centenas de variáveis envolvidas nas tecnologias de produção e na sua logística. "É preciso saber aplicar a melhor combinação possível para ter o lucro máximo ", diz o físico Aguinaldo Ricieri, responsável pelo projeto de modernização.

Um dos campos que mais oferecem oportunidades às pequenas e médias empresas é a pesquisa de ponta. Companhias que desenvolvem novas espécies de cana com manipulação genética, estudam alternativas de aproveitamento do bagaço e aprimoram técnicas ligadas à agricultura de precisão, entre outras atividades, estão levando inovação ao campo e encontrando terreno para crescer. É o caso da CanaVialis e da Alellyx, empresas que nos últimos três anos receberam 40 milhões de dólares da Votorantim Novos Negócios (VNN), área do grupo Votorantim que faz investimentos em empresas emergentes. "O potencial de crescimento dos pequenos negócios em áreas ligadas ao desenvolvimento tecnológico é grande", diz Fernando Reinach, diretor da VNN. "Nos setores em que o Brasil é líder, como é o caso do etanol, esse potencial é ainda maior." Com sede em Campinas, a CanaVialis faz pesquisas para melhorar geneticamente espécies de cana e também dá consultoria em plantio e manejo da produção. Esse tipo de conhecimento é importantíssimo para o planejamento estratégico das grandes usinas. O valor de uma plantação de cana é determinado pelo seu teor de sacarose -- quanto mais açúcar por tonelada, mais valiosa é a cana, porque maior é também seu teor energético. A manipulação genética em laboratório possibilita a criação de novas espécies que contenham mais sacarose e, portanto, sejam capazes de produzir mais etanol ou açúcar.

As novas fronteiras
A necessidade de atualização do setor sucroalcooleiro criou uma porção de boas oportunidades para pequenas e médias empresas. Veja algumas
Preservação dos recursos naturais
Há usinas e fazendas que ainda não possuem boas práticas de preservação do meio ambiente. Mas isso está mudando. Empresas que trabalham com certificação ambiental, controle de emissão de poluentes e manejo de florestas estão em alta
Tecnologia da informação
Softwares para controle e gerenciamento de plantio e colheita ou que oferecem soluções de logística e ajudam a identificar gargalos na produção são cada vez mais procurados. Também estão na lista sistemas de comércio eletrônico para compra de insumos
Pesquisa e tecnologia
Avanços científicos oferecem oportunidades das mais promissoras. São muitas as áreas que podem ser exploradas, como pesquisa genética de novas espécies, estudos dos componentes do solo e
desenvolvimento de novos materiais
Gestão de pessoas
Muitas usinas e fazendas que precisam melhorar suas condições de trabalho procuram empresas especializadas para gerenciar equipamentos de segurança, planejar a dieta dos trabalhadores e implantar
programas preventivos de saúde

Mesmo as companhias que não lidam diretamente com tecnologia e que atuam em outros campos estão tendo sua chance de aproveitar o bom momento do setor sucroalcooleiro. É o caso da Purifilt, empresa recém-saída de uma incubadora de tecnologia de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A Purifilt fabrica filtros purificadores de óleo diesel que, instalados em veículos, prolongam a vida útil dos motores. Inicialmente, a idéia de Alexandre Takayama, de 29 anos, dono da Purifilt, era concentrar seu esforço de vendas em empresas de ônibus da Grande São Paulo. Mas as taxas de crescimento do setor sucroalcooleiro o fizeram mudar de idéia. "Percebi que uma usina de grande porte consome em seus veículos a mesma quantidade de diesel que uma empresa de transportes públicos de São Paulo", diz Takayama. "E, como a cana está em alta, achei mais lucrativo mudar de mercado." Recentemente, ele fechou um contrato de 200 000 reais por ano com uma usina de Recife. "É um bom início para uma empresa que tem menos de um ano de vida e que começou com praticamente nenhum recurso", diz Takayama.

Para as pequenas empresas que foram fundadas há mais de dez anos, o renascimento do setor sucroalcooleiro no Brasil está oferecendo a possibilidade de voltar a crescer depois de um longo período de hibernação. É o caso da Tecnal, que fabrica e comercializa equipamentos para os laboratórios das grandes usinas. Com sede em Piracicaba, ela foi criada em 1976 para aproveitar as oportunidades geradas pelo Proálcool. Naquela época, equipou mais de 80 laboratórios de usinas com seus medidores do teor de sacarose e de PH, destiladores e fermentadores. Com o colapso do programa do governo e a conseqüente crise em que o setor mergulhou na década de 90, a demanda minguou.

Para não quebrar, a Tecnal deixou de atender às usinas e passou a vender equipamentos de laboratório a indústrias do setor de alimentos, como Sadia e Cargill. Há cerca de quatro anos, Fernando de Carvalho, de 56 anos, um de seus fundadores, viu que o momento era propício para retornar à cana. "Reinvesti em tecnologias específicas para o setor, modernizei os equipamentos e voltei às origens", afirma Carvalho. Hoje, cerca de 15% do faturamento de 20 milhões de reais que a Tecnal colhe por ano é proveniente das usinas de ál cool e açúcar. "A expectativa é que, daqui a três anos, 40% das nossas vendas venham do setor sucroalcooleiro", diz Carvalho.

Um dos aspectos que ainda precisam evoluir nas usinas e fazendas de cana é a condição dos trabalhadores da lavoura. A situação dos cortadores de cana já é melhor do que antigamente, mas eles estão longe de trabalhar nas condições ideais. A Agrop, empresa pertencente à família Junqueira, tradicional no ramo canavieiro, percebeu a carência de mão-de-obra de boa qualidade e apostou no fornecimento de trabalhadores terceirizados a fazendas e usinas. Seus 550 funcionários são submetidos a exames de saúde, aprendem a usar equipamentos de segurança e a manusear corretamente as ferramentas de trabalho. A empresa também presta assessoria jurídica, tributária e de engenharia de segurança do trabalho. Fundada em 1995, a Agrop passou alguns anos crescendo em ritmo modesto. Nos últimos três anos, deslanchou. "Faturamos 4 milhões de reais em 2004, 11 milhões no ano passado e, neste ano, a expectativa é chegar a 12 milhões", afirma Roberto Junqueira, de 29 anos, diretor agrícola da Agrop.

Previsões de especialistas apontam que a expansão do setor está apenas começando. Esse mercado movimentou 6 bilhões de dólares no Brasil e a expectativa é que, em 2010, chegue a 15 bilhões de dólares. De acordo com a Unica, até lá serão investidos 13 bilhões de dólares no setor, dos quais cerca de 5 bilhões já estão sendo efetivamente desembolsados. "É uma excelente oportunidade para as pequenas e médias empresas ligadas ao setor crescerem com velocidade", afirma Cláudio Manesco, diretor da Unica. "O setor sucroalcooleiro deverá continuar numa fase de expansão vigorosa pelo menos durante os próximos dez anos."

 
 
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