Revista EXAME -
Dez anos depois da privatização do setor de telecomunicações no Brasil, o número de assinantes de telefonia móvel aumentou de 7,4 milhões, em 1998, para 140,8 milhões atualmente - 19 vezes mais. Esse desempenho coloca o Brasil em quinto lugar no ranking mundial em número de celulares. Apesar do ritmo acelerado de crescimento, o país ainda tem muito a avançar. No final de 2007, de cada 100 brasileiros, 64 possuíam telefone celular, abaixo da média de países como México, África do Sul, Rússia e Argentina. Esse número indica a existência de um potencial de expansão para as operadoras, sobretudo entre as camadas mais pobres da população, a chamada classe C. Nos demais segmentos - classes A e B -, as oportunidades estão nas vendas de aparelhos mais sofisticados, como o iPhone, que multiplicam também o consumo de pacotes de dados entre os clientes. Para 2008, a previsão de crescimento para a telefonia móvel é de 21% e, para 2009, de 16%, o que significa que em dois anos o país deverá atingir a marca de 170 milhões de telefones celulares. Se confirmadas as previsões, no final de 2009, de cada 100 brasileiros, 87 terão telefone celular.
Avaliação geral do segmento
1 - Características do marco regulatório
• Para especialistas, o setor de telefonia móvel é tão ou mais regulado que o de telefonia fixa. Há um excesso de regulação, considerado um entrave para o desenvolvimento do mercado.
2 - Questões legais
• A obrigatoriedade de recolhimento de uma parte da receita para o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) e para o Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) é criticada por especialistas. No caso do Fistel, a empresa faz o recolhimento a cada chip ativado e, depois disso, uma vez por ano. O impacto dessa cobrança sobre o custo da operação é grande, especialmente no caso dos pré-pagos, que proporcionam baixa receita às operadoras e são os mais demandados pelas classes de menor poder aquisitivo.
3 - Questões tributárias
• A carga tributária para o setor está entre as mais altas do mundo, entre 50% e 56% da receita das empresas. Esse tratamento é considerado inadequado para um setor que está na base do desenvolvimento econômico do país e que, portanto, demandaria incentivo por parte do governo.
4 - Questões institucionais
• Houve grande avanço no setor depois do leilão das freqüências 3G. Mas cada novo passo no sentido de ampliar as possibilidades de tecnologia é dado com muita lentidão.
5- Investimentos
• As operadoras de telefonia móvel ampliaram seus investimentos a partir de 2007, quando foi realizado o leilão das freqüências de terceira geração (3G). Agora, essas empresas têm pouca liberdade para reduzir os investimentos nos próximos anos, pois assumiram metas de universalização dos serviços. Ao comprar licenças para a 3G, por exemplo, as operadoras móveis se comprometeram em estender a cobertura a áreas com baixa densidade populacional, conforme cronograma determinado pela Anatel. Em 2009, cerca de 1 000 novos municípios devem receber cobertura.
• O que favorece essas companhias é o fato de ter suas receitas ligadas ao mercado interno, contar com forte geração de caixa e não ter sua atividade tão atrelada às variações do PIB. As operadoras também trabalham com uma dívida controlada e possuem apenas uma pequena parte do endividamento e de seu cronograma de investimentos atrelada ao dólar. Como, de maneira geral, essas companhias estão bem protegidas contra a depreciação do real, os impactos no balanço têm sido sentidos no resultado líquido, e não no caixa.
Desafios
• O acirramento da concorrência tem provocado a queda nas receitas dos serviços de voz, que já se tornaram commodities. Essa queda precisa ser compensada com novas alternativas, como a transmissão de dados. No Brasil, a participação da receita de dados em relação à receita total de serviços ainda é baixa se comparada à de outros países. Assim, as empresas precisam buscar serviços inovadores, com maior valor agregado, e convencer os consumidores a incorporá-los em seu dia-a-dia.
• Aumentar o volume de ligações de móvel para fixo e de móvel para móvel.
• Competir nesse mercado é uma tarefa cada vez mais árdua. As diferenças entre as operadoras serão acentuadas pela entrada em vigor da regra da portabilidade numérica, que permite ao usuário manter seu número de telefone em caso de troca de prestadora. E ganharão reforço com o debate sobre o desbloqueio de celulares, largamente defendido pela Oi, que decidiu se concentrar na prestação de serviços e deixou, há algum tempo, de oferecer subsídios a aparelhos.