Durante várias décadas, os brasileiros que quisessem investir em mercados financeiros estrangeiros eram obrigados a enfrentar um périplo que não raramente levava à desistência por fadiga. Era preciso abrir uma conta fora do país e fazer remessas em moeda estrangeira, operações com um custo considerável e que envolviam uma boa dose de burocracia. No final de abril, a filial brasileira da Gems, gestora de recursos israelense, mudou essa história. Foi a primeira gestora a aplicar no exterior 100% dos recursos captados por um fundo multimercado no Brasil. O patrimônio do fundo -- 73 milhões de reais -- é quase irrisório num mercado que movimenta quase 300 bilhões, mas a estréia ganha relevância pelo caminho que abre. À medida que mais gestoras lancem opções de aplicações voltadas para o exterior, os investidores terão à disposição um leque em várias partes do mundo. "É um fenômeno que vai ampliar os horizontes", diz Alexandre Schwartzman, economista-chefe para a América Latina do banco Real e ex-diretor do Banco Central. "Esse é um sinal de amadurecimento do mercado brasileiro, que pode acolher investidores com diferentes estratégias", diz Marcelo Trindade, sócio da Trindade Advogados e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários, órgão que faz o papel de xerife do mercado financeiro.
O sinal verde da CVM para que fosse possível comprar cotas em reais de um fundo estabelecido no país que invista somente no exterior veio em fevereiro -- o limite imposto a cada investidor foi exigir um aporte mínimo de 1 milhão de reais. Desde então, nove gestores receberam permissão para montar fundos desse tipo. Sem contar o Gems, que tomou a dianteira, apenas três -- Gávea Investimentos, M Square e a Asset do BNP Paribas -- já começaram a fase de estruturação, mas a expectativa é que esse segmento ganhe corpo nos próximos anos à medida que a Selic, taxa básica de juro do país, caia e o apetite dos brasileiros pelo risco aumente. A grande vantagem das aplicações no exterior é a diversificação do portfólio. Os fundos voltados apenas para o mercado interno são suscetíveis aos mesmos fatores -- dos efeitos econômicos de escândalos políticos ao desempenho do PIB. Ao aplicar lá fora, o investidor torna parte de seu capital imune às variáveis nacionais. "A idéia é que o fundo traga retornos constantes, independentemente da situação do Brasil", diz Michel Abadi, diretor de produtos da Gems. "Na comparação com os fundos tradicionais, os resultados serão melhores quando o mercado interno estiver ruim e menos atraentes quando a conjuntura local estiver boa."
Nos últimos três anos, a Gems fez duas tentativas fracassadas de aprovar formas de investimento no exterior junto à CVM. Quando a regra mudou, a empresa estava pronta para ser a primeira. É bem verdade que não houve exatamente uma corrida pela linha de chegada. Na avaliação da maior parte das gestoras, a demanda por esse tipo de produto ainda é pequena. "O investidor brasileiro nunca teve dificuldade para encontrar investimentos atrativos dentro do país", diz Marcelo Giufrida, vice-presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento e presidente da gestora de recursos do banco BNP Paribas. Mesmo assim, o fundo da Gems conquistou 25 clientes em apenas cinco dias úteis de captação. "Colocar esse produto na carteira permite diluir riscos", diz Sylvio de Castro, gestor de recursos da Aguassanta Participações, um dos clientes do novo fundo. O fundo da Gems investe todos os seus recursos em um fundo internacional da própria Gems que existe há 13 anos e administra 3,6 bilhões de dólares. A partir daí, o dinheiro é novamente aplicado em outros 50 fundos com diferentes estratégias -- desde os chamados event driven, que apostam em eventos específicos, como a aquisição de uma empresa, até os que investem em títulos podres. O objetivo é que essa complexa composição dê um retorno de 16% ao ano.
| Um mercado que se abre | ||
| A possibilidade de investir em ativos no exterior aumenta as opções para os gestores de fundos brasileiros | ||
| Número de fundos de Hedge | ||
| Brasil | 246 | |
| Mundo | 10 096 | |
| Total de ativos administrados (em trilhões de dólares) | ||
| Brasil | 0,04 | |
| Mundo | 1,9 | |
| Retorno médio em 2007 | ||
| Brasil | 13,5%(2) | |
| Países emergentes | 25%(1) | |
| Países asiáticos | 36%(1) | |
| (1) Em dólares (2) Em reais Fontes: Hedge Fund Research e Arsenal Investimentos | ||
Historicamente, a Gems não se destaca por apresentar ganhos espetaculares -- a prioridade é entregar ao investidor resultados constantes, que resistam às eventuais crises. Desde 2005, por exemplo, a gestora previa que poderia ganhar muito com a falência das hipotecas americanas, mas nem por isso apostou tudo na derrocada do subprime. A Gems investiu apenas 2% de seus recursos no hoje famoso fundo Credit Opportunities, da gestora de recursos Paulson & Co., de Nova York, que rendeu 590% em 2007. "Mesmo que eu encontre uma oportunidade fantástica, não vou apostar minha casa nela", diz Abadi. A aplicação foi uma das grandes responsáveis para que o fundo da Gems apresentasse uma rentabilidade em dólares de 17,5% no ano passado -- bem acima da média do segmento multimercado no Brasil, de 13%. Ao ter sido a primeira a aplicar 100% do patrimônio de um fundo no exterior, a Gems já garantiu um lugar na história do mercado financeiro brasileiro. No radar dos investidores locais agora tem um mapa-múndi.
