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Ações para a aposentadoria

EXAME ouviu 15 especialistas sobre os melhores papéis e estratégias para quem pretende fazer da bolsa a sua previdência
Germano Lüders
Rossi: o plano é ter uma renda de 12 000 reais por mês
 
Por Giuliana Napolitano e Juliana Garçon  | 06.09.2007

Revista EXAME - 

Há três anos, o administrador de empresas Marco Aurélio Rossi traçou uma meta ambiciosa: aposentar-se em 2024, aos 60 anos, com uma renda mensal de 12 000 reais. Para isso, tomou duas medidas. Primeiro, discutiu o plano com a esposa e as duas filhas para combinar quanto a família teria de poupar todos os meses. Depois, começou a comprar ações. Hoje, 85% da reserva destinada à previdência está na bolsa e apenas 15% em aplicações conservadoras. Rossi investe em apenas cinco papéis -- Gerdau, Petrobras, Usiminas, Vale do Rio Doce e Weg. "É isso que vai garantir minha aposentadoria", diz ele. Ninguém se arrisca a fazer uma estimativa de quantos investidores como Rossi existem no país. Quem trabalha nas corretoras em contato direto com os clientes, no entanto, tem certeza de que o número está aumentando. A parte do mercado mais mensurável, a dos planos privados de previdência que aplicam em ações, não deixa dúvidas: produtos incipientes até dois anos atrás, agora já representam 15% do mercado.

O motor dessa mudança é um só: a busca dos investidores por retornos superiores ao da renda fixa. Trata-se de uma estratégia que faz todo sentido. "Bolsa combina perfeitamente com aposentadoria, porque ambas olham para o longo prazo", diz Aristides Jannini, diretor executivo de gestão de recursos do banco WestLB. Nem todas as ações do mercado, porém, são recomendadas para quem pretende ligar seu futuro financeiro ao desempenho dos pregões. "Para ter sucesso, o poupador precisa selecionar os papéis mais adequados a seu objetivo", diz André Lago Jakurski, gestor de renda variável da Mellon Global Investments. Foi essa seleção que EXAME fez nas últimas duas semanas. Foram consultados 15 especialistas de bancos, corretoras e gestoras de recursos, que indicaram as dez melhores ações para quem vai usar os recursos aplicados na bolsa em até 20 anos como renda na aposentadoria.

As ações do futuro
Acarteira abaixo, composta de empresas de setores promissores, foi indicada por 15 especialistas para quem pretende aplicar na bolsa para se aposentar em até 20 anos(1)
menos risco
Vale do Rio Doce (VALE5)
Mineração
Por que é uma boa opção
Após a compra da Inco, entrou para o grupo das mineradoras globais, com oferta diversificada de produtos. Ganha com a crescente demanda de China e Índia
  Gerdau (GGBR4)
Siderurgia
Por que é uma boa opção
Fornecedora de aço para construtoras e montadoras, deve aumentar suas vendas com o esperado crescimento da economia brasileira
Bradesco (BBDC4)
Banco
Por que é uma boa opção
Com uma sólida carteira de crédito, o Bradesco é um dos bancos que mais se beneficiam do esperado aumento da renda e do volume de empréstimos
Cemig (CMIG4)
Energia elétrica
Por que é uma boa opção
As tarifas de energia devem subir nos próximos anos, puxadas pela alta da demanda. A Cemig também é atrativa por pagar dividendos elevados
Petrobras (PETR4)
Petróleo
Por que é uma boa opção
A estatal está se consolidando como uma empresa de combustíveis, com investimentos em gás e biodiesel, além do setor de petróleo
Weg (WEGE3)
Máquinas
Por que é uma boa opção
Uma das maiores fabricantes de motores e equipamentos elétricos do mundo, é bem administrada e tem custos de produção baixos
CCR Rodovias (CCRO3)
Transportes
Por que é uma boa opção
É vista como uma candidata forte para vencer as licitações de rodovias que a União e os governos estaduais devem promover nos próximos anos
Perdigão (PRGA3)
Alimentos
Por que é uma boa opção
A demanda por alimentos de proteína animal está em alta, especialmente na Ásia, e espera-se que os custos de produção diminuam
Duratex (DURA4)
Material de construção
Por que é uma boa opção
O boom da construção favorece a companhia, uma das poucas empresas da bolsa que produzem materiais para acabamentos
mais risco
Eletrobrás (ELET3)
Energia elétrica
Por que é uma boa opção
Deve passar por melhorias de gestão, que tendem a reduzir o desconto que a ação tem em relação a outras empresas do setor
(1) Os especialistas recomendam que a carteira seja reavaliada ao menos uma vez por ano

O primeiro conselho dos especialistas é investir em empresas de setores reconhecidamente promissores, que tendem a apresentar resultados acima da média do mercado nos próximos anos. "Não vale a pena apostar em ações mais especulativas, que só têm fôlego de curto prazo, porque os riscos são altos e os ganhos fazem pouca diferença quando se olha para mais de uma década", diz Kelly Trentin, analista-chefe da corretora SLW, de São Paulo. Como o cenário mais provável é de continuidade da queda da taxa básica de juro e crescimento da economia brasileira, são vistas com bons olhos as companhias que abastecem o mercado doméstico e lucram com o aumento da renda da população. Os destaques são bancos, siderúrgicas e empresas de infra-estrutura.

UMA TENTAÇÃO QUE o investidor deve evitar ao olhar para o futuro é apostar em empresas que só devem começar a entregar bons resultados daqui a alguns anos. "Perde-se a chance de aplicar em papéis que são prósperos desde já", diz Jakurski, da Mellon. É o caso, segundo ele, da maioria das construtoras que abriram capital recentemente. "O preço dessas ações já leva em conta a estimativa de que as companhias vão dobrar ou triplicar suas vendas no futuro, o que pode demorar ou simplesmente não acontecer." Alguns riscos, entretanto, o investidor de longo prazo pode correr. Como vai deixar seu dinheiro aplicado na bolsa por vários anos, ele pode procurar empresas que estejam passando por longos processos de reestruturação. É o caso da estatal de energia elétrica Eletrobrás. "Estão sendo implementadas melhorias de gestão que devem diminuir o grande desconto que o preço da ação tem frente a outras companhias do setor", diz Daniel Gorayeb, analista da corretora Spinelli.

Outro conselho dos especialistas é garimpar boas pagadoras de dividendos. Algumas empresas de capital aberto chegam a entregar aos acionistas o equivalente a 10% do valor de suas ações na forma de dividendos. Mesmo que o papel ande de lado durante um ano, o acionista consegue ao menos embolsar os dividendos. "Para maximizar os ganhos, é preciso buscar empresas que tenham negócios sólidos e chance de prosperar nas próximas décadas, senão vira vôo de galinha", diz George Sanders, estrategista-chefe da gestora de recursos Infinity. Por isso, Cemig e Weg estão entre as indicadas pelos especialistas. Está fora da lista, porém, uma das maiores pagadoras de dividendos da bolsa, a Souza Cruz. "O setor de fumo é arriscado e pouco promissor, porque está sujeito a mudanças de regras", diz Sanders.

Tão importante quanto fazer a seleção de bons papéis é acompanhar o desempenho desses investimentos ao longo dos anos. "Não dá para comprar hoje e só voltar a olhar para as ações daqui a uma década", diz Robert Wieselberg, responsável pelos serviços de alta renda do Real ABN Amro. O ideal, segundo os especialistas, é reavaliar a carteira uma vez por ano para identificar possíveis mudanças de cenários. "Turbulências como a da última semana acontecem e o investidor não pode mudar sua estratégia por causa delas", diz Marcelo Xandó, sócio da gestora Verax Asset Alocation. "Mas se houver uma recessão na economia americana, por exemplo, o Brasil pode crescer menos e, nesse caso, as perspectivas para a bolsa se alteram. Aí, sim, mudanças se justificam." Os especialistas recomendam ainda acompanhar de perto os resultados das empresas, ler relatórios de bancos e corretoras e participar de assembléias de acionistas -- por isso, a carteira deve ter de cinco a dez ações. É o que faz Marco Aurélio Rossi. "Invisto em apenas cinco ações porque preciso de tempo para acompanhá-las", diz ele.

Para os especialistas consultados por EXAME, a recompensa para quem seguir todas essas recomendações pode ser um retorno de 15% ao ano pelas próximas duas décadas. Tendo essa estimativa como base, o investidor pode fazer alguns cálculos e tentar prever seu futuro financeiro. Partindo do zero, quem planeja se aposentar com uma renda vitalícia de 15 000 reais por mês -- um pouco acima da desejada por Marco Aurélio Rossi -- precisa aplicar 3 500 reais por mês pelo prazo de 20 anos. O esforço, de acordo com cálculos da empresa de planejamento financeiro FS-Advisors, deve gerar uma reserva de 4,5 milhões de reais em valores de hoje. Quando decidir de fato se aposentar, o investidor pode seguir por vários caminhos. Uma alternativa é continuar na bolsa, uma opção de risco. Outra é buscar aplicações mais conservadoras, como fundos de renda fixa e caderneta de poupança. Há ainda a chance de contratar um plano de previdência privada. Seja qual for a opção, quem efetivamente conseguir juntar 4,5 milhões passará a ter outro problema, esse bem mais prazeroso: decidir a melhor forma de curtir a aposentadoria e gastar o dinheiro acumulado.

 
 
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