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O renascimento de Mumbai

 | 03.04.2008

O plano de 60 bilhões de dólares do governo indiano para transformar uma das metrópoles mais caóticas do planeta num novo centro financeiro

 

Dinodia

Mumbai: reconstrução inspirada em Xangai

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Por Tatiana Gianini

EXAME 

Mumbai é uma espécie de síntese do que a Índia tem de melhor -- e de pior. Lá estão sediadas a maior bolsa de valores do país, a indústria cinematográfica que mais produz filmes no planeta, Bollywood, e algumas das principais empresas indianas, como os conglomerados Reliance, do bilionário Mukesh Ambani, e o Tata Group, comandado pelo empresário Ratan Tata. Essa é a face moderna da cidade, que simboliza como nenhuma outra o estágio de desenvolvimento de uma economia que vem crescendo, em média, 9% ao ano. Mumbai é também uma das metrópoles mais caóticas do mundo. A poluição atinge níveis quase insuportáveis, falta água potável e todos vivem sob a ameaça de blecautes, pois o equilíbrio entre a demanda e a produção de energia se encontra no limite. Metade da população de 14 milhões de habitantes mora em favelas (uma delas, a de Dharavi, concentra 1 milhão de moradores, 17 vezes mais que a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro). O trânsito é sempre infernal. Nos horários de pico, os carros avançam a ritmo de elefante, com velocidade média de 13 quilômetros por hora. No transporte público, 5 000 passageiros se aglomeram em trens com capacidade para 1 700 pessoas. Muitos arriscam a vida em cima dos vagões. Por causa disso, centenas morrem nos trilhos por ano.

Obstáculos à modernidade
Para transformar a cidade de Mumbai em um novo centro financeiro mundial, o governo vai precisar resolver seus sérios problemas de infra-estrutura
TRÂNSITO
A frota da cidade é estimada hoje em 1,5 milhão de veículos, cinco vezes mais do que a registrada na década de 80. Em razão disso, a velocidade média do trânsito é de 13 quilômetros por hora
ENERGIA
A demanda diária de energia elétrica é de 2 500 megawatts, uma das médias mais altas do país.A situação está no limite e a cidade corre risco de sofrer apagões
AEROPORTO
O terminal de Mumbai é um dos mais congestionados do mundo. Planejado para atender 18 milhões de passageiros, atualmente recebe mais de 25 milhões
CUSTOS DE INSTALAÇÃO
Por causa da baixa oferta de imóveis em Mumbai, os gastos com aluguéis são altos, o que faz com que a cidade seja a quarta mais cara da Ásia

O governo indiano está empenhado em realizar uma faxina capaz de varrer do mapa a face atrasada de Mumbai e ressaltar seus pontos positivos. Para isso, anunciou recentemente um plano de investimento de 60 bilhões de dólares em melhorias urbanas até 2020. Um dos principais objetivos do projeto é transformar a metrópole num novo centro financeiro mundial, oferecendo uma série de facilidades para atrair empresas e profissionais desse setor, como se fosse uma versão asiática de Wall Street. "Queremos criar uma infra-estrutura de alto nível", afirma Vilasrao Deshmukh, ministro-chefe do estado de Maharashtra, do qual Mumbai é capital. O modelo que inspira a transformação de Mumbai é Xangai. No final dos anos 80, a metrópole chinesa era apagada e pouco desenvolvida, até que o prefeito Zhu Rongi colocou em prática o seguinte lema: "Infra-estrutura vem em primeiro lugar". Foram investidos 40 bilhões de dólares em dez grandes projetos de reconstrução urbana, entre novas pontes, túneis, metrô e sistemas de telecomunicações. Hoje, Xangai é uma das metrópoles mais pujantes e modernas da Ásia.

Os indianos acham que podem realizar feito semelhante com sua Mumbai. Um dos locais onde as obras já se iniciaram é o Aeroporto Chhatrapati Shivaji International, o maior do país. Planejado para atender 18 milhões de passageiros por ano, ele está hoje sobrecarregado. Atualmente, passam pelo aeroporto de Mumbai mais de 25 milhões de pessoas. É normal as aeronaves voarem em círculos por meia hora até conseguirem pousar. O projeto de repaginação, que engloba a construção de um novo terminal, expandirá sua capacidade de passageiros de 25 milhões para 40 milhões e dobrará seu volume de carga, além de incluir um centro comercial, um hotel e outras facilidades. Com um custo de 1,7 bilhão de dólares, as obras iniciadas em 2006 devem ser concluídas em 2010. Outro plano em andamento é a construção de um sistema de 150 quilômetros de metrô para desafogar o transporte público. A construção será feita em três etapas até 2021, a um custo de 600 milhões de dólares.

Mumbai é uma espécie de vitrine dos gigantescos desafios de infra-estrutura que a Índia tem pela frente. "Toda a Índia precisa lidar com a pobreza e a infra-estrutura precária. E esqueça os padrões dos problemas brasileiros, por exemplo, porque a situação do país asiático é extremamente pior", diz Philipp Rode, especialista em planejamento urbano da London School of Economics. Os problemas de Mumbai também existem em todas as outras cidades indianas, em maior ou menor escala. Cerca de 45% das residências do país não são abastecidas com energia elétrica e o tratamento de água e esgoto é inadequado, quando não inexistente. Em razão disso, o ministro da Fazenda, Palaniappan Chidambaram, anunciou que espera aumentar os investimentos da Índia em infra-estrutura de 5% para 9% do PIB. Nos próximos cinco anos, 500 bilhões de dólares serão investidos -- 30% desse valor vindo do setor privado. A soma será canalizada para a melhoria de cidades, portos, estradas e aeroportos. É a capacidade do governo de recuperar a infra-estrutura do país e renovar sistemas antiquados que vai determinar o futuro não só de Mumbai, mas de toda a Índia.

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