
Boa parte dos grandes negócios ligados ao setor de turismo tem histórias de surpresas desagradáveis no momento de recrutar mão-de-obra. O EcoResort, em Praia de São João, no litoral norte da Bahia, por exemplo, registrou prejuízos nos anos 90, época em que informatizou seus serviços. Motivo: os garçons não sabiam como lançar as despesas no sistema. Outro grupo com negócios no estado, o Marriott, que opera dois resorts em Costa do Sauípe, a 80 quilômetros de Salvador, enfrentou um problema ainda maior. A maioria de seu corpo de empregados foi recrutada numa comunidade que vivia basicamente da pesca. No início da escolha dos funcionários, verificou-se que eles tinham dificuldades para usar os sanitários e não costumavam calçar sapatos. Muitas vezes, a questão não se resolve nem com um processo de seleção mais rigoroso. "Não raro, mesmo com o diploma de ensino médio na mão, o candidato é semi-analfabeto", afirma Vanderlei Carnaval, diretor de recursos humanos da CVC, maior agência de viagens do Brasil.
O drama da qualificação de mão-de-obra parece um paradoxo num país que assistiu, nos últimos anos, a uma verdadeira explosão de cursos de turismo no ensino superior. O primeiro deles foi criado em 1971 pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Durante um bom tempo, foi o único do mercado. Hoje, existem 740 cursos especializados. Juntos, eles despejam por ano no mercado de trabalho 80 000 novos profissionais. Apesar dos avanços, ainda é um número insuficiente para preencher as necessidades do setor, que emprega cerca de 2 milhões de pessoas no país e se encontra em fase de grande expansão. Hoje, as empresas são obrigadas a recrutar o grosso da mão-de-obra da área fora do circuito universitário ou dos cursos profissionalizantes. De acordo com um levantamento recente do IBGE, apenas 30% dos trabalhadores da área do turismo possuem mais de dez anos de escolaridade. Em outros termos, só uma minoria ultrapassou a fase dos ciclos de ensino fundamental e médio.
Diante desse cenário, as empresas do setor tiveram de procurar alternativas para não comprometer a qualidade do serviço. Boa parte delas resolveu treinar por conta própria a mão-de-obra. O EcoResort, por exemplo, oferece diversos cursos específicos para a formação de camareiras, garçons e barmen. "Entre outros incentivos à participação de todos, proporcionamos redução de carga horária de trabalho em troca de participação nas aulas", afirma Maria Helena Santana, diretora comercial do empreendimento.
| O perfil dos trabalhadores | |
| Quem são os empregados da indústria do turismo | |
| Gênero | (em %) |
| Homens | 64 |
| Mulheres | 36 |
| Anos de estudo | (em %) |
| Até dez anos | 70 |
| Mais de dez anos | 30 |
| Fonte: IBGE | |
Redes em fase acelerada de expansão tiveram de procurar alternativas ainda mais sofisticadas para suprir a demanda por mão-de-obra. É o caso do Grupo Accor, que criou em 1992 uma universidade corporativa. A instituição vem acompanhando a evolução da empresa, que pretende abrir mais de 40 hotéis no país até 2010. Graças a isso, o número de funcionários deve aumentar dos atuais 7 000 para 12 000. Para capacitar todo esse contingente, a Académie Accor (nome de batismo do projeto de ensino) possui hoje um extenso pacote de cursos, alguns deles específicos para funcionários de suas diferentes bandeiras, como Formule 1, Ibis e Mercure. O programa prevê que cada funcionário participe de pelo menos duas atividades de treinamento por ano. Outra grande empresa do setor, a CVC, está em fase de implantação de sua universidade corporativa, inicialmente voltada para os profissionais de vendas. Até o fim do ano, a operadora pretende ampliar o leque de cursos e lançar um MBA em turismo.
Esse investimento na formação da mão-de-obra obriga a empresa a fazer uma ginástica contábil. O projeto da universidade vai exigir um investimento total de 3 milhões de reais. O desafio é colocá-lo em prática sem que isso provoque impacto no preço dos pacotes oferecidos pela companhia (algo especialmente desastroso para uma marca que faz sucesso por vender produtos acessíveis à classe média). Parece altamente injusto que a iniciativa privada, além de gerar emprego e pagar os impostos, ainda tenha de tirar do próprio bolso para conseguir funcionários com um padrão mínimo de qualificação (afinal, educação é um dos deveres do Estado). Mas a realidade obriga as empresas a adotar uma postura pragmática, pois o que está em jogo é a satisfação do cliente e, em última instância, a preservação de seu negócio. O EcoResort, por exemplo, que investe 500 000 reais por ano em seu projeto de formação de empregados, recebeu, nos últimos seis anos, nota 9,5 de média, numa escala de zero a 10, na avaliação de satisfação feita pelos hóspedes. "Jamais chegaríamos a esse patamar sem investir seriamente na qualificação de nossa mão-de-obra", afirma Santana.