Os carros da montadora sueca Volvo são famosos por manter algumas características ao longo dos anos. A primeira é a ênfase na segurança dos passageiros. A segunda, o conforto de seus carrões. A terceira, o design meio quadrado, que fez da marca a favorita dos consumidores mais velhos. O lado ruim dessa imagem é óbvio: os jovens querem distância de uma montadora conhecida por fazer carros para "tiozão". E a conseqüência da falta de apelo entre os jovens vinha sendo nefasta para a Volvo no Brasil. Desde 2000, suas vendas caíam ano a ano. Foram 847 modelos vendidos há sete anos, e o número caiu para 441 em 2006. Desde então, a Volvo decidiu que era hora de mudar. Os suecos lançaram no Brasil o modelo C30, um compacto esportivo de duas portas -- que nada tem a ver com os classudos modelos tradicionais da Volvo. A montadora reservou 200 carros para o Brasil na primeira encomenda. Mas, diante da alta demanda (a fila de espera era de dois meses após o lançamento), a Volvo despachou 600 veículos para o país ao longo do ano. Assim, conquistou cerca de 25% do segmento esportivo de luxo, tirando espaço de concorrentes como o Audi A3 e o Série 1, da BMW. E, em pouco mais de um ano, as vendas da Volvo no Brasil subiram 127%. "Era a guinada de que precisávamos", diz John Peart, presidente da Volvo na América Latina.
A grande razão para o bom desempenho do C30 é seu preço. Lançado para ser o veículo de entrada da Volvo, a versão mais simples, com motor 2.0, custa 89 900 reais. Seus concorrentes diretos já largam perdendo nesse quesito. O A3 mais básico custa 10% mais. E o Série 1 sai cerca de 30% mais caro. O objetivo da fabricante sueca é adicionar jovialidade à imagem da marca, uma vez que a idade média de seu público é alta, comparada a montadoras concorrentes. Em sua maioria, os consumidores do C30 são jovens empresários ou executivos do mercado financeiro entre 20 e 35 anos. Para conquistá-los, a Volvo transformou o C30 num carro diferente de tudo o que já fabricou. Tem apenas duas portas e quatro bancos -- dois na frente e dois atrás, separados por um descanso de braço. As laterais têm spoilers, que acompanham toda a extensão do carro, inclusive contornando as caixas de roda. Além disso, o automóvel reúne detalhes de segurança incomuns em sua categoria. O modelo mais sofisticado traz um sistema que corrige automaticamente o traçado do carro caso ele ameace derrapar.
A VIDA DA VOLVO FOI IMENSAMENTE facilitada pela interrupção da produção do Audi A3 no Brasil, em 2006. O modelo era líder absoluto de vendas, mas a montadora alemã decidiu que não valia a pena montar a nova versão do A3 no país. "Cerca de 30% dos nossos clientes que compraram o C30 deram um Audi A3 como parte do pagamento", diz Fernando Pittinati, executivo do grupo Itavema, maior rede de concessionárias do país. "O dono de um A3 nacional tem dificuldade de trocá-lo pelo A3 importado." Como o modelo importado custa cerca de 115 000 reais (o preço do antigo era 90 000), o que se viu foi uma queda vertiginosa nas vendas -- e, finalmente, um brutal espaço para o crescimento de concorrentes. Segundo donos de revendas, é justamente entre os órfãos do A3 nacional que o Volvo C30 está ganhando espaço. "Consideramos natural a perda do volume de vendas em relação ao antigo A3 nacional", diz Andreas Deges, presidente da Audi no Brasil.
Apesar do crescimento registrado no último ano e da queda nas vendas do Audi A3, o C30 ainda perde a disputa para seus rivais diretos. No ano passado, foram vendidas 959 unidades do A3 importado (menos da metade do número do ano anterior) e 654 do BMW Série 1. As vendas do C30 somaram 579 unidades. Nos primeiros três meses do ano, a distância havia diminuído, mas a Volvo ainda estava na terceira posição. Para conquistar mais clientes, a montadora sueca planeja aumentar o número de revendas, justamente o ponto forte da Audi. Antes do lançamento do C30, existiam oito concessionárias da marca no país. A meta é ter 18 até o fim do ano, incluindo cidades com renda em expansão, como Salvador, Recife e Fortaleza. Embora não admitam que o C30 incomoda, os concorrentes estão revendo algumas estratégias comerciais. Para aumentar as vendas do A3 Sportback, a Audi determinou em fevereiro que seus concessionários reduzam a taxa de financiamento do veículo, de 1,30% para 0,69% ao mês. Pelo visto, a disputa pelos jovens endinheirados só vai aumentar.
