
Em março, durante seu primeiro discurso como ministra do Turismo, a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, definiu como uma das prioridades de seu mandato o combate ao turismo sexual. "Não queremos esse tipo de visitante no país", afirmou ela, durante cerimônia de transmissão do cargo, que era ocupado pelo novo articulador político do governo, Walfrido dos Mares Guia. O assunto tomou proporções sérias, a ponto de o país ser identificado hoje como um dos mais problemáticos da América do Sul nessa questão, de acordo com estudos de especialistas ligados à Organização Mundial de Turismo. Além do flagelo social gerado pelos estrangeiros que vêm ao Brasil em busca de encontros amorosos, prática que alimenta a prostituição infanto-juvenil, o problema mancha a reputação do país no exterior. Por causa disso, o Brasil corre o risco de atrair apenas um público internacional de segunda classe, formado por europeus de baixa renda que desembarcam por aqui em vôos fretados.
O primeiro reconhecimento público sobre a dimensão do problema partiu da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur). Em 1995, o órgão retirou de circulação no exterior propagandas que apelavam para a sensualidade das mulheres brasileiras para atrair visitantes. A iniciativa acabou sendo copiada por vários estados. Na Região Nordeste, considerada uma das mais problemáticas nessa questão no país, vários deles avançaram na questão e produzem hoje peças de caráter preventivo. Nos últimos anos, por exemplo, a prefeitura de Natal, no Rio Grande do Norte, vem espalhando pela cidade folhetos e cartazes dirigidos aos visitantes estrangeiros, com slogans como Stop Sex Tourism ("Pare o turismo sexual", numa tradução livre). Um filme da mesma campanha é exibido no setor de desembarque internacional do aeroporto da capital potiguar. As ações se concentram nos períodos de alta estação.
O trabalho de repressão também está aumentando no país (veja quadro). Uma das iniciativas foi a implantação em 2003 de um disque-denúncia para ajudar no combate ao problema. Criado por uma parceria entre o Ministério do Turismo e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, o serviço já recebeu 30 000 ligações. Parte considerável delas está relacionada a crimes de exploração sexual e favorecimento à prostituição. Depois de passar por uma triagem, elas são encaminhadas aos órgãos competentes, como o Ministério Público. A Polícia Federal também vem tendo uma atuação importante nesse campo, em parceria com as secretarias de Turismo estaduais. Desde 2003, os homens da PF intensificaram as batidas em casas noturnas das cidades turísticas. No ano passado, numa ação em Natal, os agentes prenderam 110 estrangeiros por falta de passaporte, na boate Hollywood, na praia de Ponta Negra, um dos principais pontos turísticos da capital potiguar. Depois de pagar multa de 165 reais, eles foram liberados. "Como ninguém pode ser preso por sair com prostitutas ou freqüentar casas de strip-tease, as blitze funcionam como inibidor aos turistas que vêm para cá com essa finalidade", afirma o delegado Felipe Seixas, chefe da divisão de direitos humanos da Polícia Federal.
As receitas que os visitantes estrangeiros geram para muitas cidades sempre representaram uma barreira no combate ao problema. Por causa disso, o setor de hotelaria de muitas delas sempre fez vista grossa para o problema. O panorama começou a mudar. Um exemplo é o trabalho que vem sendo realizado pelo grupo Atlantica Hotels, que administra 50 estabelecimentos no país. A empresa mantém desde 2005 um programa de treinamento de funcionários para coibir o turismo sexual. Entre outras coisas, eles são orientados a recusar a hospedagem de pessoas acompanhadas de menores sem documentação. Já passaram pelo curso 2 000 empregados da rede. "Precisa ficar claro para todos os clientes que nosso hotel não é apenas contra a prática do turismo sexual como vai imediatamente denunciar qualquer irregularidade às autoridades", afirma Dináurea Cheffins, vice-presidente de recursos humanos da Atlantica.
Em muitos estados, é possível dizer hoje que o cerco a esse tipo de visitante começa bem antes do embarque rumo ao Brasil. Governos como o do Ceará passaram a adotar uma política de filtragem do perfil de estrangeiros trazidos pelos vôos fretados. As agências que trabalham com um público considerado suspeito não recebem nenhum tipo de incentivo. Em contrapartida, são realizadas parcerias entre a Secretaria de Turismo do estado e as empresas que vendem pacotes para famílias e estrangeiros com bom poder aquisitivo. "Estamos focados nesse mercado, fazendo ações de marketing para esse público que vai saber apreciar as belezas do estado", afirma Bismarck Maia, secretário de Turismo do Ceará. "Demorou, mas finalmente as pessoas envolvidas com o setor no Brasil aprenderam que não é um bom negócio crescer no turismo atraindo qualquer tipo de visitante."