Nos últimos quatro meses, uma súbita movimentação de executivos chineses tem chamado a atenção dos ocupantes do edifício Paulista, um discreto prédio de escritório da avenida Paulista, em São Paulo. Nesse período, cerca de 30 representantes do Bank of China, um dos quatro grandes bancos de controle estatal do país, passaram por um escritório instalado no 21o andar do prédio. O que parecia um simples ponto de encontro de delegações chinesas de passagem pelo Brasil ganhou um caráter oficial na última semana com a chegada do executivo Zhang Jianhua, um dos vice-presidentes do Bank of China, designado para comandar a subsidiária brasileira, a primeira do banco na América do Sul. A missão que Jianhua recebeu de Pequim é clara: financiar os investimentos de empresas chinesas no Brasil. Para isso, ele tem em mãos uma linha de crédito que, estima-se, pode chegar a 100 bilhões de dólares. Se tudo correr como Zhang Jianhua imagina, o banco deve começar a operar dentro de dois meses e lançar as bases para que, até o final de 2010, mais de 30 empresas chinesas se estabeleçam no Brasil -- um investimento direto que deve ultrapassar 10 bilhões de dólares (veja quadro). Tal cifra colocaria a China na segunda posição entre os países que mais investem no Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos. "O mercado brasileiro está em franco crescimento", afirmou Jianhua a EXAME. "Há muitas oportunidades para empresas chinesas aqui."
Entre as companhias interessadas em investir no Brasil, o China South Group é a que se encontra em fase mais avançada. O grupo -- que fatura aproximadamente 10 bilhões de dólares por ano e reúne 76 companhias de setores tão distintos quanto têxtil, autopeças, sistemas ópticos, biotecnologia e automóveis -- inaugurou sua primeira fábrica no país no final de março. Em abril, a Jiailing, uma das divisões do conglomerado, começou a produzir, em Manaus, suas motocicletas de baixa cilindrada da marca Traxx. (Até então, as motos eram importadas desmontadas da China e montadas no Ceará.) Quando estiver em plena atividade, em dezembro, a fábrica produzirá 40 000 motocicletas por ano. A empresa, contudo, já estuda triplicar essa capacidade até meados de 2010. "O Brasil é estratégico para o China South Group", afirma Rogério Scialo, diretor executivo da Traxx. "A fábrica em Manaus foi somente o primeiro passo." Dentro do grupo, outras cinco companhias têm prospectado negócios no país. "A Traxx vai funcionar como uma espécie de ponte entre o Brasil e as outras empresas do grupo", afirma Scialo. A meta de conglomerados como o China South Group, que hoje opera em 55 países, é alcançar a relevância global da Lenovo e da fabricante de eletrodomésticos Haier, as duas marcas chinesas mais conhecidas no mundo.
| O desembarque dos chinese |
| Até 2010, cerca de 30 empresas chinesas devem se estabelecer no Brasil.As principais são: |
| BAOSTEEL |
| Faturamento 20 bilhões de dólares Maior siderúrgica chinesa, a empresa vai investir cerca de 2 bilhões de dólares em uma usina no Espírito Santo |
| CHALCO |
| Faturamento 11 bilhões de dólares A maior fabricante de alumínio da China deve investir 1,5 bilhão de dólares na construção de uma fábrica no Brasil |
| CHINA SOUTH GROUP |
| Faturamento 10 bilhões de dólares Das 76 empresas da holding, 20 querem investir no país.A fabricante de motos Jiailing já tem uma fábrica em Manaus |
| CHERY AUTOMOBILE |
| Faturamento 3 bilhões de dólares(1) Estão adiantadas as conversas para a instalação de uma fábrica da montadora chinesa em Pernambuco |
| (1) Estimativa |
O SETOR QUE MAIS TEM AGUÇADO o apetite dos chineses é o de automóveis. Pelo menos quatro grandes montadoras planejam lançar suas bases no Brasil até dezembro de 2009 para aproveitar o forte crescimento das vendas de carros no país. Das quatro, a Chery Automobile, quarta maior montadora da China, é a que tem o plano mais agressivo. A empresa mantém negociações com o governo de Pernambuco para a instalação de uma linha de montagem com capacidade para produzir 250 000 carros por ano -- o equivalente à fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia. Para produzir sua linha completa de veículos, a Chery vai investir mais de 500 milhões de dólares na nova fábrica. As outras três montadoras -- Geely, JAC e Chana -- estão à procura de parceiros locais, sobretudo nos estados do Norte e do Nordeste. "Qualquer fabricante de automóveis quer estar presente num mercado que cresce 40% ao ano", afirma Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.
A pouca familiaridade com a cultura e com o ambiente de negócios no Brasil é hoje um dos principais entraves ao investimento chinês no país. A pesada burocracia das diversas instâncias governamentais aliada à barreira imposta pela língua (pouquíssimos executivos chineses são fluentes em uma língua estrangeira) faz com que o pe ríodo de negociação acabe se arrastando ao longo de meses ou anos. A chinesa Baosteel, quinta maior siderúrgica do mundo, faz sua segunda tentativa de investir no Brasil em menos de quatro anos. Em 2004, os planos de construir uma usina no Maranhão em parceria com a Vale naufragaram depois que a empresa não conseguiu obter as licenças ambientais exigidas pelo governo. Ao longo de três anos, os executivos da Baosteel tiveram de reunir dezenas de documentos e elaborar outros cinco estudos de viabilidade social e ambiental para o projeto. Depois de acumular milhões de dólares em prejuízos, os chineses acabaram desistindo do projeto. Foi só recentemente que os executivos da companhia decidiram voltar à carga -- dessa vez no Espírito Santo. A Baosteel vai investir 2 bilhões de dólares para construir no estado uma siderúrgica do porte da CSN. "Os empresários chineses não estão habituados a exigências ligadas ao meio ambiente ou à demora do governo em tomar decisões", afirma Flávio Hirata, da Allier Brasil, especializado em assessorar empresas chinesas no país. "Para eles, o Brasil devia ser mais parecido com a China."
Além dos entraves burocráticos à instalação das indústrias, a demora na liberação de vistos por parte das autoridades brasileiras tem gerado mal-estar entre os chineses. O processo de obtenção do visto leva cerca de um mês e meio (o visto chinês, em contrapartida, sai em menos de uma semana). Só no ano passado, o Brasil recebeu mais de 1 000 delegações desse país. Entre empresários, executivos e representantes do governo, cerca de 10 000 chineses passaram pelo país à procura de novos negócios. Não fosse tal burocracia, estima-se que esse número poderia ter sido três vezes maior. "Os chineses têm pressa. Diante de tamanha demora, muitos executivos simplesmente desistem de visitar o Brasil", afirma um advogado especializado em assessorar empresas estrangeiras no país. As companhias chinesas já instaladas vêm tentando "importar" trabalhadores -- tarefa cada vez mais complicada. Recentemente, a Huawei, uma das maiores fabricantes de equipamentos de telecomunicações do mundo, levou quase três meses para trazer ao Brasil dez de seus engenheiros chineses. Outra companhia chinesa, a Citic, responsável pela instalação dos equipamentos da Companhia Siderúrgica do Atlântico, em construção no Rio de Janeiro, obteve a liberação de somente 600 dos 4 000 vistos solicitados para trabalhadores chineses. Para o governo brasileiro, trata-se de uma forma de proteger o mercado interno contra a entrada de profissionais não qualificados. Dada a disposição, o poder financeiro e a perseverança típica dos chineses, no entanto, não serão essas dificuldades que os impedirão de competir -- agora para valer -- no mercado brasileiro.

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