Revista EXAME -
Ninguém resumiu tão bem as dificuldades encontradas por uma empresa familiar quanto o investidor americano Warren Buffett. Para ele, são enormes as chances de que a qualidade da gestão caia de uma geração para a outra, quando um herdeiro assume o comando dos negócios. “É como disputar a Olimpíada de 2020 com os filhos dos vencedores da Olimpíada de 2000”, disse Buffett. Apesar disso, algumas empresas familiares impressionam pela longevidade. A história da cervejaria americana Anheuser-Busch é um exemplo. Fundada há um século e meio, a companhia foi liderada por seis gerações de presidentes do clã Busch. No período, tornou-se um ícone americano, famoso mundialmente pela marca Budweiser. Esse histórico de resistência, porém, está seriamente ameaçado pela oferta de 47 bilhões de dólares da cervejaria belga InBev. E, ironicamente, coube ao Busch menos preparado a tarefa de proteger o legado da família. Aos 44 anos, August Busch IV, atual presidente da empresa, não tem nenhum grande feito administrativo em seu currículo. Foi um adolescente rebelde e problemático. Ainda garotão, bateu seu Corvette em alta velocidade. No acidente, sua acompanhante morreu, mas ele deixou o local sem socorrê-la. Anos depois, foi preso ao tentar atropelar dois policiais. Esses são os episódios mais marcantes de sua biografia — pelo menos até agora. Hoje, ele convive com a ameaça de entrar para a história da família como o Busch responsável por passar adiante o império criado por seus antecessores.
No Brasil, o clã fundador de uma empresa costuma manter controle absoluto sobre seu negócio. Decisões estratégicas são tomadas numa sala fechada e depois simplesmente comunicadas aos acionistas minoritários. Nos Estados Unidos, a coisa normalmente funciona de maneira diferente. Como até mesmo as empresas familiares costumam ter capital pulverizado na bolsa de valores, decisões como a venda da empresa são tomadas pelo conjunto de acionistas. August Busch IV afirmou recentemente que jamais venderá a empresa. Uma de suas maiores motivações não tem nada a ver com negócios, mas com psicanálise pura e simples. Busch IV quer mesmo é amor. Mais precisamente, de seu pai, August Busch III. A relação dos dois é tão calorosa quanto uma Bud gelada. “Conquistarei o amor e o respeito dele quando eu for bem-sucedido”, afirmou o atual presidente da companhia. Se depender dele, portanto, o negócio fica nas mãos da família até que convença papai de suas capacidades. O triste, para Busch IV, é que ele não tem o poder de decidir sozinho se a AB será ou não vendida. A participação da família no capital da empresa é de apenas 4%, menor que a fatia do banco Barclays, por exemplo. Embora controlem a gestão, os Busch têm de prestar contas aos donos dos outros 96% das ações. É a maioria que vai decidir se a empresa vai ou não parar nas mãos da InBev e de uma gestão formada por forasteiros brasileiros — e eles podem simplesmente dizer a Busch IV que vá superar seus complexos no divã.
| August Busch IV, sexto integrante da família Busch a presidir a cervejaria Anheuser-Busch |
| Idade 44 anos |
| Trajetória Começou na companhia como aprendiz de cervejeiro e passou a maior parte da carreira na área de marketing. Ocupa a presidência há um ano e meio |
| Perfil Foi um jovem problemático. Quando estava na faculdade, foi responsável por um acidente de trânsito que matou sua acompanhante. Busch deixou a cena sem socorrer a vítima. Tem uma relação conflituosa com o pai, ex-presidente da cervejaria e hoje conselheiro da companhia,August Busch III |
| Objetivo Impedir que a Anheuser-Busch, um ícone americano, seja adquirida por uma empresa estrangeira |
Para convencer os outros acionistas e se manter à frente da empresa fundada por seu tetravô, August Busch IV terá de vencer um incômodo dado da realidade — a fusão entre AB e InBev faz todo o sentido para todos os envolvidos. Se concretizada, a aquisição criaria a maior cervejaria do mundo, com faturamento de 41 bilhões de dólares. Hoje, a maior do setor é a sul-africana SABMiller, com receita de quase 26 bilhões de dólares. Seria também a quarta maior empresa de bens de consumo do planeta, atrás apenas de Procter&Gamble, Nestlé e Coca-Cola. Juntas, AB e InBev controlariam um quarto do mercado mundial de cerveja, com todos os ganhos de escala que isso pode proporcionar. A fusão entre as duas empresas sempre foi vista como um passo natural, já que AB e InBev têm atuações totalmente complementares. Enquanto os americanos são líderes nos Estados Unidos, a InBev — resultado da associação entre a brasileira AmBev e a belga Interbrew — domina os mercados europeu e sul-americano. A maior vantagem da aquisição, portanto, é a chance de expandir as marcas de ambas as empresas a novos mercados. A Budweiser seria distribuída na Europa e na América do Sul. E marcas como Stella Artois e Becks ganhariam acesso ao maior mercado do mundo, o americano. “O impulso para o crescimento das marcas das duas empresas seria enorme”, diz Kris Kippers, especialista em bebidas da corretora belga Petercam.
| O peso de cada uma | |
| Faturamento da InBev, da Anheuser-Busch e a soma deles | |
| InBev | 22,3 bilhões de dólares |
| Anheuser-Busch | 19 bilhões de dólares |
| InBev+Anheuser-Busch | 41,3 bilhões de dólares |
Uma eventual fusão uniria duas empresas com culturas corporativas totalmente diferentes. Os brasileiros da InBev são famosos por sua agressividade, pelo incentivo à meritocracia e por um estilo de gestão espartano ao extremo. Ao longo das últimas décadas, a aristocrática AB construiu uma gestão conhecida por sua lentidão, baixas taxas de crescimento e ineficiência. Enquanto os custos administrativos da InBev não passam de 280 milhões de dólares, na cervejaria americana essa linha do balanço mostra gastos de 500 milhões de dólares. Com isso, a InBev consegue ser muito mais lucrativa. O lucro operacional por barril de cerveja da InBev é de cerca de 30 dólares, cerca de 30% maior que o da concorrente americana. Além de ineficiente, a AB provou-se míope em sua estratégia de crescimento. Sua principal fragilidade está no fato de que 80% de suas vendas concentram-se nos Estados Unidos, um mercado em que o consumo de cerveja tem diminuído nos últimos dez anos. Para piorar, a AB tem perdido espaço até mesmo dentro dos Estados Unidos. Sua participação de mercado recuou de 52,1% em 2003 para 50,2% no ano passado, segundo a consultoria Impact Databank — as vendas da marca Budweiser caíram à metade desde 1998. Pior, a cervejaria perdeu as principais oportunidades de expansão fora dos Estados Unidos. Só nos últimos cinco anos, foram realizadas mais de 150 aquisições no setor de cervejas. A maior delas aconteceu em janeiro, quando as cervejarias Carlsberg e Heineken se juntaram para comprar a britânica Scottish & Newcastle, por 15,3 bilhões de dólares. Os únicos investimentos importantes da AB fora dos Estados Unidos foram a compra de 50% da cervejaria mexicana Modelo e de 27% da chinesa Tsingtao. Não foi o suficiente para reduzir sua crônica dependência do mercado americano.
| O que é a Anheuser-Busch |
| Fundação 1852 |
| Marcas 100 entre elas Budweiser |
| Faturamento 19 bilhões de dólares |
| Principais mercados Estados Unidos e México |
| Maiores acionistas O banco Barclays, o investidor americano Warren Buffett e a família Busch |
| Outros negócios Parques temáticos, produção e reciclagem de embalagens, negócios imobiliários, logística e agricultura |
É justamente por acumular tantos problemas que a Anheuser-Busch se tornou alvo da InBev. Nos últimos quatro anos, as ações da cervejaria americana tiveram valorização de apenas 14%, enquanto o valor de mercado da InBev quase duplicou. Com o valor de mercado da presa depreciado e a ajuda de um dólar enfraquecido, foram criadas as condições para uma oferta hostil. Além disso, as ineficiências na gestão da AB fazem da tentativa de aquisição um exemplo clássico da estratégia de compras de Jorge Paulo Lemann e sua turma — adquirir empresas ineficientes e iniciar um agressivo plano de corte de custos. Segundo a gestora de recursos americana Alliance Bernstein, o potencial de redução de gastos é de 960 milhões de dólares por ano. Não é preciso ir longe para constatar o potencial de ganhos que essa estratégia proporciona. Desde que assumiram o comando da InBev, em 2004, os brasileiros liderados por Carlos Brito conseguiram aumentar a geração de caixa da empresa em incríveis 128%. A InBev garante que não fechará fábricas nem mudará a sede da empresa da cidade de St. Louis, no estado americano do Missouri. Para manter um bom relacionamento na cidade, Brito e seus executivos consideram até mesmo preservar o atual estábulo onde são criados cavalos da raça Budweiser Clydesdale, que puxavam as carroças de entrega de Bud no início do século passado. Uma vez que o negócio seja fechado, porém, executivos da InBev ouvidos por EXAME não esperam nada diferente de um corte drástico de custos operacionais na cervejaria americana assim que os brasileiros desembarcarem em St. Louis. Negócios que nada têm a ver com cerveja, como os parques temáticos Busch Gardens, serão imediatamente vendidos.
| Um século e meio de cerveja |
| A história da mais tradicional cervejaria americana se confunde com a história da família Busch |
| 1800 |
| 1852 George Schneider funda a Bavarian Brewery, na cidade de St. Louis, no estado do Missouri |
| 1860 Eberhard Anheuser compra a Bavarian Brewery e troca seu nome para E. Anheuser & Co. |
| 1864 Adolphus Busch casa-se com a filha de Anheuser e começa a trabalhar na cervejaria |
| 1876 É criada a Budweiser. Um de seus primeiros anúncios foi um quadro pintado por Adolphus Busch |
| 1879 A empresa passa a se chamar Anheuser-Busch |
| 1880 Com a morte de Eberhard Anheuser, Adolphus Busch assume a presidência da companhia |
| 1900 |
| 1913 Adolphus Busch morre e August A. Busch passa a comandar a cervejaria |
| 1920 A Lei Seca entra em vigor nos Estados Unidos e a companhia começa a produzir sorvete e chocolate |
| 1934 Adolphus Busch III torna-se presidente. Dois anos depois, a Budweiser passa a ser vendida em lata |
| 1946 Adolphus Busch III morre e August A. Busch Jr. torna-se o presidente |
| 1974 August A. Busch III é eleito presidente |
| 1980 AAnheuser-Busch abre o capital em Nova York |
| 2000 |
| 2001 A Bud Light torna-se a marca de cerveja mais vendida dos Estados Unidos |
| 2006 August A. Busch IV assume o comando da empresa |
| 2008 A InBev oferece 47 bilhões de dólares pelo controle da Anheuser-Busch |
A possibilidade de um grupo de brasileiros chegar ao Missouri cortando custos e cabeças e assumindo a gestão de uma das mais tradicionais marcas americanas tornou a oferta pela Anheuser um assunto de interesse nacional nos Estados Unidos. Criou-se um movimento para manter a cervejaria em mãos americanas. O blog Saveab.com reuniu 30 000 assinaturas, incluída aí a do governador do Missouri. Após se reunir com Brito no Congresso, a senadora democrata Claire McCaskill afirmou: “A Anheuser-Busch é parte da cultura americana. Espero que a oferta seja rejeitada”. O pano de fundo desse movimento é a angústia americana diante do relativo declínio de suas dinastias, em particular, e de sua economia, em geral. Nos últimos meses, quatro famílias tradicionais perderam seus negócios, sendo a mais famosa o clã Bancroft, fundador do Wall Street Journal. Todas as empresas foram parar nas mãos de investidores americanos (o australiano Rupert Murdoch, novo dono do Journal, naturalizou-se americano). A AB seria a primeira adquirida por bárbaros de países emergentes. Daí a gritaria.
E talvez a única saída para a família Busch seja mesmo capitalizar em cima desse suposto patriotismo para defender seus interesses. Por enquanto, o comando da Anheuser-Busch está adotando a estratégia prevista em todos os livros-textos de fusões e aquisições. Contratou bancos de investimento (Goldman Sachs e Citi) para inventar maneiras de inviabilizar o negócio ou aumentar o preço da aquisição. A possibilidade mais cogitada para tornar a transação impraticável é a aquisição da cervejaria mexicana Modelo (a AB já tem 50% das ações da companhia). Com essa transação, o preço total da AB aumentaria entre 12 bilhões e 15 bilhões de dólares — comprometendo os planos da InBev de realizar a aquisição sem perder seu perfil de grau de investimento. Segundo os analistas, porém, essa estratégia encontraria enormes barreiras entre os demais acionistas da AB, que querem simplesmente aceitar a oferta, embolsar o dinheiro e partir para outra. Um dos maiores interessados é Warren Buffett, amigo íntimo de Jorge Paulo Lemann e dono de 5% das ações da empresa (mais que a família Busch). Ele lucraria 600 milhões de dólares com a venda. E a administradora de recursos americana Eaton Vance, décima maior acionista da AB, já se declarou favorável ao negócio.
Para piorar as coisas para August Busch IV, o herdeiro em crise existencial, até mesmo sua família entra dividida na discussão. Um de seus primos enviou em 20 de junho uma carta em que pede ao conselho de administração que aceite os termos da InBev. Uma fonte de resistência à aquisição até aqui tem sido seu pai, August Busch III, o lendário ex-presidente da AB. Quando ele assumiu, em 1975, a companhia tinha 23% do mercado de cerveja americano e passava por um dos maiores desafios de sua história: o rápido avanço de sua principal rival, a Miller. Assim que se tornou presidente, Busch III criou duas cervejas light, reformulou marcas para agradar especificamente aos jovens e investiu pesado em marketing. Quando deixou a empresa, em 2002, a Anheuser-Busch tinha mais de 50% de participação de mercado. Sob o comando de August Busch IV, as ações da AB mantiveram-se acima dos 45 dólares. Os investidores têm agora a chance de vender seus papéis por 65 dólares, valor cerca de 20% maior que o recorde histórico. A partir de agora, o herdeiro na berlinda tentará convencer os outros acionistas de que a AB pode chegar ao mesmo patamar sozinha — e, talvez ainda mais difícil, mostrar que é ele o homem mais indicado para levar a companhia até lá.
Clique aqui e veja o perfil de Carlos Brito, o brasileiro que preside a InBev e quer torná-la a quarta maior empresa de produtos de consumo do mundo.