Revista EXAME -
No exuberante mercado imobiliário americano, que há anos movimenta bilhões de dólares, um novo tipo de imóvel começa a atrair construtoras, incorporadoras e clientes. Trata-se dos green buildings, os chamados prédios verdes, cujas características ecologicamente corretas chamam cada vez mais a atenção de gente preocupada com o aquecimento global -- não de ativistas, mas de empresários e executivos alarmados com a necessidade premente de ter de adaptar suas empresas a um futuro preocupante. O maior ícone dessa nova geração de edifícios de escritórios é a futura sede do Bank of America, atualmente o maior arranha-céu em obras de Nova York. A construção, com 366 metros de altura, deverá ficar pronta em 2008 e será a segunda maior de Manhattan, depois do Empire State Building. O edifício apresenta características que até pouco tempo atrás poderiam soar como devaneio de ambientalistas lunáticos ou de arquitetos exibicionistas. A mais extravagante delas é um enorme gerador movido pelo vento e instalado no topo da torre, que abastecerá 70% de suas necessidades de energia. A nova sede do banco também será capaz de armazenar e reaproveitar água da chuva para irrigar jardins e abastecer os banheiros. O ar que entrará no prédio será purificado e devolvido à rua, tornando-o uma espécie de grande filtro num dos maiores centros financeiros do mundo.
Hoje existem cerca de 700 prédios verdes em países como Estados Unidos, Inglaterra e Índia, reconhecidos pela única certificação aceita internacionalmente, a Leed, sigla em inglês para Liderança em Energia e Design Ambiental. Mais 2 000 deles estão sendo erguidos atualmente apenas em território americano. Até agora, no Brasil, há apenas um prédio concluído que segue as recomendações Leed -- o de uma agência do banco ABN Amro Real, inaugurada em janeiro deste ano e localizada em Cotia, na Grande São Paulo. Entre outras características sustentáveis, a agência armazena energia solar durante o dia e a transforma em iluminação elétrica das áreas de auto-atendimento à noite. A idéia é criar um campo de testes para as agências do banco que serão abertas a partir de agora no país. Outros três prédios verdes devem ficar prontos no Brasil ainda neste ano. Dois desses projetos são da incorporadora americana Tishman Speyer: o Ventura Corporate Towers, no Rio de Janeiro, e o Rochaverá Corporate Towers, em São Paulo, conjunto de quatro prédios que devem compor o maior empreedimento sustentável do país (veja quadro ao lado). O terceiro é o Eldorado Business Tower, da Gafisa, situado próximo à marginal do Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
| O maior prédio sustentável do Brasil |
| As características do Rochaverá, conjunto de quatro torres que está sendo erguido em São Paulo pela Tishman Speyer e deverá compor o maior complexo empresarial a seguir padrões internacionais de construção verde no país. Com entrega prevista para este ano, o empreendimento custará 600 milhões de reais |
| 1 - As características do Rochaverá, conjunto de quatro torres que está sendo erguido em São Paulo pela Tishman Speyer e deverá compor o maior complexo empresarial a seguir padrões internacionais de construção verde no país. Com entrega prevista para este ano, o empreendimento custará 600 milhões de reais |
| 2 - 80% dos usuários terão vista para o exterior devido a características como fachada envidraçada |
| 3 - Uso de material reciclado na obra, como madeira certificada e aço |
| 4 - Previsão de sensores de presença para acionar luzes em áreas comuns |
| 5 - Previsão de espaço para a logística da coleta seletiva de lixo |
| 6 - Uso de água da chuva para irrigação de jardins e para o sistema de ar condicionado |
| Fonte: Tishman Speyer |
O conceito de construção sustentável surgiu pela primeira vez com a crise do petróleo nos anos 70, quando os altos preços da energia levaram à busca por sistemas alternativos e mais baratos, como a geração própria. Os primeiros prédios verdes foram construídos na Holanda, na Alemanha e nos países nórdicos. (A sede do Parlamento alemão, por exemplo, tem um gerador que não só produz a própria energia com base em combustíveis renováveis como envia o excedente para construções vizinhas.) Só mais tarde essas construções ambientalmente corretas apareceram nos Estados Unidos e na Ásia. Nos últimos anos, as discussões em torno do aquecimento global elevaram o tema da sustentabilidade ao topo da prioridade das maiores empresas do mundo e ajudaram a despertar o interesse por métodos construtivos sustentáveis. Recentemente, diversas corporações, como a editora Hearst, a montadora General Motors e a fabricante de softwares Adobe, incorporaram princípios verdes em suas instalações. O impacto ambiental de um edifício pode ser surpreendente. Nos Estados Unidos, os prédios comerciais consomem 65% da energia elétrica distribuída no país -- o principal vilão é o ar-condicionado, que gasta mais da metade da energia de um edifício. No Brasil, esse índice é de cerca de 50%.
| Hearst Tower – Nova York, EUA Ano de fundação: 2006 |
| A sede da editora Hearst foi o primeiro prédio de Nova York a obter certificação ambiental. O formato da construção, em padrões triangulares, poupou 20% do aço utilizado numa construção comum. Um sistema de coleta de água da chuva supre metade da demanda de água do edifício. |
A adoção de tecnologias como a geração própria de energia também pode representar uma enorme economia. Tome o caso do Wal-Mart, dono da maior conta de energia elétrica nos Estados Unidos. A rede vai incorporar providências ambientais que evitarão o gasto de 300 milhões de dólares todos os anos. O gigante varejista tem planos de adaptar suas 2 074 lojas no país -- que consomem energia suficiente para abastecer um país como o Chile -- para utilizar 30% menos energia até 2010. Para isso, reservou investimento de 500 milhões de dólares, cujo retorno virá antes do segundo ano depois de implantado o projeto.
| Genzyme Center – Cambridge, EUA Ano de fundação: 2004 |
| Um conjunto de espelhos pendurados reflete a luz solar e diminui o uso de luz artificial. Os 18 jardins dentro do edifício ajudam a controlar a temperatura interna. O prédio, que abriga 900 funcionários, consome 42% menos energia e 34% menos água que uma edificação de mesmo porte. |
"O custo de construção do prédio verde é maior do que o de projetos convencionais", diz Roberto de Souza, diretor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), empresa que presta consultoria aos interessados em construção sustentável. "Mas esse valor extra acaba se pagando pela economia gerada depois que o edifício entra em operação." Segundo o consultor, graças ao aumento de escala e à adoção de novas tecnologias, o custo de produção de um imóvel verde vem caindo rapidamente. Há alguns anos, a obra de um prédio verde custava até 8% mais que a de um prédio comum. Hoje, o valor não ultrapassa os 2%. "O tempo médio que um projeto sustentável demora para se pagar é de apenas dois anos", diz Nelson Faversani, gerente de obras da Tishman Speyer, que supervisiona as obras dos edifícios Ventura e Rochaverá, no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente. "A partir daí, ele começa a gerar lucro."
| 30 ST. Mary Axe – Londres, Inglaterra Ano de fundação: 2004 |
| O formato rendeu ao prédio o apelido de Gherkin (em português, pepino). Seis tubos percorrem a estrutura como uma chaminé e permitem ventilação natural em todos os cantos. Um computador checa a temperatura externa antes de abrir ou fechar as janelas, o que reduz à metade o consumo de energia. |
Além da redução nas contas de luz e água, a certificação de prédios verdes também considera características que melhorem o bem-estar de quem trabalha neles. Um desses aspectos é permitir a visão externa para o maior número possível de usuários. Para isso, vale caprichar em extensas fachadas envidraçadas e até mesmo em tetos de vidro, como no caso da sede da empresa americana de biotecnologia Genzyme, localizada em Cambridge, nos Estados Unidos. A vista privilegiada parece ter feito muito bem aos funcionários. A produtividade do pessoal que dá expediente na nova sede, inaugurada em 2004, aumentou 15%. Além disso, o índice de ausências devido a doenças tornou-se 5% menor que o registrado nos demais edifícios da companhia.
"O setor de construção está para sofrer um processo de obsolescência maciça", diz Thassanee Wanick, presidente do Green Building Council Brasil, instituição criada neste ano para certificar edifícios brasileiros com o selo Leed. "Os prédios com sistemas ambientalmente corretos vão ampliar seu valor, enquanto os edifícios convencionais vão se desvalorizar." Essa obsolescência pode ser ainda mais acelerada caso as legislações ambientais continuem a se tornar mais rigorosas, como tem sido a tendência nos últimos anos. Há dois anos, o estado de Washington tornou-se o primeiro nos Estados Unidos a impor padrões ambientais mínimos -- similares ao Leed -- em novas construções. A cidade de São Francisco, na Califórnia, está em fase final de regulamentação para seguir o mesmo caminho. Em São Paulo, entrou em vigor em janeiro uma lei estadual que obriga a instalação de sistemas para retenção da água da chuva em construções com grandes áreas impermeabilizadas -- uma das características clássicas dos prédios verdes.