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A Economista pop

 | 15.05.2008

Do roqueiro Bono Vox ao ex-premiê Tony Blair, a nigeriana Okonjo-Iweala coleciona admiradores por sua luta contra a corrupção e a pobreza na África

 

Charlie Bibby/REA

Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-gerente do Banco Mundial

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Por Tatiana Gianini

EXAME 

Publicações influentes, como o jornal inglês Financial Times e a revista americana Forbes, já incluíram a economista nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, de 53 anos, na lista das grandes personalidades mundiais. Ela também coleciona uma relação grande e variada de admiradores fora da imprensa especializada, que vão do cantor de rock Bono Vox, da banda irlandesa U2, ao ex-primeiro-ministro britânico e garoto-propaganda da terceira via Tony Blair. Num universo eminentemente masculino e onde as referências são pessoas com perfil sisudo e discreto -- caso do ex-presidente do Fed Alan Greenspan --, Ngozi chama a atenção por seu estilo pop. Mesmo em reuniões formais, faz questão de usar modelos típicos nigerianos, com chapéus e vestidos de algodão colorido. À primeira vista, isso pode até sugerir que ela faz parte do time daquelas personalidades escaladas para preencher a cota étnica em fóruns de entidades como a ONU, participando de discussões intermináveis e sem nenhum resultado prático. Ngozi, porém, vai muito além de sua figura quase folclórica. Sua capacidade como gestora pública começou a se tornar conhecida quando esteve à frente do Ministério das Finanças e Economia da Nigéria, entre 2003 e 2006. Num momento especialmente turbulento para o país, Ngozi conseguiu renegociar a dívida externa, reduziu quase à metade a inflação e criou um programa considerado exemplar para aumentar a transparência dos gastos públicos.

Por esse e outros trabalhos, a economista nigeriana é considerada hoje uma das maiores autoridades internacionais no combate a alguns dos problemas crônicos dos países em desenvolvimento, como a pobreza, a inflação e a corrupção. "Quando estou fazendo meu trabalho, guardo meu ego no bolso", disse ela numa entrevista recente. Ngozi dá expediente em Washington, nos Estados Unidos, onde fica a sede do Banco Mundial. A convite do presidente da instituição, Robert Zoellick, ela assumiu no final do ano passado o cargo de diretora-gerente. Uma de suas principais atribuições é a supervisão de projetos do banco em regiões pobres, como a África e o sul da Ásia. Seu objetivo consiste em aumentar o impacto dos empréstimos e programas do Banco Mundial nas nações em desenvolvimento. Ngozi está envolvida no momento em questões que vão desde a luta contra a Aids na Suazilândia até a diminuição da corrupção na Índia, um dos problemas endêmicos da potência econômica asiática. Em janeiro, ela se reuniu com autoridades do governo em Nova Délhi, a capital do país, para analisar propostas que visam reduzir os índices de desvio de verbas em setores como o de saúde.

Ngozi Okonjo-Iweala,
diretora-gerente do Banco Mundial
Idade
53 anos

Família
Casada, quatro filhos

Origem
Nigéria, na África
Formação
Graduada em economia pela Universidade Harvard
Carreira
Em 2003, tornou-se a primeira mulher a assumir o posto de ministra da Economia da Nigéria. Desde outubro de 2007 é diretora do Banco Mundial
Fãs
Por seu envolvimento no combate à pobreza,Ngozi tem entre seus admiradores personalidades como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e o cantor Bono Vox

A INDICAÇÃO PARA UM DOS CARGOS mais importantes do Banco Mundial se deve, em boa parte, ao eficiente trabalho executado por Ngozi à frente do Ministério das Finanças e Economia da Nigéria. Em 2003, ela se tornou a primeira mulher na história do país a comandar a pasta, chegando ao cargo num momento muito ruim, em meio a uma escalada inflacionária e com a Nigéria figurando como o segundo país mais corrupto do mundo, de acordo com o ranking da ONG Transparência Internacional. Num primeiro momento, a ministra concentrou-se na redução dos gastos públicos. Entre outras medidas, acabou com o hábito do governo de fazer sua previsão orçamentária com base numa cotação alta do barril do petróleo. Dessa forma, se o ano fechasse com oscilação negativa do preço, terminava-se com um rombo nas contas públicas. Somente com a canetada que acabou com essa prática, Ngozi poupou 7 bilhões de dólares num ano. Além disso, empenhou-se em aumentar o grau de abertura econômica da Nigéria, com a redução das tarifas de importação, e privatizou setores como o de telecomunicações. As medidas ajudaram a conter a inflação, cujo índice anual caiu de 14% para 8% durante seu mandato. Ao colocar a casa em ordem, ela também criou condições favoráveis para renegociar a dívida externa. Em 2005, firmou um acordo com os principais credores -- os países do Clube de Paris -- que resultou num perdão de 18 bilhões de dólares de um total de 30 bilhões devidos pela Nigéria.

Nenhuma dessas façanhas, porém, foi comparável ao que Ngozi Okonjo-Iweala realizou no campo do combate à corrupção. Uma de suas estratégias foi implantar em seu país uma cultura de transparência na prestação das contas públicas. A contabilidade das estatais do setor petrolífero, produto responsável por 20% do PIB nacional, era na época uma caixa-preta. Não se sabia sequer ao certo quanto o país ganhava com as exportações do produto. Depois de realizar uma grande auditoria no setor, a ministra passou a divulgar à população, periodicamente, todos os números importantes desse mercado. Algo semelhante ocorreu com o repasse de verbas federais aos governos estaduais. Com base no diagnóstico de que boa parte desse dinheiro se perdia no meio do caminho nas mãos de políticos corruptos, Ngozi ordenou a publicação dos dados do orçamento nos principais jornais do país a partir de 2004. Essa medida simples possibilitou à população fiscalizar diretamente a aplicação do dinheiro dos impostos, inibindo a ação dos gatunos. O conjunto de práticas criadas pela economista resultou numa queda expressiva nos níveis de corrupção. A situação continua ruim, mas deixou o estágio de calamidade pública. De segundo país mais corrupto do mundo, a Nigéria ocupa hoje o 32o lugar no ranking da Transparência Internacional (o Brasil é o 107o da lista).

O trabalho da ministra é lembrado até hoje como um dos melhores já realizados em prol do progresso da África. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, aclamou-a como uma brilhante reformista. Suas reformas serviram de fonte inspiradora para países como Tanzânia, Togo e Angola. O Egito também mandou à Nigéria uma equipe do governo para conhecer o que Ngozi fez em relação à corrupção. Na época em que implantou as principais medidas, a economista teve de enfrentar uma forte oposição e muitos problemas graves. Ela e seu marido, o médico Ikemba Iweala, chegaram a ser ameaçados de morte por meio de ligações telefônicas anônimas. "O presidente dobrou minha segurança, mas eu nunca tive medo", diz ela. Além disso, os críticos resolveram questionar seu salário, de 240 000 dólares anuais, bem acima da média dos outros ministros nigerianos, de 6 000 dólares. O contracheque da ministra era pago na época pela ONU, dentro de um programa para a repatriação dos melhores cérebros da Nigéria. "Nunca houve segredo sobre meu salário. Mas os que eram contra as minhas reformas decidiriam que podiam usar isso para me atacar", diz Ngozi. Em 2005, devido às pressões, ela tomou a medida demagógica de anunciar a redução do salário para a mesma média dos demais ministros do país.

Nascida no estado nigeriano do Delta, Ngozi Okonjo-Iweala é filha de dois professores universitários. A família passou por uma situação crítica no final dos anos 60, quando estourou no país a guerra civil de repressão a Biafra, estado com pretensões separatistas. No conflito, que durou até 1970, mais de 1 milhão de pessoas morreram. Na época, a família Okonjo-Iweala chegou a passar fome. No mesmo período, Ngozi quase perdeu a irmã mais nova, que contraiu malária. A garota só não morreu porque, durante uma crise, Ngozi levou-a até o médico mais próximo caminhando 10 quilômetros a pé, uma história que ela faz questão de lembrar em discursos.

Aos 18 anos, mudou-se para os Estados Unidos e estudou economia na Universidade Harvard graças a uma bolsa da escola. Em seguida, fez pós-graduação em desenvolvimento e economia regional no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em 1982, ingressou no programa de jovens profissionais do Banco Mundial, em Washington, trilhando por lá uma bem-sucedida trajetória, até aceitar o convite para ser ministra da Nigéria. Pouco se sabe sobre seus hábitos e sua vida pessoal. Ela mora em Washington com o médico Ikemba Iweala, com quem teve quatro filhos. O casamento sofreu uma crise no ano passado, quando veio a público um caso extraconjugal de seu marido com uma jovem enfermeira. A história foi parar nos jornais, pois a amante foi acusada de tentar extorquir dinheiro de Iweala. O médico assumiu publicamente o romance, mas Ngozi permaneceu a seu lado durante o escândalo e continua casada com ele até hoje.

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